Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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Textículos bem humorados


 

 

 

“Quando ouço falar em cultura, saco o meu revólver” de uma peça teatral do anos 1933; “Quando ouço falar de revólver, saco a minha cultura”, Louis Pawells; “Quando ouço falar de cultura, saco o meu talão de cheques”, de um mecenas-milionário americano.

 

 

 

O coronavírus bate à porta

Cada vez que outros países anunciam medidas drásticas de combate a esse coronavírus, imaginamos como iremos encarar, no Brasil, esse vírus (seres simples, segundo a biologia, a palavra que os designa vem do latim, vírus que significa fluido venenoso ou toxina), em  transtornada transmudação. Ontem, em uma enorme mesa de políticos e cientistas animados pelo otimismo e a esperança que não nos faltam, pela graça de Deus — (o brasileiro é antes de tudo um otimista!)  ouvimos que o governo abrira um crédito de 200 mil reais para a compra de material laboratorial para os exames de suspeitos e inocentes. Essa revelação veio, depois, de uma tranquilizadora observação feita por um dos presentes: “não há razão para pânico”,  frase reveladora de quem não tem muita certeza do que poderá acontecer.

Após licitação ou autorização especial do TCU e a escolha do político e do partido que indicarão o fornecedor, pipetas, máscaras, medicamentos  tubos de ensaio estarão disponíveis. Afinal, “a pressa é inimiga da perfeição”, regra de ouro de nossa índole organizacional.

O cronovírus, defendem os mais engajados, é uma arma letal, estratégica ideológica da China para destruir o capitalismo.

TRUMpolinagem

Trump, essa estulta figura de estadista, impede com a sua maioria republicana, por dois votos, que testemunhas de acusação sejam interrogadas, no Senado, no processo de impeachment de que é objeto. O acusado será julgado com base nos argumentos da defesa, já que as provas da acusação não poderão ser apresentas, embora amplamente divulgadas. Lá, como cá,  a verdade é relativa — só existe se os acusados o permitirem.

As fábulas da Criação: a terra é plana, Adão e Eva são de direita e o macaco de Darwin, de esquerda

O “criacionismo” ganha força no Brasil. Novos “olhares” são lançados sobre a história do homem e da mulher sobre a terra. O “finis terrae” é prova de que o planeta é uma planície arquitetada pelo Criador, inspirado nas linhas da baushaus, não há ladeiras nos mares e oceanos, nem promontórios ou profundezas abissais. Não sendo quadrada, melhor seria que fosse plana. Sabe-se, assim, que a terra não é redonda. Já o homem, nascido de uma mulher, cuidadosamente montada a partir de um costela de Adão, obra do Criador que deixou Michelangelo tomado de inveja — foi esculpido no barro, e levado ao forno, segundo as técnicas da época. Poderia ter queimado ou ficado mal cozido, de forma inadequada para o seu uso futuro.. Adão foi esculpido na argila do Éden, e o Moisés de Michelangelo, no mármore de Carrara…  (Não me pediram a opinião, porém, de minha parte devo confessar que sou mais Michelangelo nessas proezas de criar imagens à nossa semelhança, não me levem a mal). O macaco de Darwin é uma obra de ficção mal acabada. Até então, essas intrincadas questões eram de natureza científica ou religiosa. Com o tempo, a transformação do homo sapiens em homo ideologicus fez do macaco e de Darwin ativistas de esquerda e de Eva e Adão, militantes de direita.

 Tranquilo…

Duas afirmações temerárias: a de que o Brasil está preparado para enfrentar o coronavírus e a de que não há motivo para pânico. Ainda.

2022

Bolsonaro será, como Lula imagina e deseja, o seu melhor cabo eleitoral em 2022? Ou será o contrário?

 Esquerda ou direita?

Fascista ou nazista é todo aquele que não pensa como nós – e diz porquê.

 Ideologias

Povo carente de educação é presa fácil de qualquer ideologia: todas prometem a salvação por caminhos improváveis, e não têm dinheiro para pagar o pedágio.

Cortes e Cortes

Usarão as Cortes Supremas, por onde quer que existam, os mesmos métodos e critérios e a mesma suprema indiferença em relação ao bom senso e ao interesse público – presas a velhos tropos jurídicos, doutrinas e concepções?

 A pós-modernidade brasileira

Decididamente,  nós, brasileiros, somos modernos, mais para pós-modernos. Somos tão dinâmicos, pela nossa índole civilizacional, que saltamos a modernidade diretamente para a pós-modernidade.

