Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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Sancho Pança, a ambição, as amarguras e o malogro nas artes do governo


Ou como os simples e pobres podem ser bons governantes e justos. Ou não.

“—Mire vuestra merced […] que no se le olvide lo que de la ínsula me tiene prometido; que yo sabré governar, por grande que sea”, Sancho dirigindo-se a seu amo.

Surpreendeu-me que em meio a tantos desmantelos e a largos impulsos de irrisão como os que temos vivido nestes últimos tempos – e que tempos! – devesse ocupar-me de questões aparentemente transversais que pelejam em nos afastar da realidade. Quem sabe, paradoxalmente, elas nos aproximam dos fatos e de suas circunstâncias dos quais, de quando em vez, desejamos nos afastar.

Fui levado a esses desvios da razão ao tornar ao “Quixote”, nas leituras a que me imponho quando me vejo acossado pelos fastios da inteligência, dentro daquela vazio em que nos enfiamos, empurrados pela força incontornável da realidade que se impõe e dos seus figurantes, personagens nomeados na vida real.

Algumas pessoas, mais bem afortunadas, carregadas de fé e alimentadas pelas virtudes que professam, se comprazem, nos seus exercícios de devoção, com a leitura dos livros santos ou dos livros das horas e dos salmos penitenciais, a salvo das relaxações e tentações que nos espreitam. Em todos eles — entre os quais incluo os avatares do velho fidalgo, desculpando-me, de já, pela irreverência –,  encontramos a saída, a fuga, melhor diria, que buscamos para escapar a tanta realidade…

Que valha remissão despretensiosa para lembrar que alguns intérpretes distinguidos da teoria literária atribuíam ao riso, no Renascimento, um sentido predominantemente filosófico, uma forma “essencial e interior da verdade”. Nada que lembrasse o ar de zombaria ou deboche, ridicularia, graçola, chacota, sarcasmo ou troça a que associamos popularmente o riso.

“Don Quijote de la Mancha”, a criação imortal de Cervantes, não resultou, como a Bíblia, de registros orais de uma profunda tradição de fé, tampouco traz a marca de uma mensagem de salvação. O “Quixote” é a representação de fantasias e da realidade, de sonhos e esperanças, uma amálgama de façanhas, aventuras e desventuras, miragens e ilusões. Deu-lhe Santiago Dantas o aval de uma “apologia da alma ocidental”, novela imortalizada na memória de muitas gerações.

O “Quixote” sugeriu muitas e contraditórias leituras, parte delas sequer concebidas pelo seu criador. De leitura popularesca, dominada pelos chistes do texto e pela figura dos personagens centrais, foi por largo tempo recebido como farsa, gestual e glosa caricaturais, representação satírica de inopinadas ações humanas. Foi lido com a prudência inspirada na suspeita, como se fossem exercícios de sátira em torno do romance da Cavalaria, dos seus nobres e imperecíveis feitos. Houve aqueles leitores de boa fé que acreditaram estar a ler honesta novela de cavalaria, à moda de Amadis de Gaula ou  de Tirante, o branco, na postura heroica dos seus cavaleiros, dos códigos de honra enaltecidos à época e de uma saga longamente celebrada na literatura. Seguiram-se os patriotas críticos que vislumbraram na obra e nos seus personagens mostras desrespeitosas de alusão à História da Espanha, a exemplo da leyenda negrade um passado obscuro, tanto quanto insultuosa, em torno da qual, ainda hoje, os espanhóis se contrapõem e digladiam. Por fim, leitores e intérpretes sensíveis, especialistas na literatura da hispanidad, concederam ao livro e ao seu autor o reconhecimento de uma obra invulgar – a mais destacada da literatura espanhola, de toda a literatura ocidental a mais lida em todo o mundo.

 A paródia é servida, com frequência, como cópia, arremate, folgança, folia, patuscada, e compõe com o riso estreita associação. No “Quixote”, dá-se que Sancho promove, ao assumir o governo da ilha de Barataria, surpreendente e pouco crível reversão da lógica do poder, em lance paródico ressaltado pelo episódio no qual, durante uma festa ensaiada pelos duques, senhores do lugar, é celebrada a investidura de um homem do povo, Sancho, como rei e permitido ao povo que seja feliz, enquanto durar a encenação, pois toda festa tem um final. Cervantes constrói uma situação incomum: o rompimento do paradigma estabelecido pelo poder, espaço da nobreza bem nascida, senhora da fortuna e de todas as precedências sociais. Só por arte da paródia poderia alguém saído das entranhas do povo tornar-se seu governador, sem o assentimento da aristocracia — e realizasse governo justo, popular e cristão ao gosto daqueles tempos marcados pelas imposições da fé e da Igreja.

