Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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As perigosas e insuspeitadas armadilhas da História local: o Comendador Acioly versus o Coronel Franco Rabello


 

 

Espaço e tempo são duas categorias prementes, diria determinantes, para a construção de registros históricos. O tempo da História é senhor do entendimento das circunstâncias e das motivações que produzem os fatos. Fatos e circunstâncias, vistos pelo observador que faz a reportagem dos acontecimentos transcorridos, são os elementos com os quais se tecem a narrativa que retrata e modela o passado. Explicam, muitas vezes, o presente, e antecipam o entendimento do futuro.

Dizia-se que o historiador é o jornalista do passado, e jornalista, o historiador do presente. O espaço é o segundo fator da narrativa dos fatos e feitos dos quais homens e mulheres são protagonistas. A percepção dessa realidade vivida, na qual se envolve um elenco numeroso de personagens, em planos diversos, seguindo impulsos contraditórios, já a traz consigo o observador, é uma projeção de suas inclinações e motivações pessoais, culturais, até, e das influências que pesaram em sua formação.

Hans Eysenck, psicólogo alemão que teve seus momentos de glória e combates, pensava, sem afastar os condicionantes genéticos, que a inteligência era marcada predominantemente pela experiência e pelo meio. Todas as humanidades parecem mergulhadas e delimitadas por esses fatores, humanos, demasiadamente humanos. Falar de ciência em relação à sociologia, à política e à economia, para destacar apenas algumas dessas especialidades, haverá de ser tão imprudente quanto afirmarmos que a história é um conjunto de saberes exatos que podem ser aferidos, medidos e projetados em hipóteses e teorias…

Retomando o rumo que interessa a este artigo, diria que a história local, regional, é um exercício carregado de armadilhas. Em determinadas circunstâncias de consequências fatais. A descrição do “rio de minha aldeia”, do que se passou em suas ribeiras, cenário de histórias e fatos míticos ou verdadeiros, é tarefa mais complexa do que o estudo das civilizações que nasceram entre o Tigre e o Eufrates, na Mesopotâmia. Justamente pela proximidade espacial e pelo condão temporal que não nos afastam das circunstâncias causadoras dos eventos que pretendemos descrever.

Estas reflexões acudiram-me naturalmente, sem o travo de preconceitos teóricos ou premissas doutrinarias, ao percorrer alguns textos sobre a História do Ceará, selecionados entre escritos antigos e os bem mais recentes, mesmo os de caráter pedagógico. Aqueles que se destinam aos estudantes das escolas de todos os graus.

Registros foram feitos e numerosos — e dispomos, hoje, de um acervo documental expressivo, graças ao espírito colecionista do Barão de Studart e de muitos que integraram a Escola de pesquisadores por ele fundada e preservada no Instituto do Ceará. Intérpretes dedicados, dotados de instrumentos ágeis de crítica e observação deram vida, a seu tempo, aos eventos e fatos catalogados pelos nossos primeiros historiadores. Muitos dos novos historiadores vieram, em época mais recente, da Universidade, armados de formação acadêmica sistemática e de instrumentos teóricos e metodológicos recursos que fazem da História mais do que um armário imobilizado de registros de fatos e genealogias, dão-lhe forma de acervo de conhecimentos baseado na percepção do significado real dos fatos e de suas circunstâncias.

Ainda assim, persiste entre estudiosos de nossa História, precisamente em textos correntes mais utilizados na formação escolar, a visão dualista, maniqueísta, entre o bem e o mal, que tem suas origens nos conflitos intermitentes de dois partidos, nos começos republicados, o Conservador e o Democrata, gerados pelo coronelismo oligárquico cujas raízes mergulham do Segundo Império.

Algumas posições perduram inconciliáveis entre os cearenses, e se reproduzem nos textos escolares, pelo viés que os acompanha, na adjetivação que não dissimula preferências que têm suas raízes no jogo distante de famílias em torno do poder e, em casos significativos, da fé.

