Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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Pérolas da sabedoria presidencial


 

 

 

Uma breve e superficial análise do discurso sobre falas, impropérios e incontidas confissões de presidentes carecidos do ouvido cúmplice de psicanalistas adestrados

O que é humano está indissociavelmente ligado à moda, aos encantos   momentâneos das práticas e crenças, às influências e preferências, transitórias por serem precisamente artigos da moda.

Muitas deles perduram, fincam as suas estacas no imaginário coletivo e assumem papel visível —  e tornam-se referência.

Nas artes, na filosofia e na literatura, essas engenharias de reconstrução e envelopamento dos saberes foram numerosas. Mesmo quando não clareavam a abordagem e o sentido do objeto de análise serviam para magnificar-lhe o conteúdo, classificando e ordenando os saberes e o pensamento segundo categorias bem disciplinadas.

Dei-me conta de ter entrado, nestes começos de um texto anunciado, por sendas e caminhos tortuosos. Mas não o fiz intencionalmente, creiam-me. São o vezo a que não fogem os aprendizes de feiticeiro da ilustração e as más influências intelectuais que induzem a muitos como nós, cidadãos honrados e de bom senso, a recorrer a essas sortidas vaidosas da verbalização auto-imune às regras da objetividade.

Fiz deste texto um ensaio malcomportado, embora servido pelo  humor amargo de impulsos muito céticos, sobre a palavra dos homens, o seu significado aparente e as intenções inconfessadas, muitas delas sinceramente inconfessáveis. E para tanto servi-me indevidamente de tropos, frases, métodos e conceitos, sem que me tivesse ocorrido consultar os especialistas e deles arrancar a prova da sua ciência para servir-me, afinal, tão mal dela.

Bula de uso sujeito a prescrições

Usei neste texto o que os especialistas chamam de “análise de conteúdo” e “análise do discurso” para entender e explicar o pensamento de alguns ex-presidentes dessa nossa inusitada República, contido em frases recolhidas pela mídia e, muitas delas, caídas em domínio público. Preferi servir-me de alguns instrumentos da análise dircursiva, como se verá, que se mostraram úteis graças ao entendimento de uma escala que associa linguagem e sociedade, amarradas por um contexto soi disant ideológico.

Essas peraltices tiveram vez e oportunidade com base na coleta de algumas dezenas de frases recolhidas pela mídia e publicadas ulteriormente pelos jornais, ou abrigadas em sites da web. Podem ser tomadas como fontes primárias de informação e estudo; nada mais do que isso. Das falas aproveitadas foram-lhes dadas a indispensável perspectiva e inserção factual, numa tentativa, de certo modo inútil, de contextualização.

Não são fake, tranquilizem-se. Afinal, os autores citados seriam capazes de verbalizações muito mais veementes e dissimuladas. Poucos dentre eles dispõem dos instrumentos que, outrora, faziam da política serva   fidelíssima do humor refinado e da elegância da forma escrita ou, simplesmente, das falas de improviso. São frases repetidas em numerosos veículos de informação. Lembram os escorregos verbais, as erutações de mau gosto, pobres de conjecturas e desvalidas de intenções honestas.

É verdade que o inusitado de alguns dessas pensamentos e frases suscita suspeitas quanto à sua veracidade. O quê fazer?  É da índole de seus autores fugir aos desassossego da verdade.. O estilo é o homem (ou a mulher)… Nada impede, entretanto, que algum justiceiro, salvo pela revelação das ideologias persista nessa na crença dessa suspeita.

Uma “desantologia”  política de pensamentos desalinhados

Fixamos os limites dessa “desantologia” política, atendendo a alguns critérios. Fomos buscar as manifestações que mais representassem a psicologia e o caráter público do seu formulador, manipulador de frases, na medida como se aviam os repentistas ao regurgitarem as suas rimas, já cuidadas e bem guardadas para essas ocasiões. Deitadas oralmente, elas deixam a nu o casco da arquitetura mental das pessoas que as proferiram, intencional ou acidentalmente. Discurso de improviso, lançado em palanque, entrevista de televisão twitter ou email, ou por qualquer outro meio de comunicação das redes sociais, funciona como conversa com o analista; o cliente fala de seu divã o que deseja dizer ao interlocutor, guardadas as suas conveniências de analisado, com direito ao silêncio obsequioso que lhe assiste. O receptor aguarda o que for expendido pelo paciente e desse conteúdo extrai o que possa ser adequadamente enquadrado segundo as correntes teóricas de sua Escola psicanalítica de eleição, Freud, Lacan, Jung, Adler, Reich…

Nossos pacientes, tal como os vemos neste ensaio de perspicácia sociológia política aplicada, foram selecionados entre os presidentes eleitos, em seguida ao ciclo, reticente e pouco dado a verbalizações, dos governos militares.