A ilha de Barataria não é outra coisa senão uma utopia, amarga fantasia para aqueles tempos, já distantes do espírito restaurador da Idade do Ouro da Espanha.

Cervantes serve-se de seu personagem, Sancho, para considerar quão absurda lhe parecia a ideia de um pobre aldeão alcançar o governo de sua ilha, levado pelos caprichos de pura farsa e alegre divertimento de um duque e de sua duquesa a tais nobres funções. Mesmo assim, reconhece no escudeiro virtudes pouco comuns aos governantes da época, poções relativas de senso comum e da natural sabedoria de um homem do povo. Nessa paródia do poder em representação de teatro cômico, Cervantes vale-se da figura de Sancho com o intuito de criticar a sua ambição de tornar-se governador, e do improvável das circunstâncias que permitiram esses desvarios a um simples e desvalido aldeão.

O riso inspirado por Sancho e pelas suas ambições ridículas transforma-se, ao longo do texto, em lição exemplar sobre as qualidades éticas que deveriam possuir os governantes. Apontando as suas faltas e limitações, como Maquiavel o fez em relação ao príncipe, ao abrir seu amplo “receituário” sobre o poder e as formas de exercê-lo, Cervantes aponta como os governantes poderiam revelar-se justos e sábios. Para um pobre aldeão desprovido de bens de raiz cabia-lhe, pelas origens obscuras,  trabalhar e não mandar. Lembremo-nos que Fernando e Isabel, os reis católicos, já por aqueles tempos, buscavam para a burocracia real letrados, educados na universidade, com indispensáveis conhecimentos em latim e direito. A riqueza e a destreza em saberes úteis ou conspícuos constituíam condição necessária e mais que suficiente para o exercício do poder político.

Como terá ocorrido a muitos governantes, no passado, e aos novos que se reproduzem – afinal, da vontade do exercício da autoridade poucos escapam –, conduzidos por inspiração divina ou pelo sufrágio dos cidadãos, o poder é revestido pela transitoriedade do que é passageiro, na medida dos  ganhos das perdas e amarguras. A Sancho não lhe reservou o destino sorte diferente. A vida de governador, assim lhe pareceu, não é, sempre, cômoda e prazenteira. A tanta alegria faziam-se esperar o malogro e as desditas da sorte acumulados ao final do breve governo de Barataria.

Sancho confessara (segunda viagem, I volume do Quixote) os encantos anunciados do governo  próximo de sua ilha: “[…] partirei para o governo, para onde vou com grandíssimo desejo de ganhar dinheiro, porque me disseram que todos os governadores novos chegam com o mesmo desejo”.

Encerrada a farsa, o duque e a duquesa de volta à cena, Sancho reencontra-se com a sua realidade. Eric Voegelin (“La seconde réalité de don Quichotte”, in “Hitler et les allemands”, Éditions du Seuil, Paris, 2003, pág. 260) chama-a de “primeira realidade”, em relação à realidade de dom Quixote, a “segunda realidade”.

Pôs-se Sancho a lastimar-se, mergulhados em seu vão arrependimento: “Ditosas eram as minhas horas, meus dias e meus anos; porém depois que os deixei e subi na torres da ambição e da soberba, entraram alma adentro mil misérias, mil trabalhos e quatro mil desassossegos”.

[Elucidário pretensioso e desnecessário sobre “Don Quijote de la Mancha”, dirigido aos que não o leram e propõem-se a lê-lo e aos que, tendo-o feito, confessam tê-lo lido mais de uma vez: o primeiro volume foi publicado em 1605 e o segundo, em 1615. A primeira parte do primeiro volume contém os seis capítulos iniciais, seguindo-se da segunda parte, publicada no mesmo ano. Há três “saídas” do Fidalgo, quando deixa a casa em busca de aventuras para a realização dos seus feitos memoráveis. A primeira “saída”, dom Quixote realiza-a sozinho montado em seu introvertido Rocinante. A segunda e a terceira o Fidalgo faz-se seguir de seu escudeiro, quando Sancho ganha voz e vai, aos poucos, abandonando a sua “realidade” e acostumando-se à “realidade” do seu amo, ainda que reaja com o seu senso comum das coisas às intenções e aos feitos do Cavaleiro da Triste Figura. As duas primeiras “saídas” dão-se no primeiro volume; a terceira, no segundo volume. Não são poucos os cervantistas que inferem da estrutura do primeiro volume de 1605 que o projeto inicial poderia nele ter-se exaurido. O segundo volume surge dez anos depois da publicação do primeiro. Nele, os personagens e a estrutura da narrativa e dos diálogos mostram-se amadurecidos, como amadurecido estaria o seu autor, assim demonstra Eric Voegelin, já mencionado.]