Sem educação, vivendo na pobreza, sem família estruturada, desfeita pelos desafios da sobrevivência e da miséria, movida por ralos princípios morais e formação religiosa de ocasião, na crença de divindades múltiplas, paternalistas e regeneradoras – qual a imagem que esse “outro” Brasil faz do mundo e dos valores de uma sociedade civilizada? Pior: o que pensamos nós de nós mesmos, brasileiros?

A lanterna na escuridão

Um país mergulhado na escuridão da ignorância. Livramo-nos de  governos auto-denominados “democráticos”, populistas no desvio das conveniências, entorpecidos pelas ideologias que minavam as suas decisões e estratégias de governo – para mergulharmos no “salvacionismo” anunciado pela “revelação” de outro governo, sem prumo político e, aparentemente, sem rumo.

Utopias para lá de utópicas

As utopias por parecerem assim tão boas e portadoras do anúncio de grandes mudanças transformaram-se em um grito de fé. Usá-las para redimir as criaturas e as suas dores e desesperanças, sem que  elas conheçam as intenções do gesto obsequioso, é armar uma fake news histórica para legitimação de rancores e anseios estimulados. As ideologias, como a fé, são a promessa da salvação por caminhos tortuosos, ópio para convencer os desvalidos de esperanças. Cheque sem garantia, nem fundos.

Discriminação “cabeça-chata”

Universitários cearenses dão um “susto de brincadeira” em família judia, e desrespeitam a sua origem étnica e religiosa. Cearense, fruto de uma saudável miscigenação, não pode dar-se ao luxo de discriminação racial. Por aqui, como dizia Gilberto Freyre, se futrificarmos muito, vamos descobrir os nossos ancestrais — na senzala ou nas sacristias…

Lavanderia

O Brasil tornou-se uma imensa lavanderia, parafraseando Chico… Já cumpriu o seu ideal…

Mal jornalismo

 Greenwald significa “mal jornalismo”, em inglês: “Nixon was fond of greenwalding his opponents”.

Jornalismo

O jornalismo não é crime: é expressão da liberdade e da democracia. Depende, entretanto, do uso que dele se faz…

 Descuidos

 As enchentes e o rompimento de barragens provêm de engenhosa engenharia  divina, as entidades terrenas não assumem qualquer responsabilidade por esses desmandos celestiais. Já os erros do ENEM são descuidos humanos…

 A dialética, obra divina

Um amigo reflexivo, como os tenho – e bastantes, diz estar convencido de que a dialética é um sopro divino, é criação bem sucedida do Criador. Céu e Inferno – e um Poder Moderador, o Purgatório. Nessa solução bem aviada, inspiraram-se Marx e Montesquieu, armando os contraditórios da razão e ordenando o poder dos homens, já que os divinos seguem ordenação estrita da Cúria romana.

A reabilitação de Stalin

Começou o passa-pano para a reabilitação de Stalin como estadista e líder dos povos. Não será de admirar quando começarem a escovar o bigodinho de Hitler…

 As metáforas do governo

Somos um país de metáforas convincentes. A figura do noivado e do casamento – Freud explicaria ? – passou a definir afinidades político-ideológicas nas entranhas do governo e nas relações diplomáticas.  Nosso presidente namora, casa, isto é, descobre e nomeia novos ministros e secretárias de Estado. E, assim, de buquê de flores à mão aproxima-se de outros chefes de Estado. A imagem é rica de insinuações e duvidosas metáforas.

Evolução de ideias

A universidade brasileira, nas últimas três décadas abandonou a condição de “cidade da inteligência” para as utopias de uma “aldeia ideológica”?

 Luta de ideias

 Como serão tratadas as confissões fundamentalistas e as ideologias radicais que se chocam com a essência dos princípios democráticos? Há quem, teimosamente, defenda o emprego radical de instrumentos mais revolucionários , em favor da democracia — como a educação, por exemplo.

 A universidade ensina ou aprende?

À universidade importa entender, produzir e construir conhecimento. O resto fica para as instituições  e os partidos em uma democracia estável e organizada.

 Realismo político

O “realismo político” dos partidos políticos, no Brasil, está na chave do erário. Não há vida útil política no Brasil sem o sopro do Estado e de suas “burras” republicanas.