Essa coleta poderia iniciar-se, antes, bem antes da Nova República. Correríamos, entretanto, o risco, com tamanha indulgência, de cedermos ao desafio da construção de uma enciclopédia de ditos e falas que remontaria aos fundamentos da República de 1889, ou, mesmo, ao Primeiro Império. Ademais, a História do Brasil e os seus atores tornam-se mais visíveis e heterodoxos em seu comportamento e na sua linguagem a partir dos anos 1930. Tomamos, assim, José Sarney como o refundador de um novo tempo, de frases e circunlóquios burocráticos, premidos pela distinções hieráticas da curul presidencial.

Vale lembrar, contudo, a dúvida de que foi assaltado Pedro, que viria tornar-se o nosso Pedro I e o IV de Portugal, nos albores da nossa cidadania, como nação e país. Mencione-se, a propósito, a emblemática hesitação de que o jovem príncipe foi tomado, vislumbre antecipado de todas as nossas fraquezas e perplexidades cívicas.  À beira do córrego Ipiranga, ao receber o despacho vindo do Rio de Janeiro, enviado por dona Leopoldina, dando-lhe conta de que as Cortes determinavam o seu regresso incontinente à Corte de Lisboa, Pedro, desnorteado com toda aquela maçada de governo em que se enredara, vira-se para o capelão que o acompanhava com as virtudes peregrinas das suas orações e indaga-lhe:

“E agora padre Belchior”?

Breviário de frases, palavras e improvisos que marcaram a redemocratização do Brasil, de 1985 a 2019

 

José Sarney:

“Brasileiros e brasileiras, boa noite”

“Governo é como violino, você toma com a esquerda e toca com a direita”

“Durante o meu mandato, a história se contorceu, mas a democracia não murchou na minha mão”

“Consultei um futurólogo e ele previu que o Brasil só terá outro presidente nordestino daqui a 1 900 anos. Então acho que mereço ficar os seis anos” [Na verdade, houve dois nordestinos, Collor e Lula]

“Não preciso de nenhuma quinta nas redondezas de Lisboa. O meu gabinete no Planalto já é uma quinta dos infernos”

“Parente em governo sempre cria problemas. Para o governo ou para o parente”

“Herdei para administrtar a maior crise política da história brasileira, a maior dívida externa do mundo, a maior dívida interna, a  maior inflação que já tivemos, a maior dívida social e a maior dívida moral”

 

Fernando Collor de Mello

“Eu tenho aquilo Roxo”

“Minha gente, não me deixem só. Eu preciso de vocês”

“Vamos dar um não à desordem, à bagunça, à baderna, à bandeira vermelha. Vamos dar um sim à bandeira do Brasil, verde amarela, azul e branca”

“Exótico é o seu editor-geral, que foi preso por assassinar uma mulher” [dirigido ao Estado de São Paulo]

“Neste presidente ninguém coloca uma canga”

“A poupança é sagrada”

“O meu primeiro ato como presidente será mandar para a cadeia um bocado de corruptos”

“Duela a quien duela”

 

Itamar Franco

“Não sei o que eles fizeram nas minhas costas (sic)”

“Não fiz a vida pública com a contabilidade do dever e do haver. Vou ficar esses dias no meu laconismo elíptico”

“Como vou saber se as perssoas estão de calcinha preta, verde ou sem calcinha?”

“Seja legal com os filhos. São eles que vão escolher o seu asilo”

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter que começar tudo de novo”

“O povo não aceita só a repetição de que não vai haver choques, o ministro precisa fazer como o papagaio: levanter uma perna”

“A gente só diz sim ou não no casamento e, ainda assim,às vezes erra”

 

Fernando Henrique Cardoso:

“Todos os dias leio os jornais para saber o que penso”

“Vida de rico é muito chata”

“Cada um tem que inventor a sua resposta”

“É preciso uma pitada de candomblé para poder entender e governar esse imenso Brasil”

“Essa obsessão de parar de trabalhar em uma certa idade vai criar problemas na Previdência”

“Se a pessoa não conseque produzir, coitado, vai ser professor. Então é aquela angústia para saber se o pesquisador vai ter um nome na praça ou se vai dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem”.

