Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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Os fatos, a mentira, os rumores e a idiotice: a simulação e a dissimulação a serviço da política


 

 

Por esses tempos plenos de certezas, os dados da mensuração empírica são mais relevantes do que os fatos. A versão, mais valorizada do que o acontecido; a opinião, mais fidedigna do que a realidade. A interpretação, mais consistente do que a observação.

Não surpreende nesse cenário feito de metáforas que o discurso politico possa assumir formas e linguagens distantes da realidade objetiva construída pelas circunstâncias. Não por outra razão, a fala política assume formas convenientes a cada nova circunstância. As palavras revestem-se de significação particular para quem “faz” a política – e ganham substrato real tanto para os atores que delas se servem quanto para a plateia que nelas acreditam.

O homem politico sabe, por fina percepção, que não deve e não pode dizer tudo sobre o que deveria ou gostaria de falar – ou calar. Na política a omissão é, parafraseando Sartre, uma forma afirmativa, ainda que dissimulada, de engajamento. Palavras, ditas ou dissimuladas, armam compromissos, encorajam cobranças ou despertam intenções. O silêncio é afirmativo, nunca excludente. A omissão é uma forma de afirmação, a contario sensu.

É preciso recorrer, assim, a estratégias discursivas, cínicas, algumas, aparentemente ingênuas, outras, incongruentes no mais das vezes, para a preservação a “verdade” ou para a elisão da mentira.

Maquiavel considerava, a seu tempo, que o príncipe deve ser um “grande simulador et dissimulador”. A simulação da verdade opera-se em engenhosa construção a partir de seu contrário, a dissimulação  da mentira. Ambas são feitas do mesmo material dialético. Em uma palavra, o homem politico não deve falar a verdade.  Por cautelosa e sábia prudência, deve convencer os que o escutam, ainda que não o ouçam, de que fala a verdade.   A experiência ancestral induz o homem politico, fiel à condição que consagra a sua vocação, evite avançar além das declarações genéricas, guardadas zelosamente pelas defesas da ambiguidade.

Nada mais indesejável para quem postula um mandato, extraído democraticamente da representação outorgada pelo voto do que declarações reveladoras de intenções espontâneas, deitadas por impulsos incontrolados. Tudo, menos a sinceridade.

No jogo da política e nas complexas relações de poder, vale tudo, menos a sinceridade. A sinceridade atemoriza os que a recebem como garantia de propósitos anunciados, e compromete quem as serve como estratégia de cooptação de vontade e desejos, aspirações e esperanças.

Se o dito ficar pouco claro ao entendimento comum dos homens de boa (ou má) fé, melhor ainda. Evitam-se, desse modo,  prudentemente, desacertos, incompreensões e porfias incômodas.

O silêncio, em determinadas circunstâncias, é regra de ouro: deixa os eleitores e o povo – essa categoria anódina que passou a ser classificada sociologicamente de “opinião pública” —  mergulhados em dúvidas, jamais fortalecidos pela certeza.

A convicção, na linguagem e na páxis política, é uma ameaça arriscada, cujos efeitos são ruinosos para quem quer e precisa ver esquecida afirmação temerária, cometida em momento indesejável,  pelo impulso de emoções. A emoção é um desvio de comportamento incompatível com o métier da política.  Ao homem público, levado ao turbilhão da vida política, uma vez eleito, incumbe “licença ética” para evocar “razões de Estado” em nome das quais possa calar, dissimilar e esquecer.  A mentira, nesses casos, posta a serviço da nação, é plenamente justificável. Aliás, esse entendimento patriótico não é coisa nova. Aristóteles, sabem os doutos, a defendia “pelo bem da República”.

Nas campanhas políticas, batizadas pelos prélios eleitorais, a vitória chega, aparentemente, nos braços da emoção, no movimento incontrolado das massas, no bulício das ruas. Pelo menos assim acreditamos e imaginamos possa ocorrer. O teatro politico encena e convence a plateia e os próprios atores…

A expressão “pós-verdade, tradução literal de “post truth”, de marcação inglesa, caiu em uso generalizado, por estes tempos mais recentes. A ela recorremos todos nós, sob a proteção de comentaristas, escritores e analistas, de maior ou menor credibilidade, para caracterizar o que para Maquiavel e Aristóteles não era coisa nova. Elevada à condição bem abonada de  verbete no “Oxford Diccionary”, “post truth” fixa o que é “relativo ou denota circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes para a formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal”.

Ralph Keyes conferiu a essa palavra o prestígio da dicionarização e abriu-lhe as portas dos domínios exclusivos da Academia, com o seu livro “The post-truth era”, publicado em 2004.

As redes sociais e a utilização dos algoritmos  — identificação empírica do que os eleitores desejam ler ou ouvir —  são “bolas de feltro” nas quais se recolhem o que restou da opinião dita pública. Jorram dessa cornucópia de fantasias anúncios acolhidos pelos corações inquietos, afagam-se insatisfações, a coragem desperta  nos decaídos de esperança, almas sofridas encontram alívio e encorajamento, combate-se à sombra, sob a proteção do anonimato, destroem-se reputações e veiculam-se boatos e insinuações. Criam-se na virtualidade da “post truth” respeitabilidades provisórias, improvisam-se talentos, celebram-se virtudes e competências. Produzem-se, enfim, “novas” verdades permanentes. Surgem os “influenciadores”, os provedores de ideias e a “delivery”, “prêt-à-porter”, de ideologias “pós-modernas”.

Os politicos seriam tão pérfidos, hoje, como antigamente? Sendo as coisas como são, a verdade poderá sobreviver à democracia? Como responder a dúvida ainda mais ameaçadora: a democracia poderá sobreviver à mentira? Populismo e ideologia fazem a sua parte nesse trágico processo. A demagogia refinou-se, ganhou novos instrumentos de controle e indução da opinião, deixou o colarinho e a gravata e entrou na era da “pós-verdade” em que vivemos.

O Brasil aperfeiçoou suas técnicas e até as exportou, com grande aceitação no Mercado externo. Como contrapor a complexidade da realidade às visões maniqueístas e simplificadoras do mundo? E como esperar que escolhas essenciais sejam alcançadas mediante processo eleitoral sujeito a manipulações jurídicas e tecnológicas, quando nos faltam educação, consciência política e os atributos da cidadania para avaliarmos as consequências de nossas opções? Afinal, de que democracia estamos a falar?