As incertezas que cercam a fundação da cidade de Fortaleza e confundem o seu real fundador, abriram uma luta campal que opôs dois dos nossos mais brilhantes historiadores, Raimundo Girão e Ismael Pordeus. Mathias Beck viu-se em confronto com Martim Soares Moreno, sem prévia consulta, expostos, ambos, em réplicas e tréplicas que roeram os laços fraternais que uniam os dois historiadores. Martins Filho, reitor da Universidade Federal do Ceará, tomou partido da conciliação, entronizando na antessala de seu gabinete os retratos dos contendores, pintados a óleo pelo artista Floriano Teixeira, lado a lado, o explorador holandês e o primeiro “governador” da Capitania do Ceará.

O jornalista Lustosa da Costa, sugestionado pelo muro que separava as duas Berlim do pós-guerra, movido por um espírito de conciliação que, aliás, não lhe era próprio, propôs  às autoridades que se tomasse o riacho Pajeú como divisória natural entre a Fortaleza fundada por Mathias Beck e o lado lusitano de Martim Soares Moreno. Fortaleza ocidental e Fortaleza oriental a exemplo de Berlim. Tudo em vão. O litígio prolongou-se enquanto viveram os ilustres historiadores.

O Padre Cícero e a beata Maria de Araújo protagonistas do conflito secular com os poderes locais da Igreja dividem, até hoje, os nossos historiadores – e os partidarizaram.

O episódio sangrento do Caldeirão e o trágico fim do beato José Lourenço, com a profanação do seu túmulo, opõem até hoje as forças da fé às entidades do governo dos homens, defensores da ordem, e progressistas inconformados com o arbítrio do Estado.

A queda do governo Acioly e o advento do “rabelismo” iniciam o anátema e a condenação do “aciolismo”. Acioly é tratado, na maior parte dos textos escolares, como o “oligarca”, adjetivação usada com evidente sentido pejorativo; ou dá-se-lhe o apelido de “babaquara”. Ao coronel Franco Rabello muitos emprestam o papel de libertador, encadernado no dólmã dos salvadores. Do aciolismo emana o lado mau da política, a corrupção e autocracia sem controle de uma elite perversa. Rabello, ao contrário, encarna o militar heroico que vem resgatar os valores ancestrais ameaçados em uma província distante e esquecida dos poderes centrais.

A polarização entre “rabelistas” e “aciolistas” irá reproduzir-se, mais tarde, em outros momentos históricos, na oposição entre “pessedistas” e “udenistas”, cuja força se diluiu, em anos posteriores, no confronto respeitoso entre os “revolucionários” de 1964 e os que não couberam à sombra dos galhos frondosos da ARENA, nomeados oposição, no MDB, muitos deles a contragosto.

Com o advento da Nova República, em 1985, eleita pelo voto indireto, e a inauguração da “socialdemocracia” tucana, em 1949, seguimos as tendências multipartidárias impostas ao país pela redemocratização. Dominados pelos impulsos de poderosa ancestralidade política, os cearenses enfileiraram-se, com cem anos de distância, nos balcões do bipartidarismo forjado pelas alianças de famílias, de grupos ou animados pelas afinidades puramente eletivas que sempre aproximam ou separam os homens e as mulheres. Sobrevivem no espaço real da nossa vida política, com as adaptações que o tempo pede e ordena, “marretas” e “conservadores” em sua peleja conveniente contra os “democratas”; “pessedistas” e “udenistas”, “arenistas” e “emedebistas”, roupagem bem passada de coalizões históricas, entranhadas na cultura dos cearenses.

Os partidos, nesse quadro de relações consentidas e benfazejas, tomam a forma que o continente permite e deseja, e nele se amoldam, em suas semelhanças conciliadoras, mudando no que podem para continuarem, cada vez mais, os mesmos. Reproduz-se aqui o que se tem como prática regular no país. Por serem muitos os partidos, nem por isso são necessariamente plurais; ao contrário, encontram a sua singularidade na própria engrenagem de máquinas de interesses que se ajustam e se completam, aproximando-se sem que se unam. Completando-se nos ajustes que a todos permitem alcançar as rédeas do mando, opondo-se no perfunctório, mas associados no essencial das malhas do poder, litigam em público, mas celebram a conciliação na intimidade de suas patrióticas relações.