Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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A democracia não se constrói apenas com palavras, mas com exemplos

 

Convém proceder, como se faz nos artigos publicados em distinguidos periódicos científicos, a fixação de alguns conceitos que serão utilizados nessa homilia, para que não se instale a dúvida na cabeça das pessoas. Aquelas  pessoas que, eventualmente, em gesto de autopunição,  deitarem o olhar sobre o que se lerá em seguida.

Não será indispensável descrever a metodologia utilizada, nem deitar bibliografia, com as suas doutas notas de pé-de-página, como fazem os homens de ciência. Mas convém que se esclareçam alguns pontos delicados — e as ironias que se encontram espalhadas, irresponsavelmente, neste texto. Os mal entendidos da escrita e da leitura – os linguistas já nos chatearam demais com as suas revelações a esse respeito – hão de ser evitados para que o autor incauto não tenha que se explicar em face  das invectivas que sofrerá, vindas de homens sensatos e criaturas bem avisadas. E que, todos tendo lido uma vez essa prosa fastidiosa não voltem a ela e preservem a integridade intelectual e física de seu autor. Ao abrigo das defesas contra agressivas metáforas que lhe sejam lançadas.

Pois vamos lá. O autor destas mal traçadas linhas não é socialista, não é ou foi comunista, não namora com o “centro”, não é filiado a nenhum partido político, não faz parte de grupos de opinião, não pretende ser “influenciador” — age por conta e riscos próprios. Tem em seu (des)favor uma alentada folha corrida de denúncias encaminhadas aos órgãos de segurança de outrora, embora, deva confessar, modestamente, que nenhuma delas era verdadeira. A criatura perigosa que a muitos parecia subversiva, nunca representou perigo para a segurança pública, nem para a tradicional família brasileira. Foi exemplo de quão frágeis eram as informações de que se valiam as instâncias que zelavam pela nossa segurança. Foi, admita-se, um atleta olímpico de denúncias que, por aquele tempo, quem não era denunciado denunciava quem pudesse. Saiu ileso, ao fim e ao cabo, de tanto zelo patriótico: as denúncias contra ele eram falsas. Como compensação não teve o amargor de encarar acusação de dedo-duro. Nem a sorte de valer-se de salvo-conduto que lhe exaltasse a coragem e as virtudes de um revolucionário

Pois bem, seguindo a sequência lógica desse raciocínio, devo acrescentar que nunca fui lulista, não sou bolsonarista, não sou antiamericano, nem anticomunista, torço pelo Flamengo, adoro pequi, nunca me deixei atrair pelo estruturalismo, odeio muitas coisas da pós-modernidade, nunca li Olavo Carvalho ou Gramsci, fiz, entretanto, minhas  surtidas em um romance notável – “O Capital”, de Marx. Feminista por convicção e preferência, tenho a mulher, gênero e afetuosa parceria, em elevada consideração. De sodalícios, pertenço a um, com muito gosto. Pretendo, a sorte me ajudando, não fazer parte de mais nenhum. Alguns indícios me levam à suposição que sou ateu envergonhado, não registrado na militância – ou seria uma criatura desgarrada pelos caminhos da fé? Quero ter a liberdade de descrer e que os outros a tenham de crer: não me afoito a catequisar ninguém, na mesma medida em que dispenso a catequese de quem me queira obsequiosamente mostrar-me as trilhas da salvação. Não estou muito interessado em saber o que os outros  pensam a meu respeito — eu mesmo não firmei convicção sobre essa questão —   de mal, penso muito pouco dos outros, a não ser quando os “outros” fazem por onde e porquê… Não me descuidei dos amigos, empenhei-me, sempre, aliás, em tê-los por perto, ao alcance dos afetos ascendentes. Fiz o que pude por manter os desafetos seguros de sua desafeição, e para que não desistissem de suas intenções a meio caminho. Nunca abri mão dos amigos, embora tenha aceitado de volta algumas amizades interrompidas por mútuas idiossincrasias. Não o fiz por virtude, mas pelas saudades acumuladas. Na idade em que me encontro, não há mais tempo para fazer novas amizades.

Nisso de crenças e ideologias, lembra-me uma conversa, em família, com o professor Hermes Lima. Dizia ele a meu avô da sua admiração pelas  pessoas que andavam protegidas com os seus  “guarda-chuvas da conveniência”. Ou da hipocrisia, como explicou. Quando acusados de comunistas, por aqueles tempos reimosos de patriotas a solta, objetam em sua defesa: “Mas eu sou católico!”.  Confesso que nunca recorri a essa proteção eficiente. Importa dizer que, quando não se tem resguardo ideológico adequado, apanha-se de todos os lados… Donde concluo, com visível humildade, que descobri, por esforço próprio, que não sou de “direita”, tampouco de “esquerda” ou de “centro”. Tant pis pour moi.

