Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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Navegando em águas rasas, em embarcação preguiçosa


 

 

A calmaria dos ventos é a única esperança de a embarcação chegar a salvo no porto de destino

Uma semana como poucas: as arrelias republicanas testam as possibilidades da desgovernabilidade no Brasil

 

Em uma semana, reduzimos todos esses anos 130 anos de exercícios republicanos a um simples axioma, redução daquilo que, na filosofia, se tem como premissa necessariamente evidente e verdadeira, embora essa circunstância não seja demonstrável.

Esses eventos que, no fundo, a ninguém surpreenderam,  desmentem toda a construção aristotélica do princípio da contradição, do “nada pode ser e não ser simultaneamente”.

Ficou provado, em patrióticas pelejas constitucionais e parlamentares, que pode, sim.

Os interesses e os remédios dissuasivos que fizeram praça na política brasileira  podem ser e não ser, ao mesmo tempo. No Brasil, a dialética, nascida de inspiração nutrida por essa premissa nunca levou a melhor no acrimonioso embalo entre racionalistas e empiristas. É da nossa índole rejeitarmos os contrapontos.

Fazemos, nessas emergências, coisa melhor: dissimulamo-los  e os reduzimos a categorias da vontade que não se opõem, antes se confundem e apontam para convergências pacificadoras.

Cultivamos a preferência ancestral pela negociação dos contrários. Desmontamos com luvas de relojoeiro os contraditórios, e o fazemos pragmaticamente, que, afinal, a racionalidade e a lógica nunca foram prezadas pelos habitantes desta antiga província lusitana.

Como em uma sequência vertiginosa de um thriller, os poderes republicanos, que são três, demonstraram o quanto cada um deles incomoda aos outros. Damares deitou longa peroração sobre cometimentos improváveis. Dilma feriu de morte a gramática e a razão. Mal nos refizemos do suicídio calculado do velho engavetador de ociosas demandas. Novos juristas saíram do armário e deixaram-se ver e confirmaram, em intenções, gestos e palavras, que, por aqui, o direito e a lógica jurídica podem ser bem mais relativas do que imaginar possa a nossa vã filosofia.

Lula persevera na decisão de reformar o Código Penal e adverte os juristas sobre o seu direito a continuar preso. Considera-s unilateralmente um preso político, compara-se a Mandela e corteja o Nobel da Paz.

A magistratura trava em seus campos de luta combate severo ao iluminismo de personagens do Excelso Pretório. E o faz, por vezes, encorajada pelo mesmo convencimento de quem é comissionado da verdade dos bons.

Os jurisprudentes afogam-se, em suas peças justinianas, na adjetivação perdulária, nos brocardos latinos e em tropos e metáforas sem os quais  os autos de qualquer processo correriam o risco de tornarem-se inteligíveis às partes e aos não iniciados na complexa arte de fazer justiça. Alguns deles vieram à colação para externar as suas apreensões jurídicas e admoestar os insolentes que pretendem discutir as sentenças e confrontar as suas competências à luz do dia e dos holofotes. Com razão, aliás: povo é povo, deve ser afastado dos grandes embates reservados à elite. A opinião pública há de ser mantida a uma distância regulamentar; a voz das ruas não deve interferir no grave recolhimento de quem exara pareceres e decide, em derradeira instância, sobre as condenações imprudentemente proferidas em instâncias subalternas, ao arrepio da lei e da Constituição…

Militares saem de seus cuidados para advertirem os excessos praticados em nome da toga, mas o fazem sem a convicção de quem está pronto para entrar na liça e comandar a sua carga de cavalaria, como fazia, no cinema, a 7ª. Cavalaria do general Custer, a salvar os colonos da indiada à solta.

Enquanto isso, o presidente da Câmara vai preenchendo os espaços vazios, exercitando a retórica, a sonhar em noites mal dormidas  com a figura de Cromwell, o mesmo que dissolveu o parlamento inglês e designou uma assembleia restrita para ajudá-lo a governar.

O presidente do Senado faz o que pode e vence as suas limitações de homem de Estado e de governo para a todos agradar, nessa animada vilegiatura parlamentar que os seus pares lhe conferiram, em seguida à queda em desgraça do senador Calheiros…

Pequenos desacertos terminaram por opor o presidente Bolsonaro aos seus companheiros de partido, designação tomada em sentido figurado, pois de companheiros sempre mostraram muito pouco ou quase nada, como ficou demonstrado com os eventos guerreiros desta semana singular.

Desacertos, combinações mal feitas e mal concluídas, foram derramadas  pelo celular, imprudência que faz lembrar a frágil memória que têm os políticos dos riscos que esse instrumento oferece para os que dele se servem. E como os acertos não chegassem a termo, fluíram os insultos e impropérios, numa linguagem que faria corar o discreto deputado Alexandre Frota. As vinditas não se fizeram por esperar:  para esses neófitos de um partido mínimo,  sedentos de poder, o momento da verdade  não tardou. Acusações recíprocas fizeram-se ouvir  no curso dessa animada controvérsia parlamentar. Acordos firmados com o fio de cabelo do bigode caíram em exercício findo, candidaturas rolaram, sonhos acalentados foram desfeitos. Votos a mais ou de menos nas listas de votação para escolha de lideranças, a seguir, desautorizadas e destituídas.

Nunca, nestes derradeiros tempos, as lides do parlamento brasileiro exigiram tanto de seus membros e tão longe foram levadas as imprecações dialéticas em plenário ou no recolhimento das churrascarias de Brasília. Em português pouco castiço, admitamos; mas sem torneios desnecessários, pois em matéria desse gênero contam mais as invectivas do que os prejulgamentos.

Ainda assim, há quem possa — os céticos destituídos de patriotismo — pôr em dúvida a nossa vocação democrática.

Lembra-me a insistência com que um velho professor de História referia que os governantes e o povo no Brasil vêm tentando acabar com o Brasil desde que Cabral, o descobridor — não o navegador carioca de águas turvas da baixada fluminense — começou a sua estoica tarefa de “inventar” o Brasil. Integralista, ainda que mal confessasse, dono de uma ironia tratada em muitas leituras, exibia a sua contrição ideológica sem cuidados e recebia a reação incrédula e divertida dos alunos com  a “nonchalance” das almas tolerantes. Era um desses raros “radicais” que já não se criam, capazes de rir dos seus próprios arroubos. Tantos anos passados, fico e imaginar a reação de José Dinizard Macedo em face dos novos personagens e das suas intenções obradas com acendrado espírito cívico…

Tirante alguns episódios edificantes, guardados pelos cronistas maiores da nossa História, o fato é que o nosso passado, tão minguado quanto as perspectivas do nosso futuro, traz toda a incerteza dos acasos que cercam a tessitura dos nossos feitos vencidos.

Estamos navegando em água rasa, com o risco de a quilha da embarcação roçar os arrecifes da rota de percurso. Avançamos devagar, sem cartas náuticas atualizadas, com uma tripulação mal treinada, entediada com tanto mar e tão pouca esperança, com um capitão alvoroçado, rompido com o seu Imediato, os grumetes desobedientes. O diário de bordo perdeu-se por entre antigas escrituras desprezadas, e cada um lança culpa no outro pelos atropelos da marinhagem. A calmaria dos ventos é a única certeza  de que o barco, tolhido de sua navegação, poderá escapar das surpresas dos corais avistados já próximos, do castelo de proa.

Desculpem-me a o abuso das metáforas. É que não me dispus a empunhar, por confessado desânimo, os instrumentos conspícuos que as pessoas inteligentes usariam para comentar as arrelias republicanas desta semana.

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