“Senador é só pose; quem manda mesmo é deputado”

“Nunca houve nenhuma chance de neoliberalismo aqui. Este é um país muito pobre e o Estado sempre terá um papel importante na atenuação das diferenças sciais”

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”

“Lula é muito bom surfista, mas não forma onda”

“Não pode haver preconceito contra quem sabe. Saber não é errado”

 

Luiz Inácio Lula da Silva:

“Eu adoro Coca-Cola e meus filhos e netos adoram McDonalds” [pré-candidato respondendo a pergunta que lhe foi feitase fecharia as fábticas de refrigerante e lanchonetes americanas]

“Quando se aposentarem, por favor, não fiquem em casa atrapalhando a família. Tem que procurar o que fazer”

“O Estado nada mais é do que uma mãe, e a mãe sempre vai dar mais atenção ao filho mais fraquinho”

“Não é fácil em nosso país qualquer mudança em profundidade”

“Queria dizer ao presidente do Senegal e à África que não tenho nenhuma resposabilidade com o que aconteceu no século 18, 16 e 17. Mas penso ser uma boa política pedir desculpas e perdão pelo que fizemos aos negros”

“Vamos trabalhar para ganhar as eleições. Quem está perdendo vem para cima com tudo, e é gol de mão, de cabeça, de chute, de canela…”

“Sem abrir mão de convicções e princípios, o governo optou pelo entendimento, em vez de impor ao Congresso a lógica da maioria contra a minoria. É uma diferença fundamental nas práticas políticas do novo Brasil”

“Apanhei muito, plantei e agora estamo podendo chupar os frutos”

“Estou com cara de rei?” (em visita à África)

“Eu estou presidente. Mas sou mesmo é dirigente sindical”

“Greve sem corte de ponto é férias”

“Tudo mundo tem direito de ser contra, a favor ou muito pelo contrário”

“A esquerda também é conservadora e tem medo do novo”

“Para resolver o problema da universidade preciso eleger uma pessoa sem diploma”

“Ciro está gritando e xingando para tentar mostrar que é de oposição”

“Esta é uma eleição atípica porque eu não tenho adversários”

“Fernando Henrique governa com medidas provisórias e, toda vez que fracassa, joga a culpa no Congresso”

 

Dilma Rousseff

“Eu acredito que nós temos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto (sic)…porque geralmente as pessoas pensam: ‘Ah! O legado é só depois’. Não vai deixar um legado antes, durante e depois”.

“A tocha olímpica, sem dúvida, é muito bonita, ela é verdadeiramente fantástica. Aquelas cores, o Nuzman estava me explicando, porque isso é um protótipo, elas mudam. As cores internas mudam. E também que a tocha se move. Então, eu digo, diante da tocha, com muita insistência que o Galileu diante da Inquisição: “E pur si muove”. Ou seja, “E apesar de tudo se move”.

“E tem uma, tem uma pintura dela que eu acho genial. E’… como é que é? Natureza Morta… Aí, eu tinha de lembrar a palavra. Natureza Morta… É uma contradição em termos: de que que é o qudro? Rodando, você entendeu? É o stan still a Natureza Morta, aí a Remédio Varo vai lá e faz… Ela bota mesa e os components da natureza morta estão girando”…

“E aqui nós temos uma, como também os índios e os indígenas americanos têm a deles, nós temos a mandioca. Entretanto, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil”

“Eu acho que a importância da bola é justamente essa, o símbolo da capacidade que nos distingue como… Nós somos do gênero humano, da espécie Sapiens. Então, para mim, essa bola é um símbolo da nossa evolução. Quando criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em Homo Sapiens ou “mulheres sapiens”…

“Até agora, a energia hidrelétrica é a mais barata, em termos do que ela dura. O vento poderia ser isso também, mas você ainda não conseguiu uma tecnologia para estocar vento. Então, vamos supor que vente mais à noite, como eu faria para estocar isso?”

“Vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”

“Nós podemos ‘fazer  diabo’ quando é hora da eleição”

“Para que o bode sobreviva nós vamos ter que fazer um Plano Safra que atenda dos bodes que são importantíssimos.”

“Vamos dar prioridade a segregar a via de transporte.Ninguém pode cruzar a rua, não pode ter sinal de trânsito, é essa a ideia do metrô. Ele vai por baixo ou ele vai pela superfície. Ele vai por cima, ele para des estação em estação, essa a ideia do sistema de trilho. Os homens não são virtuosos, ou seja, nós não podemos exigir da humanidade virtude, porque ela não é virtuosa. É por isso que as instituições têm que ser virtuosas. Aliás isso é de outro europeu, Montesquieu. É de outro europeu muito importante, junto com Monet”.

“Estou muito feliz de estar aqui em Bauru. O prefeito me disse que eu sou, entre os presidentes, nos últimos tempos, uma das presidentes ou presidenta que esteve aqui em Bauru”.

 

Michel Temer

“Eu tenho orgulho de ser presidente. Convenhamos, é uma coisa extraodinária. Para mim, é algo tocante. É algo que não sei como Deus me colocou aqui”

“A raiva precisa acabar. Não se faz política com o fígado. Em política não se tem inimigo, mas adversário, aquele que adversa, está no outro lado. Não entender isso é comprometer as bases do sistema democrático”

“Nós precisamos atingir aquilo que eu chamo de democracia da eficiência”

“O povo precisa colabortar e aplaudir as medidas que venhamos a tomar. A classe política, unida ao povo conduzirá ao crescimento do país”

“A cerveja é um fenômeno de agregação e de congregação. Você não vê alguém tomando cerveja sozinho”

“É preciso manter isso, ouviu?”

 

Jair Bolsonaro

“Decisões têm consequência; indecisões, mais ainda”

“A política é sobre as pessoas”

“Dá que eu te dou outra”

“Eu já conheci algumas pessoas nessa vida. OK, pessoas reais. E eu tenho que dizer, a maioria delas são grandes idiotas”

“Gostem ou não eu sou candidato em 2018. Minha arma são as palavras, minha bomba atômica é a verdade”

“Não falo o que o povo quer. Sou o que o povo quer”

“O governo [de Dilma] fará muito mais que o diabo para não deixar o poder” [quando deputado]

“Sou ignorante em economia, mas foram os especialistas que levaram o país para o buraco”

“Temos direitos demais e empregos de menos. Temos que chegar a um equilíbrio”

 

O dito pelo não dito ou o não dito pelo dito

Alguns fatores devem ser levados em consideração na apreciação dessas frases soltas, pronunciadas ao improviso ou construídas e guardadas para o momento oportuno. Os improvisos “escritos” ou meditados são soltos como se fossem impulsos de momento, do feitio próprio a  muitos políticos, dos iniciantes inseguros nas suas falas e proposições.

No caso desse exercício compartilhado, valham como elementos circunstanciais a duração da permanência na presidência, considerada a possibilidade de reeleição, fixada por Emenda Constitucional. Quem mais durou, mais falou – maiores foram os tropeços das falas provocadas ou elaboradas pelos gost writers… Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff cumpriram mandato com reeleição. Esta última, reeleita, não alcançou o fim do segundo mandado, abatida pelo impeachment que a destituiu do cargo, a quase três anos que lhe faltava completar

Não nos aventuramos pelos caminhos exigentes da “análise de conteúdo” desses pensamentos. Não aqui, nem agora. Em outra ocasião, entretanto, mercê de elementos mais ricos que possam espelhar com maior fidedignidade a “narrativa” presidencial, seria possível empreender trabalho acadêmico de maior envergadura (alô, cientistas políticos e psicólogos sociais). Fiquemos, por hora, no plano rasteiro da análise comedida do discurso, das intenções não verbalizadas, dos propósitos dissimulados, das fugas estratégicas à verdade que transformam toda autoridade em memorialista prudente de fatos e intenções discutíveis e improváveis.