 Isto posto, vamos ao principal.

Antilições de democracia

Três episódios recentes, geograficamente distantes, alimentam-se da mesma matéria prima: o radicalismo, a violência e o ódio, impulsos que, em geral, não aparecem isoladamente. São irmãos siameses.

Um discurso fatídico

Um dos episódios recolhidos, de inspiração  medieval, dá vida aos demônios da política. Trouxe as vozes longínquas de um fundamentalismo religioso e ideológico, em cerimônia que mais pareceu exorcismo do que o rito de posse de um burocrata da culturocracia. Este foi aqui mesmo, sob o olhar complacente e, de um certo modo, cúmplice, de uma plateia de homens de Estado e de seus maçanetas(diz-se daquela categoria de assessores inúteis,  porém indispensáveis), quando foi anunciada a boa nova de que “a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional”, “… e será igualmente imperativa”, “vinculada às aspirações do nosso povo”. “Ou não será”, arrematou um certo senhor Alvim, templário em disponibilidade, o derradeiro cavaleiro de Cristo, desgarrado de sua irmandade, no serrado brasiliense.

“Nem Goebbels diria melhor”, ocorreu a um dos ouvintes mais atentos. Pois disse, e com mais ênfase, enfiado na farda que lhe conferia as garantias de membro influente dos führerkorps. Na fala de Goebbels, espécie de João Santana de Hitler – mais culto, nem assim menos oportunista —  a arte (alemã), além de heroica, seria “ferreamente romântica”, igualmente imperativa e vinculante”. “Ou não será nada”. O ritmo da frase, a adjetivação e o ardor retórico se assemelham nos dois discursos. Tivesse Goebbels vivido depois do senhor Alvim, receberia, certamente, o epíteto de plagiador de formulação tão bem construída.

Macron vai ao teatro

Do segundo episódio chegou-nos a notícia, graças à cobertura da mídia – sempre atenta e operosa em compartilhar com os brasileiros, sedentos de desgraça, guerras, desastres naturais e casos triviais de polícia e as últimas ocorrências, mundo afora –, dos gritos de um inusitado “ça ira”, em Paris. O presidente Macron assistia a uma representação teatral, quando foi surpreendido pelos camicazes da mídia heterodoxa – as redes sociais – que divulgaram o paradeiro do chefe do Estado e convocaram os franceses a demonstrar o seu desagrado ao primeiro mandatário. Como o parisiense vive em estado pré-revolucionário desde a decapitação de Robespierre, não custou que os coletes de todas as cores, além do amarelo, cercassem o velho teatro à caça do Luiz XVI da ocasião. Como os franceses têm essa mania de cultivar ideias e separar a cabeça do resto do corpo aos maus pensantes, armou-se logo o cadafalso metafórico da caudalosa verbalização. Macron foi posto a salvo pelos serviços de segurança, equipamento cada vez mais útil nas ditaduras, quanto nas democracias. A arapongagem armada tornou-se, nestes últimos tempos, a mediação mais eficiente entre o Estado e os seus súditos. Aqui e alhures, no terceiro e no primeiro mundo. A salvo de qualquer ideologia, esses acendrados combatentes da liberdade de opinião tornaram-se contraponto da dialética. A dialética traumatológica tornou-se, com o passar do tempo, o argumento lógico mais usado pelos manifestantes e desmanifestantes em todo o mundo. Devem-se esses progressos à globalização do casse-têtes,palavra cuja origem denuncia as suas democráticas intenções.

As vozes da intolerância

O terceiro episódio ganhou cores locais. Por essa prosaica razão não haveria, entretanto, de ser tratado com indiferença nestas despropositadas considerações.

A solenidade de colação de grau com milhares de pessoas, bacharéis e profissionais in pectori, no aguardo da consumação do ritual de passagem que o fariam aptos a exercerem as suas profissões, foi interrompida com cartazes e palavras mal comportadas, insultos e o que mais pode fazer uma massa indigente, com as poucas ideias que carrega em sua mochila recheada de disparates. Pediam a demissão do reitor por usurpador, interventor que teria sido enviado pelas falanges do governo do planalto. E mais longe teriam ido, não fossem a reação do reitor e dos presentes, e o mal estar causado pela inconsequência dos atos praticados. Exercícios dialéticos como esses  já haviam ocorrido em outras oportunidades, em manifestações eloquentes: a pichação das paredes  da reitoria com palavras de ordem, a quebra de portas e vidraças, a grafitagem de obras de arte e os retratos de  antigos reitores, cidadãos indefesos, recolhidos, em contrição pictórica, aos seus pecados presumidos.

