Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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Porque me ufano de meu País. Ou de como amar a Pátria apesar de tudo.


 

 

 “Há em ser brasileiro o gozo de um benefício, uma vantagem, uma superioridade”

Conde Afonso Celso, “Porque me ufano de Meu país”   

 

 

Dei-me conta, por um destes dias de graves reflexões, de estar a mergulhar nos abismos abissais do ceticismo e do pessimismo, sem que me houvesse dado conta dos riscos nos quais incorria, involuntariamente, ou por confessada ignorância, condenado, assim, por obras e intenções aos desvãos sombrios da cidadania.

Fui chamado à razão, em boa hora, pelas palavras de alguns brasileiros, bravos e bons que, por graça, emprestam o seu talento e patriotismo  às intenções e obras de bem governar, como não se via, neste país, desde que começamos, com acendrado espírito cívico, a inventar o Brasil.

Reparei, nas leituras heréticas e pouco patrióticas a que me entregava a desoras, no recolhimento das minha pouca fé, quão equivocadas eram as minhas ideias, injustos os alvitres, colhidos em autores suspeitos que as pessoas sensatas não cansam de condenar. Um deles, cujos escritos deveriam ter sido recolhidos e incinerados por justa causa, cobria a pátria de ofensas: “o Brasil é um país de passado suspeito e futuro incerto”.

Tomado de vergonha por haver trilhado os caminhos tortuosos do engano, busquei fortalecer a minha confiança e revigorar os miúdos do meu patriotismo lendo autores mais respeitados. Dos mais antigos, encontradiços na biblioteca familiar, valeu-me como esteio de minha fé cambaleante o Conde Afonso Celso. Mergulhado em sua excepcional gramática de brasilidade, fui encontrar palavras encorajadoras sobre a nossa grandeza e a predestinação de nossa pátria. Li, com atenção, velhos manuais de civismo e boas maneiras, extraindo das antologias lições que me pudessem ser úteis. Na esqueci a velha Crestomatia, tampouco os textos reunidos por Carlos de Laet e Fausto Barreto em sua Antologia Nacional.Recolhi alguns sonetos de Bilac e se mais não fiz foi por pura e injustificável desídia.

Colecionei escritos esquecidos, editados pelo DIP, durante o Estado Novo, ouvi aquela marchinha  de Kedir que tanto sucesso fez nos anos Medici,  “Brasil eu te amo”. E mergulhei com ânimo renovado, graças a essas compressas patrióticas, no horário da Voz do Brasil e na leitura de editoriais coalhados de patriotismo na imprensa “sadia”, nos quais vamos buscar a nossa inspiração pelas boas obras e diligentes pensamentos. Vasculhei meus guardados à procura das apostilas de  “Estudos Problemas Brasileiros”, disciplina que, ao tempo dos governos militares, ocupou centenas, senão milhares de professores, empenhados, todos eles, com patriotismo exemplar, em provar aos seus alunos compulsórios, um tanto céticos em face da revelação anunciada, quão ricos, fortes e bons éramos, nós brasileiros, por divina inspiração, amparados com a  ajuda da “revolução” que haveria de nos redimir como povo e nação.

Afonso Celso bem que procurou nos ensinar a amar o Brasil. Faltou-nos boa fé e empenho. Fomos, vida em fora, alunos pouco aplicados nessas questões cruciais da cidadania. Descobrimos, entretanto, não sem duras penas, que nunca é tarde para os exercícios da arte amorável do patriotismo. É do eminente pensador de auto-ajuda cívica a classificação que nos permite compreender por que somos melhores do que outros povos – e mais felizes.  A grandeza territorial do Brasil, a sua beleza, a sua riqueza, a ausência de calamidades, a excelência do tipo nacional, o nosso céu estrelado, os nobres predicados do caráter nacional, nunca sofremos humilhações, nunca fomos vencidos, o nosso procedimento cavalheiresco com outros povos, as glórias anunciadas tudo são atributos que nos distinguem do resto do mundo. Sem esquecer a nossa índole heroica de um povo que jamais foge à luta, nem calamos o nosso temido brado retumbante.

Não é difícil compreender o empenho dos nossos governantes em demonstrar os sinais evidentes e conspícuos da grandeza e superioridade do nosso abençoado país. Basta que se ouçam os discursos veementes deitados nas nossas câmaras e assembleias, por estes lugares nos quais explode a retórica inflamada dos nossos homens de Estado e o pontificar dos senadores dessa honorável república para que possamos avaliar que a nós nos resta, sempre, o amor pela pátria.