Os culturocratas, a nova classe

E os culturocratas, hein? Serão tudo ou não serão nada… A cultura transformou-se, no Brasil, em mercadoria de consumo imediato: leve no peso e pequena no tamanho. Socialização perfeita: o Estado geme com os investimentos e os “promotores” recolhem os dividendos. E criam, como se diz, muitos empregos na economia.

 A invenção de Bolsonaro

Quem inventou Bolsonaro? Bolsonaro é a criação de uma convergência de fatores, muito mais divergentes do que geometricamente convergentes. Esquerda e direita alimentam-se de seus contraditórios históricos e salvacionistas. Ele é a síntese dos contrários, é a força resultante de movimentos que se opõem e anulam. É fruto da pobreza, da ignorância, da cupidez das elites e das utopias mal enroladas — e das revelações de um populismo que, entre nós, é a versão acabada de formas mutantes de esquerda dissimulada.

A universidade no Brasil

A universidade pública é autônoma, didática e administrativamente, mas não é soberana dentro do Estado. Ela responde pela missão que lhe é própria, que vem de suas origens remotas, enquadra-se nos limites da lei e da organização política do país. É pública pela destinação do seu trabalho e pelos meios que a sustentam. Mas não é estatal, desde que os recursos que a mantêm têm origem na contribuição dos cidadãos. O Estado não gera os haveres que o mantêm e sustentam os seus cometimentos. Assim, é  a universidade. Assim funciona a democracia e o governo por ela legitimado diz-se democrático. Não há dinheiro público, há dinheiro condicionado por aplicações do interesse público.

 Explicadores profissionais

Há tanta insensatez espalhada pelo mundo (ainda que não seja de modo equitativo) que a mídia que de tudo sabe e sobre tudo opina e sobre tudo preconiza que a mídia poderia dispensar os seus comentaristas. Não há mais o quê explicar. Os fatos, no Brasil, são auto-explicativos.

 As derradeiras instâncias

E que tal falarmos sobre a prisão em 2ª. Instância antes de derrubarmos o capitalismo?

Democratas para todos

Difícil mesmo é tolerar a opinião dos outros.

Goebbels e a Cultura

 Fantástico! Precisou um secretário desmiolado citar Goebbels para todo mundo sair teorizando sobre Cultura … e liberdade. A pátria cultural se agita.

Os avatares da Cultura

“Quando ouço falar em Cultura, puxo o meu revólver”, de uma peça teatral de Hanns Jost, 1933. “Quando ouço falar em revólver”, saco minha cultura, Luis Pawells. “Quando ouço falar em cultura, saco o meu talão de cheques”, de uma magnata-mecenas americano.

Funk

“Funk também é cultura”, de um pensador de programas de auditório.

Fé de menos ou fé demais

O problema não é ter medo do fim. É pressentir as dores físicas e morais do fim. A fé, infelizmente, nem sempre tem efeitos analgésicos opioides…

Ideologias

As ideologias radicais veem na liberdade de expressão — ameaça perigosa às suas crenças e ao espírito de construção de “um novo homem”…

Fascistas são os outros

Os outros erram, na medida em que discordam de nós.

 Ditaduras e as leis

 Ditadura que se preza, de direita ou de esquerda, não sobrevive sem leis, normas e uma Constituição. É da sua índole… O primeiro movimento político de uma ditadura ao instalar-se é o de convocar juristas e seres pensantes, e escrever uma Constituição. Os ditadores, de um modo geral, odeiam ser vistos como usurpadores da democracia: a democracia é que usurpa os seus poderes…

As ideologia que mais suspeitam da liberdade são as que mais defendem a democracia – e a liberdade. Quando se quer enfatizar o apreço pela democracia, diz-se, em geral, que defendemos um estado democrático de direito — e republicano.

Há uma incompatibilidade de origem entre as ideologias salvacionistas (esquerda/direita) e a liberdade de expressão.

O controle da Cultura

Há algumas formas, dentre outras, para manietar e controlar a cultura: censurando ou financiando, detratando ou elogiando.

Arte nacionalista?

Onde o nacionalismo sequestrou a arte, roubou, antes, a liberdade.

Parlamentarismo, unquento precário

 Constitucionalismo “inter femoris” para um “coitus interruptos” de uma parlamentarismo de araque.

 Discípulos sem mestres

No Brasil, ninguém é discípulo de ninguém. Todos agem por conta própria. Todos sabem, afinal, que tudo terminará em um embargo declaratório por todos desejado.

Mais Maias

Em algum tempo perdido no passado, juristas inspiravam ideias e propósitos de governo. Hoje, Maias e Alcoolumbres fundam um novo sistema político.