José Sarney e Fernando Henrique Cardoso espelham, no conjunto das assertivas compartilhadas, a média da experiência política de profissionais militantes da coisa pública. Sarney, pela experiência própria, colhida em longos anos de porfia entre políticos e seus haveres de perspicácia e esperteza. Fez casamento acertado entre a cultura de uma política provinciana e a circulação pelos centros de poder metropolitano. A FHC, valham os anos de vida acadêmica, os embates carregados de risco entre vontades fortes em seus exercícios ideológicos, no embate de ambições intelectuais e da vaidade dos homens de pensamento. Adicionem-se a esses ganhos de oportunidade que lhe ofereceram circunstâncias históricas aparentemente desfavoráveis, o exílio e a privação de direitos políticos que o levaram para longa estada em destacados centros universitários no Exterior.  E alguma malícia enfeitada pela ironia, a inteligência apurada no hábito da leitura – ingredientes que, em tempos passados, compunham as receitas da boa cozinha política. Sarney vale-se, como é de seu feitio, de uma retórica, por vezes barroca, que ganha, entretanto, propriedade no contexto da presidência, em circunstâncias acidentadas, comprometida pelos notórios vazamentos de legitimidade, marcados pelo desaparecimento do titular, eleito em pleito indireto.

 Fernando Collor de Mello antecipou fenômeno eleitoral surpreendente que iria repetir-se, anos depois, com Bolsonaro. A rejeição ao governo em término de mandato, naufragado em crise econômica sem precedentes, e a fragilidade da candidatura Lula que não superara as contradições de alianças provisórias, construídas em meio a fortes antagonismos internos. Desprovido de planos e de uma plataforma de governo consistente, a não ser a bandeira do “combate aos marajás, a exemplo da bandeira levantada, à época, por Jânio Quadros, Collor enredou-se com uma trama grosseira de interesses pecuniários nas suas bases nas Alagoas, em detrimento dos grupos de maior expressão politico-empresarial que o haviam apoiado nas eleições que consagraram a sua escolha. O impeachment de que foi objeto não se originou de favores ilícitos concedidos, porém de favorecimentos negados a quem tinha força para exigi-los. A fala de Collor é monocórdia, presunçosa, afetada por falsos ares de modernidade e de apelos reiterados dirigidos aos eleitores, retórica um tanto quanto ingênua a que se entrega o presidente Bolsonaro, nestes dias tumultuados por fakes e rancores por vezes irracionais de uma oposição que não encontrou rumo.

 Itamar Franco é um politico mineiro típico, dotado de certas imunidades de comportamento e de ingenuidade que não se confunde com esperteza. É ingenuidade mesmo, boa fé, um sentido montanhês de encarar os desafios da política e da cobiça dos homens. Cuidou para que não fosse comprometido o trabalho dos economistas que velaram pelo Plano Real, seu feito maior. Como personagem, perdeu-se entre uma entourage de mineiros despreparados, espécie de caipiras urbanos, levados à preeminência de cargos lustrosos. Sua fala, pelo que ficou registrado na imprensa e retido na lembrança dos brasileiros não se firmou, sequer pela originalidade das circunstâncias que as cercaram. No mais das vezes, são expressões vazias e inconsequentes de contradições mal geridas e deslizes trazidos pela viuvez e pela solidão nos ermos do Palácio da Alvorada. O episódio de uma foto na qual aparecia abraçado a uma jovem senhora em festa carnavalesca suscitou acerba discussão sobre a conveniência e propriedade do uso da calcinha em público.

 Luiz Inácio Lula da Silva é um socialista com alma populista, exímio negociador, aliciador dos contrários, regente esperto sem batuta, ferido de guerra nas fronteiras do proletariado metalúrgico, sindicalista por profissão e eleição pessoal, organizador, pretidigitador de emoções e vocalista de verdades transeuntes e provisórias. A mais perfeita encarnação de caudilho a pé, sem cavalo nem armas de fogo ou de corte, a não ser o manejo das palavras e de improváveis intenções. Fala direta, bem ensaiada, a moda de improviso pré-fabricado, que não se gasta ou consome pelo uso reiterado. Diz o que os interlocutores desejam ouvir, não o que pensa.  Falseia os fatos e a realidade com maestria, e ninguém se atreve a acusá-lo de servir-se de fakes. Construiu um “campo hegemônico” em seu redor, que o blinda e protege das escaramuças indesejadas; usa com discrição o culto da personalidade que lhe rendem os mais próximos e mais os distantes, infiltrados na máquina do Estado, na mídia, entre o empresariado e na política partidária. As falas são curtas, surgem impregnadas por um certo humor bem dosado, aconselha, vitimiza-se, quando lhe convém. Faz blague com a sua aparente ignorância em assuntos de governo, tira partido da sua baixa escolaridade; acusa e defende, compara-se, vangloria-se de feitos improváveis. Recorre a linguagem mais que perfeita e adequada à sua destinação, conforme a audição para a qual fala. Um demolidor de oponentes, dentro e fora do partido no qual exerce suas precedências de mando e decisão, a moda medieval do jus primae noctis no plano dos caprichos políticos…

