Um real ambiente acadêmico e o mundo fantástico do STF

Doutora em Filosofia, Catarina Rochamonte escreve acerca das patrulhas ideológicas na academia e a decisão de juízes do STF de suspender atos de fiscalização da Justiça Eleitoral em universidades públicas.


Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar)

Por Catarina Rochamonte
focus@focus.jor.br

Um grupo de jovens se conheceu em uma certa universidade pública e, em face da afinidade de comungarem da fé cristã, resolveram empreender atividades acadêmicas por meio de grupos de estudos. Reunindo-se semanalmente, o grupo estudava história da Igreja e apologética contemporânea. Por causa dessas atividades intelectuais e por serem contrários à visão política hegemônica naquele meio – dominado ideologicamente por partidos políticos alinhados à esquerda – esses alunos foram intimidados, assediados, hostilizados e escarnecidos publicamente nas redes sociais de um de seus professores.

Diante de tais ocorrências, esses alunos criaram um grupo em rede social no qual incluíram uma professora dessa instituição com a qual tinham afinidade a fim de que ela, como professora, pudesse ajudá-los, já que estavam se sentindo coagidos e intimidados devido a seus posicionamentos políticos e fé religiosa, temendo, inclusive, serem agredidos fisicamente devido à exaltação de ânimo dos dias de eleição.

De fato, após o resultado do primeiro turno, professores trocaram as aulas por discursos inflamados nos quais diziam da necessidade de deter o fascismo nem que fosse à bala, já que os fascistas não estavam no mesmo nível de discurso que eles. Enquanto o professor discursava, um aluno manuseava um canivete. O temor dos alunos cristãos era, portanto, bastante fundado já que esse grupo dissidente – impermeável à doutrinação constante do ambiente acadêmico que lhes era hostil – era tido pelos outros colegas de curso como corja fascista.

A professora procurada pelos alunos, para além de suas atividades acadêmicas, também escrevia textos para mídias diversas desde a perspectiva politica liberal-conservadora, além de participar, com certa frequência, de programas de rádio e de debates. Ora, houve que essa professora, tendo sido convidada por um importante jornal local a escrever artigos quinzenais sobre as “eleições 2018” ousou escrever texto bastante contundente contra a visão de mundo materialista e progressista, despertando assim um incômodo ainda mais acentuado na sua comunidade acadêmica, tanto que as críticas, antes veladas, tornaram-se mais explícitas, assumindo um tom claramente belicoso que descambou para as ofensas pessoais nas redes sociais.

De fato, a publicação de um dado artigo rendeu-lhe ofensas de alunos, colegas professores e, pasme-se, de seu superior hierárquico, o coordenador do curso no qual a referida professora atua. Em grupos da faculdade, alunos e professores falavam abertamente da necessidade de que o colegiado dos docentes desse a ela uma resposta à altura a fim de evitar o desenvolvimento do embrião da direita naquela instituição, tendo sido feita, nessa ocasião, a associação da referida professora com o grupo cristão do qual falávamos, ambos apontados como corja fascista.

Não houve, portanto, intenção de estabelecer o saudável debate público de ideias como se poderia esperar em um ambiente universitário. Pelo contrário, professores agiram de maneira orquestrada no intento de expor a professora ao escárnio dos seus colegas e alunos por meio de uma enxurrada de vitupérios contra sua pessoa, que passou a sofrer o que conhecemos sob o nome de “linchamento virtual”. Pessoas que não a conheciam passaram a querer saber quem tinha escrito aquele artigo e pessoas que já a conheciam sentiram-se seguras para atacá-la virtualmente.

Os alunos dissidentes também não ficaram em melhor situação. Hostilidades pessoais, ameaças veladas, escritos intimidadores nos móveis e paredes daquele Centro de Humanidades, passaram a ser comum, não sendo raro encontrar frases do tipo “cristão bom é cristão morto”, “fascista vai morrer na faca” ou “morte aos conservadores.” A rejeição aos cristãos é tão virulenta que um deles já foi inclusive repreendido por professores por circular no Centro trajando camiseta com a estampa de santos da Igreja Católica! Isso, sem falar do escarnecimento público praticado por alguns professores ao tomarem objetos da sua fé ou mesmo a figura de Jesus Cristo como exemplos e silogismos ridicularizantes e ofensivos.