O que há de comum entre os três episódios?

Há, certamente, rasgos de intolerância que, em estado de democracia, como nos sentimos, estão fora do lugar. Na democracia, a palavra é instrumento de entendimento e de combate. O homem (e a mulher, por pressuposto) não uivam, raciocinam e falam, embora digam coisas pouco recomendáveis, no mais das vezes. Tornaram-se, em certo momento de sua longa travessia – nessa aventura complicada da evolução –, sapiens, como garantem antropólogos, filósofos e teólogos, de maior ou menor reputação.

A política é, na sua essência, uma estratégia de entendimento, a arte do possível, uma forma de evitar confrontações e buscar convergências pela explicação dos contrários, na doce esperança de tornar exequível a vida em comum, nos perigosos espaços da sociedade. A política não é meio de vida, estratégia da esperteza, instrumento de persuasão, manipulação de anseios e da vontade, embora essa afirmação não constitua unanimidade.

O tom enfático do senhor Alvim, cercado de uma simbologia ambígua e da grandiosidade dos acordes wagnerianos fez coro com fatuidade e a ignorância. Pelo imperdoável tropeço semiótico de quem pretendeu usar sinais que não conhecia e pela reprodução de um texto, cujo autor não precisava ser conhecido, para que fosse percebido o significado real do seu discurso. A escolha do secretário da Cultura do governo, demonstrou, mais uma vez, a capacidade incontrolável de autodestruição que anima  os nossos atuais  governantes. Na frase de Goebbel reproduzida, ipsis litteris no discurso do empossado, três imagens pescadas por Alvim assustam: “arte heroica e nacional”, “imperativa”, “aspirações urgentes do nosso povo”, “ou então não será nada”. Para não retomarmos  a imagem do “heroico”, do “nacional”, do “imperativo” e  das “aspirações urgentes”, que se explicariam por si, no quadro restrito de um regime autoritário, basta que procuremos entender o sentido real e objetivo desse ameaçador “ou então não será nada”.

Ou as coisas heroicas (o quê exatamente?), se farão, como reveladas, nacionalistas e de forma imperativa – ou então a arte  brasileira não será nada. Vaticínio funesto.

O pior estaria por vir. Em Paris, os distúrbios de rua foram contidos e a autoridade do presidente preservada. Mas o odor de intolerância, antidemocrática, não se desfez. Em Brasília, o episódio de um discurso infeliz, na contra mão dos ideais de liberdade de expressão promoveu um aparato de manifestações, nas quais se pronunciaram vozes em defesa da comunidade judaica, a mídia assanhou-se em extremos de zelo democrático, autoridades deitaram as mais reles figuras de retórica e eructações de uma experiência democrática que a rigor desconhecem – sequer praticam os seus mandamentos. Richard Wagner foi acusado de nazista, Goebbels teve sua vida revisitada, como se valesse a pena dispensar tamanha ênfase  aos rastros criminosos de um celerado. Multiplicaram-se com grande velocidade os nossos íntimos instintos de cidadãos e democratas. Talvez, esse tenha sido, apesar de tudo, o lado positivo de toda essa arenga patriótica.

Em Fortaleza, a invasão à Concha Acústica da UFC, em dia de festa, quando milhares de estudantes celebravam a conclusão de seus cursos e de uma etapa decisiva de suas vidas não suscitou reação significativa. Umas poucas linhas apareceram nas páginas internas dos jornais. A notícia formal e anódina dos jornais de TV assemelhava-se a registro burocrático de um episódio que lhes parecia trivial, próprio à democracia… Não houvessem as redes sociais – canais pouco confiáveis, transformados, paradoxalmente, em valioso meio de comunicação popular – feito circular a informação e as manifestações sobre o deplorável episódio, dele não teríamos tido notícia por inteiro. A solenidade foi interrompida, mais de uma vez, os insultos bradados calaram as vozes representativas da celebração.

A democracia não se faz apenas com discursos e citações eruditas: ela repousa em um complexo arcabouço de leis e regras, em um quadro constitucional que lhe dá dimensão e forma. Legitimidade e legalidade se completam na obediências às instituições e na livre   manifestação de ideias, anseios e reivindicações.

A universidade não se confunde com a função partidária, tampouco com os movimentos sindicais e os campos hegemônicos que criam em seu redor agentes de um poder poderoso —  por essa razão carecido de legitimidade.

A Universidade Federal do Ceará é seguramente o maior patrimônio intelectual e científico do Ceará. Por isso merece ser respeitada.

Nota: As fotos mostram estudantes voluntários trabalhando na limpeza das paredes grafitadas na reitoria da UFC, em 2015.

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