 Dilma Rousseff invenção caprichosa de sucessora confiável, a quem delegar poderes provisórios e revocáveis, conforme assim o aconselhem as circunstâncias. A todos surpreendeu, até mesmo ao seu criador; e a todos infundiu o silêncio disciplinado de uma espera com prazo fixo. Um caso assinalado de dislexia política, conforme atestam as suas falas. Frases longas, carecidas de nexo, à falta de sujeito e complementos. Mantras vazios de sentido, discursos improvisados dotados de raro sabor de improvisos repentistas. Base parlamentar aliada alimentada por um pool partidário e pelas benesses do Estado, associada a grandes obras e propósitos mal desenhados, acolhidos e acreditados pela imensa grei dos novos assentados no poder do Estado brasileiro.

 Michel Temer, obra e feito do acaso. Político experiente na burocracia partidária, na qual fez carreira, sem os dotes que ergueram outras vocações na política brasileira. Medíocre, amadurecido na reverência aos aliados e prestadores de serviços eminentes. Fala macia, ao estilo de usar as palavras para nada dizer de fato. Transformar frases em torneios verbais intraduzíveis e retoricamente embalados é a sua praia. Tem a poesia como hobby bem comportado. Alcançou grande expertise na construção de frases inodoras, não comprometedoras, convenientes, tipo alicate universal, que serve para todo tipo de operação. Notabilizou-se pelo emprego de mesóclises de árduo trato e faz acompanhar o discurso de imperscrutáveis gestuais de mãos e dedos, adicionando aspas, esclamações e hábeis interrogações.

 Fernando Messias Bolsonaro conserva modos e gestos de sua formação militar de origem. Impetuoso, verbalizador impulsivo, os anos de caserna amealhados no Exército equivalem à duração de seus mandatos no Congresso, como deputado. Não há como distinguir a influência que essas experiências de vida possam ter exercido sobre o atual president. De militar, faltam-lhe as virtudes do equilíbrio que a disciplina, o sentido da hierarquia e a visão estratégica conferem aos seus granadeiros. De parlamentar, rareiam as pequenas virtudes da paciência e da arte da articulação, em torno de interesses comuns e aliciadores, próprios aos legisladores. Homem de formação religiosa auferida na leitura de textos bíblicos, exerce uma forma atraente de reducionismo pragmático sobre intenções, palavras e gestos, quando não lhe traem o temperamento e as convições ameaçadas. Suas falas lembram a leitura da ordem do dia nos quartéis, impositivas, diretas, com raras imagens, nem sempre bem concebidas e alguns tropeços de linguagem. Revestem-se, entretanto, de intenções sinceras, ainda que mal aparadas, à falta de polimento lógico e vernacular. Tornou-se presa fácil da sua incontinência verbal; anuncia o que não poderá cumprir, e o faz, menos por eleição do que levado pelo desconhecimento de preceitos constitucionais e das leis ordinárias. Esses deslizes fazem a festa da mídia, dos políticos e das autoridades juridicionais, acuados diante de revelações isusitadas. Expõe-se perigosamente pelos recuos sucessivos de decisões anunciadas e na celebração de consócios de alianças, em suspeita associação com cortesãos calibrados pelos serviços e benesses do Estado. O script politico de que se serve lembra as explosões ameaçadoras de Collor. Como mérito e virtude reconheça-se na fala presidencial bolsonareana voz própria, embora uma certa percepção particular dos afetos familiares possam intervir no gestual do presidente.

Poderíamos ter tido, certamente, estadistas de lei na presidência dessa amorável republica brasileira.  A ideia republicana de democracia que se instalou por aqui, como em muitas paragens ao sul do equador, foi, entretanto, por natureza, perversa e excludente. Os Nabuco, os Paranhos, os Bonifácio, os Rui fazem parte dos excluídos dos negócios do Estado e do governo. Ocuparam posições periféricas nas posições de poder.

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