Um mundo “tripolar”. Por Igor Macedo de Lucena


Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Com o fim da Guerra Fria, que ocorreu com a extinção da União Soviética e a reunificação da Alemanha, criou-se uma nova configuração para as potências mundiais. O mundo testemunhou o fim da importante disputa entre as duas superpotências e a solidificação dos Estados Unidos da América como a única superpotência mundial. Esse título só pode ser considerado aos americanos, pois eles possuem um conjunto de poderes que podem exercer com maestria envolvendo poder econômico, financeiro, militar, cultural, diplomático e social. Nenhuma outra nação no planeta consegue exercer ao mesmo tempo tantas vertentes de poder e considerável influência mundial.

Dentro desse contexto, os americanos criaram o que hoje chamamos de Ordem Liberal Internacional, que é representada por órgãos multilaterais como a Organização das Nações Unidas, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial da Saúde e outros instrumentos que foram usados para manter a paz e o desenvolvimento econômico e social em todo o planeta.

Com a reconstrução da Europa e o advento da globalização, acompanhamos nos últimos setenta anos a construção das chamadas grandes potências, aquelas formadas principalmente pelas nações que participaram na Segunda Guerra Mundial e conseguiram se reorganizar tornando-se as nações mais industrializadas do planeta, o chamado G8. Dentro desse grupo, além dos Estados Unidos, temos o Reino Unido, o Canadá, a França, a Alemanha, a Itália, o Japão e posteriormente a Rússia, que também se tornou membro efetivo.

No início do século XX, e com o crescimento das chamadas nações em desenvolvimento, algumas nações se destacaram e transformaram-se em potências regionais que podemos identificar como a China, a Índia, o Brasil, a África do Sul, a Turquia, a Arábia Saudita e outras nações que exercem influência tanto no campo militar e econômico, quanto no campo  diplomático em suas respectivas regiões do planeta.

Até então essa ordem era algo que existia fundamentalmente com a liderança indiscutível dos Estados Unidos; apesar de contar com a rivalidade de algumas nações, o sistema internacional de coesão existia e um conjunto de alianças das nações democráticas servia de ‘âncora’ para o desenvolvimento do capitalismo e da globalização.

Hoje a situação é bem diferente. A definição da política America First, do presidente Donald Trump, e sua decisão de se ausentar dos debates internacionais, retirando os Estados Unidos de maneira voluntária da posição de líder mundial, abalou esse equilíbrio. Nações não liberais como a China, a Rússia e a Arábia Saudita avançaram com suas políticas expansionistas tanto no âmbito econômico quanto no militar ao redor do planeta sem maiores entraves, até que foram de encontro aos interesses americanos. Entretanto, a China de hoje não é a China do ano 2000; hoje sua capacidade econômica, que cresce cerca de 6% ao ano, deve superar os Estados Unidos ainda nesta década, o que mostrará a expansão da sua influência em todas as regiões do planeta.

Atualmente, assistimos a um cenário em que a ordem internacional está na iminência de sofrer uma nova configuração. Se no passado existia a disputa das superpotências por suas zonas de influência e logo após ocorreu a hegemonia dos Estados Unidos na liderança global, em breve deveremos assistir a um mundo “tripolar” dividido em blocos bem distintos.

O primeiro bloco deverá ser liderado pelos Estados Unidos da América, que deverão contar com o apoio irrestrito do Reino Unido, do Japão e da Coréia do Sul, nações que possuem um projeto global bastante nacionalista em que todos visam impedir a hegemonia da China nos âmbitos econômico, político e militar. São nações interligadas por um conjunto de relações econômicas e militares com um alto poder de compra e boa influência. Devem juntar-se a elas a Austrália e a Nova Zelândia dentro do âmbito da segurança do projeto de espionagem global Five-Eyes.

O segundo bloco será formado por nações não liberais que buscam  ascensão no cenário internacional, e que devem ser lideradas pela China no âmbito econômico, principalmente com o uso da sua política Belt and Road Initiative, atraindo grande parte dos países da África e da América Latina, já que se tornou ao longo dos anos o país mais investidor nessas regiões. Juntamente a esses países deve se aliar a Rússia como potência militar e pequenas nações que orbitam em sua zona de influência na Europa Oriental.

O terceiro grupo será uma espécie de árbitro ou uma balança de poder, que deve em muitos casos consolidar projetos e teses e decidir disputas entre os dois outros blocos. Ele terá como líderes a França e a Alemanha atraindo todos os 27 países da União Europeia e outras nações que, tal como os europeus, têm interesses tanto com o bloco dos americanos quanto com o bloco dos chineses, como é o caso do Brasil e da Turquia. O projeto de alargamento da União Europeia deve ser fundamental para expandir o poder desse bloco na Europa e em parte da Ásia.

Fora dessas nações ainda é nebulosa a posição que líderes influentes como a Índia ou os países Árabes adotariam em um novo cenário de configuração mundial. Se movimentos protecionistas e embates cada vez maiores entre as potências globais se intensificarem, essa ordem “tripolar” poderá se tornar uma realidade em alguns anos. Por outro lado, ainda é possível que os Estados Unidos possam impedir que esse cenário ocorra se voltar a exercer um papel de liderança global utilizando seu soft power e atraindo para si parcerias e relacionamentos que foram construídos durante 70 anos de administrações democratas e republicanas.

Todavia, a configuração de um mundo “tripolar” poderá gerar um maior peso e uma maior importância para as decisões do Brasil no âmbito internacional, o que poderá ser muito importante para consolidar nossa liderança na América Latina e transformar o Mercosul em um projeto de poder em nossa política externa, expandindo nossos mercados consumidores e transformando nossas empresas em multinacionais com maior peso no comércio global. Isso seria, de fato, uma oportunidade para ampliar o poder geoeconômico do Brasil.