Infelizmente, os problemas não param por aí. Incorrendo em grave desrespeito aos princípios da administração pública, notadamente os da moralidade, da legalidade, da impessoalidade, da finalidade dos atos administrativos, bem como, às legislações eleitoral e penal, uma quantidade considerável de professores e alunos da referida faculdade entendeu de fundar uma Organização de Polícia Ideológica – Ação antifascista – que vem ameaçando, coagindo e difamando aqueles que aderiram à campanha eleitoral do então candidato e agora presidente eleito Jair Bolsonaro, os quais são qualificados de “fascistas”. O policiamento ideológico encontrou lugar nos canais institucionais da faculdade dando origem a um verdadeiro clima de “caça às bruxas” tanto nas redes sociais quanto no ambiente físico.

Pois bem, esse é um ambiente real do qual dou testemunho por ser eu mesma a professora da qual falei em terceira pessoa. Esse é o pluralismo de ideias e a democracia que os ministros do STF acharam por bem defender ontem, quarta-feira (31), em julgamento no qual decidiram confirmar a decisão da ministra Cármen Lúcia que suspendeu atos de fiscalização da Justiça Eleitoral em universidades. Em seu voto, Cármen Lúcia, relatora do processo, afirmou que “a única força legitimada a invadir uma universidade é a das ideias livres e plurais” e que “qualquer outra que ali ingresse sem causa jurídica válida é tirana e tirania é o exato contrário da democracia

Não negamos, excelentíssima ministra, que a tirania seja o contrário da democracia e que na universidade deve reinar a força das ideias. O que negamos é que a senhora esteja efetivamente contribuindo para esse almejado pluralismo no ambiente universitário quando a sua decisão e a de seus ilustríssimos colegas inviabiliza os meios legítimos de resistência dos que se encontram ameaçados pelo totalitarismo psicopedagógico reinante. É preciso deixar claro que, com a decisão de ontem, o STF não atuou em favor da liberdade de expressão em universidades, mas impediu   alunos e professores de reivindicarem o cumprimento da lei.

Ao proibir a entrada de agentes policiais em universidades com fins de fiscalização após o recebimento de denúncias, os ministros não defenderam o direito à liberdade de manifestação do pensamento, de expressão da atividade intelectual, do pluralismo de ideias ou a autonomia didático-científica e administrativa das universidades, mas simplesmente impediram os policiais de averiguarem se isso estava sendo cumprido. O que eles coibiram foi a oportunidade de que algo mais próximo ao pluralismo de ideias  pudesse ser alcançado pela aplicação da lei, que viria punir os abusos e não as manifestações legais.

Para o ministro Gilmar Mendes, é “inadmissível que justamente num ambiente em que deveria imperar o livre debate de ideias se proponha um policiamento político ideológico da rotina acadêmica”. Para nós é inadmissível que esse patrulhamento – que já existia na forma dos grupos Antifa – tenha encontrado respaldo na mais alta instância do poder judiciário brasileiro que segue firmemente indo contra o sentimento moral do brasileiro comum que, na sua maioria, quer sim a desideologização do sistema educacional.

Se nós vivêssemos em um ambiente educacional salutar e estivéssemos lidando com professores que honram sua profissão em vez de estarmos lidando, na maior parte das vezes, com fanáticos políticos não precisaríamos, excelentíssimo ministro, do projeto Escola Sem Partido; se as universidades respeitassem os princípios de legalidade, impessoalidade e moralidade da administração pública e não estivessem fazendo proselitismo político e perseguição político-religiosa não precisaríamos fazer denúncias; se o problema do Brasil fosse meramente econômico e não um problema cultural e moral não teríamos elegido um militar conservador.

A verdade é que a educação brasileira está imersa no caos e o contrário do caos é a ordem. As firulas dos que discursam em favor da “liberdade de cátedra” diante de tais abusos que já se tornaram comuns mostram, no nosso entender, falta de sensibilidade com o problema real e com a real vítima.