 Rio de Janeiro

RJ: Um juiz de Deus e um juiz de Vara. Salve-se quem puder. Depois de Tomé de Souza, o Rio de Janeiro foi sempre o mesmo. Até chegar ao Crivella.

 Proust

Proust reconhecera entre intelectuais e homens de sociedade, os “inúteis” e os “inúteis indispensáveis”. Os últimos são mais operosos: a sua inutilidade transforma-se em suporte de todas as realizações.

 Vida difícil

Está difícil viver com certa dignidade entre tanta imbecilidade. No Brasil, o “amor próprio” fugiu antes de ser “ferido”…

Direita/esquerda

A diferença essencial entre direita e esquerda não está na terapia proposta. Mas na sua posologia. A diferença essencial entre comunismo e fascismo encontra-se no varejo; no atacado são iguais. Uns operam de gulags, outros de Dachau, uns a frio outros no calor.

 Os extremos se tocam

Os extremos ideológicos não vivem um sem o outro. Como nenhum deles tem peso específico, só existem no contrapeso – um do outro.

Sartori

Giovanni Sartori, indagado por um aluno se era de direita ou de esquerda: “—Há muito tempo procuro saber”…

Liquidação

O funk, o axé e a música sertaneja liquidaram com a música popular brasileira. E ninguém se deu conta.

Erros

Esmero-me na escolha dos próximos erros que cometerei. Por uma questão de criatividade – uma certa vaidade, no fundo, reconheço – não quero repeti-los…

Essa capacidade de aceitar o novo é que nos permite não repetir os mesmos erros: cometemos outros mais sofisticados.

 Paul Valéry

“La liberte est un état d’esprit”. “Um certo” estado de espírito é, seguramente, ameaça ara qualquer propósito de liberdade.

Lênin e o Faustão

Nem os sovietes chegaram tão longe. Ideologizamos até o discurso do Faustão.

O Porschat e Maomé

Faltou gás e coragem para a turminha da Porta dos Fundos fazer gracinha com o profeta Maomé…

Com quantas universidades se faz uma Universidade de Harvard?

Com competência e honestidade acadêmica. E algum dinheiro bem intencionado.

 Renúncia parlamentar

 E se o Congresso, num assomo patriótico, renunciasse coletivamente?

Os dois poderes

O STF legisla, julga e administra. O Congresso nomeia e gasta. A amputação de Montesquieu.

Os 250 anos de Beethoven

 Os 250 anos de Beethoven serão comemorados em 2020. Se Beethoven não aparecer no Domingo do Faustão vai continuar inédito e desconhecido —  no Brasil.

Parlamentarismo/presidencialismo

Uma República que mal se sustenta com um presidencialismo de ocasião, vai mudar com um parlamentarismo de oportunistas?

Senado

Que força sobrenatural domina a presidência do Senado? Por que os seus presidentes assemelham-se tanto? Parece que trazem consigo o mesmo DNA político de origem.

 A mediocridade no Poder

Por que os medíocres fazem carreira nos governos e lá ficam por tanto tempo. E se reproduzem ?

O juridiquês em debate

Os tropeços teóricos que acodem a alta judicatura e a baixa, também, impõem reforma urgente do ensino jurídico.

 Da justiça dos homens e de Deus

No princípio, fez-se o verbo. Depois, vieram os substantivos, seguidos dos adjetivos e, por fim, os advérbios. No oitavo dia, o Criador descansou – e criou o transitado em julgado em última instância. Após, naturalmente, ter modelado alguns embargos de declaração.

Desvio de dinheiro público

A ação por desvio de dinheiro público prescreverá em 5 anos, assim impõe projeto transitando na câmara. É o que se poderia chamar de incentivo ao empreendedorismo público-privado. Melhor do que empréstimo a fundo perdido do BNDES…

Como criar um partido político

Para criar um partido político, no Brasil, não precisa de povo. Basta meia dúzia de cartolas. Um família numerosa, amigos e agregados. O Fundo partidário faz o resto.

O sonho de Montesquieu

Montesquieu acordou e recriminou-se: “—Por que não me ocorreu criar um Quarto Poder? Criaria uma 5ª. Instância recursal no Brasil”…

Morales imorales

Morales declara que voltará para “pacificar e redemocratizar” a Bolívia. Esse lado irônico de Morales não era conhecido.

Instâncias e Varas

Com quantas instâncias se cumpre justiça no Brasil?