 Fecho o “Quixote” e recobro meu estado de espírito, acrescido, felizmente, com o esforço meritório  de uma necessária contabilidade dos lucros da prosa revisitada, servido daquele ar refrescado de inteligência que nos cabe buscar nos outros. Quando em nós próprios rareiam, por escassos e improváveis.

Revigorado ou convencido pelos ganhos de monta realizados, retorno  à realidade – não à primeira ou à segunda realidades. Mas a uma instância bem menor, à realidade plausível do leitor comum. E dela extraio coisas e episódios prosaicos e transitórios, pois nada mais irreal do que a realidade — e de tal modo e de forma tão intensa ela se manifesta que não basta pouca loucura para que se enfrente tamanha ir-realidade.

Dei-me conta, sem o pressentir, que escrevia uma parábola. Por isso devo dar-lhe fecho à moda dos livros santos. Sem o saber, a exemplo de monsieur Jourdain, de Molière (“Le bourgeois gentilhomme”), ao descobrir, surpreso, haver escrito em prosa, convenci-me estar a montar, provido de muita audácia e limitado talento, uma parábola  ingênua sobre fatos, eventos e personagens do cotidiano da política brasileira.

Pois bem. Acodem-me, agora, impulsos quase incontroláveis a serem em boa hora evitados para que não acordem paixões postas em sossego e não tenha eu que me enredar em fastidiosas controvérsias, intermináveis e repetitivas que fazem de cruzados combatentes capitães de longo curso dialético. E que me seja exigido provar, por exigente inspeção de consciência, que não sou de direita, sequer de esquerda. Nessa acidentada topografia, não consegui perceber, até agora, o que significa ser “de centro”. Seria esse o caminho condenável que faria de um observador pouco engajado, condição em que me incluo – um implicante e solitário “isentão”?

Confesso, nesse particular, alguns poucos descuidos patrióticos pelos quais não me dispus a arrepender-me,  ainda que não os tenha cometido de caso pensado, porque precisamente por descuidos hão de ser tomados.

O Brasil vive um instante inusitado (seria, de fato, momento inusitado, à vista dos fatos e antecedentes conhecidos?) de sua atribulada e incerta evolução política. Assim demonstram a estrutura do Estado que criamos por aqui  e a indolência ética e política dos governos postos na guarda do seu patrimônio e do seu destino. Tudo assim conhecido e apoiado em uma ficção que serviu às elites, no passado, e suporta o logro das utopias do presente.

Por que deveríamos esquecer todo esse aparato posto a rodar como se, de fato, existisse povo a dar-lhe forma e continente, segundo a amplitude dos bens da cidadania e a solidez de uma consciência política?

Existe conosco, admitamos, um senso rarefeito dos atributos essenciais que definem e fortalecem substantivamente as noções de “povo” e “nação”. Temo-las, afinal, como adjetivos com os quais buscamos legitimar entes constitucionalmente consagrados, extraídos da doutrina e dos enunciados da filosofia política.

O poder materializa-se, nas nossas tênues circunstâncias, na investidura da autoridade, no poder de mando, reconhecido pelo humor popular como o privilégio de “prender, soltar, nomear e demitir”.

A sedução do poder do Estado, concentrado nos instrumentos de governo, atrai as libélulas que buscam o calor dos holofotes. Reúnem-se elas em bandos, tomadas pelo dever cívico e patriótico de servir ao povo, amparadas pela largueza dos recursos  de um eminente fundo eleitoral, quando não por doações privadas cujas sobras e intermediações abastecem o ideário de bem servir à pátria. As exceções escondem-se, esquecidas; suscitam dúvidas e insegurança entre os que se abrigam sob as cores de lideranças e partidos numerosos, cujas siglas, são em si mesmas desafio de intenções indefinidas e incongruentes. A simples denominação partidária dá forma e visibilidade às suas ambiciosas plataformas e “programas”.

Como Sancho, a caminho do governo da ilha de Barataria, os que seguem por essas trilhas – a regra ganha importância em função das exceções encabuladas que, felizmente, existem – estão imbuídos de sentimento íntimo que exaltam a sua capacidade, a sua vocação política e a certeza de que saberão governar o que lhes couber — por sorte e fortuna e alguma virtude — “por tão grande que seja”.

Parece evidente que, entre pessoas de tal modo afeitas e dedicadas às artes de governar, não as anima a avidez que impulsionava Sancho, pelo exemplo  em voga à época, de partir para o governo “com grandíssimo desejo de ganhar dinheiro”, pois lhe haviam assegurado “que todos os governantes novos chegam com o mesmo desejo”.

Estava eu, de fato, a escrever uma parábola, mundana e bisonha como já não se constroem mais – e quase não percebi que a tanto me atrevera.

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