Está claro que não desejamos continuar sendo “vira-latas” no cenário das nações. Decidimos impor a nossa presença nos fóruns internacionais e levar a nossa mediação aos conflitos, aqui e alhures, recompondo novas alianças, fazendo, por vezes, vista grossa a alguns preceitos envelhecidos que só aos liberais endemoninhados fazem sentido.

Construímos, lá fora, nesses anos recentes, alianças prestimosas, cujas caraterísticas e um certo perfil particular lembram as fidelidades alimentadas internamente. Sobre elas erigimos a nossa atuação de líderes dos “emergentes”. Passamos a ser, em outras palavras, “os caras”, dentre as potências mundiais. Associamo-nos a alguns títeres e chefes-de-estado remidos de algumas cubatas da África, e na América Latina e Oriente Médio, mas o fizemos com a argúcia de estadistas iluminados, tomados pelo fascínio de missão superior a cumprir em favor dos povos. Emprestamos o dinheiro arrancado ao povo  e os partilhamos  a fundo perdido, com os necessitados do mundo por generoso vezo humanitário, tangemos a miséria  dos outros e construímos a riqueza dos pobres.

Tornamo-nos imunes às tentações totalitárias: convivemos e negociamos com ditadores, mas não nos deixamos impregnar pelos seus métodos, menos ainda pelos seus impulsos totalitários. Continuamos democratas, apesar das nossas intimidades internacionais com ideologias inovadoras. Somos auto-imunes aos pecados do mundo. Aprendemos a distinguir os males que afligem as nações e os diferenciamos, segundo a visão superior de juízes indulgentes, distribuindo justiça aos mais necessitados. Armamos os braços de terceiros, mas continuamos infensos às diatribes belicosas. Somos pacíficos pela própria natureza, porém combativos pelos impulsos peninsulares ancestrais.

Há, certamente, razões de sobra para os brasileiros despertarem o seu patriotismo adormecido, além das mais evidentes, tão caras às nossas tradições de povo ordeiro e pacífico.

A relação incestuosa entre políticos e a fazenda pública não nos deve preocupar, assim nos garantem segundo fontes insuspeitas do governo, fundamentadas na lógica indiscutível dos fatos, dos números e das estatísticas. Se os casos de corrupção parecem mais numerosos e frequentes desacordo com registros recentes, devemo-lo a um fato evidente: é que agora agora, investiga-se mais do que nunca se fez, no passado, neste país, os que se dedicam a práticas proveitosas, em concorrência com o Estado.  É verdade que o combate à corrupção produz efeitos econômicos deletérios, como apontam os economistas de feição mais progressista e eminentes juízes da mais alta e distinguida judicatura. Ademais, esse desforço cívico afasta os bons empreendedores da atividade econômica e fere os legítimos direitos individuais dos que patrioticamente se dedicam a azeitar as roldanas do progresso. Tudo tem, afinal de contas, o seu custo e o seu preço. O preço da corrupção é a busca atenta permanente das obras do empreendedorismo do Estado.

Sofremos com as distorções dos dados oficiais manipulados por agentes provocadores que tentam desnaturar a pureza das intenções do governo e de seus agentes.  Quantas vezes terá sido necessário que alguns atores preeminentes do governo denunciassem as solertes intenções de técnicos e órgãos de pesquisa, traídos pelo erro, na divulgação de dados e informações equivocados sobre os avanços incontestes da economia e dos acertos do governo?  Há bem pouco, um dedicado ministro,  levado por impulso cívico que só acomete aos patriotas, denunciou os erros perpetrados por um instituto de  estudos econômicos e seus pesquisadores na apreciação de algumas estatísticas oficiais sobre o desmatamento das nossas florestas. Inúmeras vezes terá sido necessário alterar a metodologia das pesquisas e a formulação de dados, contaminadas pela ação suspeita de agentes infiltrados na máquina do governo, para que a realidade das boas obras fosse conhecida pelos brasileiros.

Por todo esse desvelo devemos tanto aos nossos homens públicos, cuja ação patriótica, nunca antes neste generoso país, terá sido tão injustiçada. Bem reconhecia Afonso Celso os atributos incomuns aos nossos governantes, que teimamos por ignorar: “Os homens de Estado costumam deixar o poder mais pobres do que neles entram”.  Bem andamos nós, brasileiros, por graça dos que nos governam, empenhados no fortalecimento da fé, da esperança e o do otimismo, sentimentos em baixa nestes últimos tempos.  Permitimo-nos, assim, cultivar o amor próprio, reconhecidos, em face dos novos tempos anunciados.

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