Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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O consenso, o conchavo e a “cordialidade” brasileira


 

Não são pouco frequentes, nem de menor valia, os prélios verbais em que se envolvem nas tribunas parlamentares ou pelas janelas da mídia distintas autoridades. Falta-lhes, em geral, ideias; sobra, em contrapartida, intemperança retórica, em suas espertas conjecturas.

Já me referi, mais de uma vez, au fil de la plume,  ao léxico politico de uso habitual no Brasil, a certas impropriedades mal dissimuladas, mas, sobretudo, à imprecisão das falas e do discurso empregados pelos chamados “homens públicos”.

Nessa categoria distinta na qual se inscreve vasto círculo de atores – governantes eleitos, agentes públicos demissíveis ad nutum a judicatura, parlamentares e militantes partidários, sindicais e corporativos e até emissários da mídia – incluem-se o que modernamente se chama de influenciadores. São entes públicos, afinal de contas, mesmo sem mandato popular, porque mexem com um produto intangível mas de grande repercussão, a notícia e o seu natural corolário a opinião.

Os marqueteiros, influenciadores especializados no convencimento ex oficio, não ficam à margem dessa tribo de influentes, designação outrora usada na ciência política para definir aquele que, detendo recursos politicos bastantes, é capaz de induzir alguém ou outras pessoas a agirem segundo sua vontade, sem o que procederiam de forma diferente. É uma relação que se fixa na essência do conceito de poder e de sua projeção política no território do Estado

Episódios mais recentes de engenhosa explosão de autoridade para lá de republicana lembram a imagem do “brasileiro cordial” cunhada por Sérgio Buarque de Holanda, sob a inspiração de leituras weberianas em seu noviciado sociológico.

Consagrada como reveladora de certo viés do caráter brasileiro, a expressão ganhou domínio público, ao mesmo tempo, que ganhava significados alternativos de evidente ambiguidade. SBH voltaria a essa afortunada expressão muitas vezes e em texto expresso para justificar-se e explicar o sentido verdadeiro que lhe atribuíra originalmente.

Explicou ele pacientemente que não empregara essa expressão no sentido de “cordiais relações”, como o fizera, por seu turno, Cassiano Ricardo. Referira a “cordialidade” que surge nos momentos ameaçadores do confronto. O conflito se armaria, estrategicamente, como forma de produzir a conciliação e o consenso. Afinal, “seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade”, insiste Holanda. Na “cordialidade” do “homo cordialis” prevalecem a coerção, mandamentos e sentenças.

Os conflitos politicos assemelham-se, no Brasil, a   uma desavença familiar, o confronto direto é, sempre, evitado. Marcado o território, como o fazem os cães, a arrelia da provocação transforma-se em aceno bem comportado do político “cordial”. É dessa conciliação induzida que surge a arte do conchavo. Nessa relação delicada sobrepõe-se a parte mais forte, mais ágil e esperta.

A “habilidade” do presidente da Câmara dos Deputados nas suas diatribes contra o presidente da República dissimula cordialmente  a audácia do ataque e de um confronto preventivo, modo ardiloso de promover o entendimento e a criação de consensos, em nome, naturalmente (quem duvidaria?), das instituições e da governabilidade.

No mesmo passo, suscita a suspeição de decisões que possam ameaçá-lo em seu abnegado ministério parlamentar. Posa de estadista para a galleria de retratos oficiais, escolhe as armas para o enfraquecimento de seu contendor, apropria-se de suas proposições, limpa-as do que possa parecer excesso e apresenta-se como defensor da governabilidade. Bingo.

No Brasil as decisões mais relevantes foram tomadas, sempre, por uma camada miúda, a “elite social”, que se constitui de politicos, do empresariado, dos partidos em colaizão, em acendrada posição de cooptação, dos movimentos sociais, das organizações sindicais e das corporações.

O povo sempre esteve fora desse jogo patriótico. As mudanças e reformas são concebidas e executadas pelas elites (que não são exclusivamente brancas, nem necessariamente ricas). Em certo sentido, refletem a designação popular dos “cartolas”, os donos e agenciadores do poder. Ocupam camadas sobrepostas na hierarquia dos agentes públicos, fazem a intermediação complexa entre o público e o privado.

Nessa porfia cívica motivam pessoas e dirigentes, subvencionam os mais inspirados e promovem a socializaçnao dos recursos do Estado com quem dele se serve e a ele presta seus honoráveis serviços.

A democracia “de gravata limpa” foi exorcisada e depurada de conotações incômodas. Bastou uma banho linguístico com xampu semântico: o substantivo “democracia”, em sua acepção arcaica, cedeu lugar ao adjetivo “democrático”, impregnado de intenções dissimuladas, e temperado a gosto pelas ideologias do momento. Ao democrático, adicione-se, a gosto, poções republicanas e leve-se ao banho-maria até que se consolide como estado de direito.

A democracia, diria Sérgio Buarque de Holanda, transformou-se por aqui em uma  democracia “cordial”, o caminho natural e indolor da esperteza, do consenso e do conchavo, trilha pela qual anda mais quem mais corre… Corre mais, quem mais procura…