Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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Arcovírus, verba virus, a pandemia da saúde e o pandemônio verbal


 

 

 

# Vivemos numa república verbalizadora.

Muitos falam sobre o que não entendem e só escutam o que desejam ouvir.
O presidente cede a impulsos verbais e fala o que não devia, em momentos inoportunos

# Os magistrados falam nos autos e fora deles, de viva voz. Os políticos falam sobre o que não entendem e calam no essencial. Os militares refletem disciplinadamente, com alma de positivistas. A mídia fala e escreve e dá a impressão de que, por cumprir missão democrática é canal imune aos humanos tropeços. E nós buscamos ouvir o que gostaríamos que fosse realidade. E nos irritamos quando alguém ousa discordar das nossas boas intenções.

# José Bonifácio referia-se a um determinado tipo de político como “pés de chumbo”.
Adivinhemos porquê: porque grudavam-se aos seus próprios interesses, de pés acorrentados às ideias que os fizeram políticos…

# Os últimos dois presidentes, eleitos legitimamente, para mandatos consecutivos mantinham o desejo algumas vezes explicitado de convocar uma assembleia para justamente — reformar a Constituição-cidadã pouco apreciada em certos círculos do campo majoritário…

# Ou as “vivandeiras” emudeceram ou os quartéis ensurdeceram. A democracia vai sobrevivendo.

Ditadura não é solução: mudam o “script”, o cenário e os atores.
O The End é o mesmo.

# A União funcionou, sempre, no Brasil, como banco de uma clientela de inadimplentes… Fomos, sempre, uma república unitária…

# O “consórcio” de estados brasileiros seria o prenúncio do renascimento das Ligas Hanseáticas na América Latina?

Para esclarecer: As Ligas Hanseáticas eram associações de cidades, espécie de mercado comum, estratégia para enfrentar a concorrência comercial por aqueles tempos. É claro que não se aplica ao Brasil, no caso de “consórcios”, de inspiração ideológico-política. A comparação é uma ironia. As cidades hanseáticas eram cidades-Estado ricas e poderosas.
Ao “consórcio” brasileiro falta capital e convergências econômicas. Surge como um sindicato de ideias políticas provisórias …

# No Brasil, a pandemia viral transformou-se em pandemônio político.

# José Bonifácio referia-se a dom João VI como o “João burro” e a
Pedro I como Pedro Malazarte…

# Orson Welles fez escola no Brasil. Fechou o trânsito em Nova Iorque, noticiando pelo rádio a invasão da terra pelos marcianos. Sem TV!

# O “nós” foi erradicado da língua portuguesa.

Os estilistas da mídia falada e da imagem (ufa! quantos desvios para falar da mesma coisa!) condenaram o jeitão elitista do nós.

Democratizaram o pronome pessoal da primeira pessoa do plural e o transformaram naquele “a gente” indigente, criando modelo e referência: sacerdotes em suas virtuosas prédicas não deixam
sossegar o “a gente”; os políticos, por simples demagogia gramatical; os militares em ordem do dia ou em pronunciamentos patrióticos; os médicos, na tentativa de reduzir a distância com os seus pacientes; os pais que não querem parecer careta e dar mico; os comentaristas na sua faina didático-pedagógica que tanto se esforçam por nos fazer (por que não “para a gente”) entender a realidade.

Em francês, o “on” é empregado com mais temperança: “o pense que les gents sont fous…”

Outra bengala para os que falam aos ímpios nas redes de tv e nas “sociais” é a o anacoluto, aquele duplo sujeito para completar a frase que escapou ao controle do comunicador, o “ influencer”, assim: “ O presidente Bolsonaro, “ele” assinou um decreto considerando o coronavírus persona non grata em Brasília”…

Ou aquela intimidade mal educada: “O” Trump enfiou o dedo nos líderes democratas…

O povo absorve a fala, incorpora as ideias e a lógica dos modeladores midiáticos do vernáculo. E “a gente”, também.

# Uma questão recorrentemente tratada pelos caminhos da fé.
A insurreição de Lúcifer foi um descuido divino ou uma um ato consentido?

# A um leitor bondoso temendo estar lendo as postagens de um direitista matriculado:

De direita não sou, nem de esquerda. A menos que por desatenção não me tenha dado conta desse terrível desvio de caráter.

É difícil sair incólume de qualquer rotulagem política ou ideológica.

Só há um meio de não ser rotulado pelos vigilantes da suspeita – grudar um rótulo em nós mesmos.

Em outros tempos, quem não se declarava cristão e católico ardia nas fogueiras dos hereges.

Escapei da fogueira das virtudes da fé, mas não consigo escapar dos desígnios da ideologia.

O pior é que não me importo: minha consciência me garante.

Obrigado pela generosidade: continue a ler essas
descosturadas postagens.

Não são contagiosas, posso garantir-lhe.

# Ato de contrição:

De minha parte, retemperei as minhas dúvidas, apaguei as sobras mal guardadas de utopias antiquadas, apurei o ceticismo e dei asas ao senso crítico.

Desfiz-me de algumas releituras fastidiosas, experimentei novas descobertas — e dei tudo por visto e excessivamente inóquo em face de tantas revelações surpreendentes – demasiadamente humanas.

Há dois tipos de “golpes” embrionários, no Brasil.

Um que pretende destruir o governo.

Outro, destruir o Estado.

# Do direito de ser cético:

Ao contrário das ideologias, o ceticismo não se apresenta em estado puro. Há uma gradação que vai da menor intensidade a escalas superiores.

O ceticismo não implica necessariamente em isenção, abstenção ou dubiedade. Fraqueza ou conveniência. Pode, entretanto, apresentar-se nesse estado líquido intermediário entre vapor e o sólido.

O ceticismo pode assumir compleição crítica, fugindo à negação absoluta. É pouco provável, no entanto, que seja movido pelo radicalismo binário dos antagonismos que se negam e se agridem.

Não estou a louvar-me no prestígio dos grandes pensadores, tampouco na disciplina das escolas filosóficas ou das profissões de fé, que a tanto não chegam meus limitados predicados de aplicação. Falo por conta própria.

É possível, admito, que certas modulações de ceticismo dissimulem confissões de fé ou espasmos ideológicos. Quem saberia ao certo? A negação hipócrita a serviço da adesão velada.

Quem sabe seria possível nos referirmos a um ceticismo de base, armado do qual podemos ver, enxergar e formular a crítica sem marca ou rótulo de origem demarcada? A crítica largo espectro, sem escolha prévia do objeto a ser criticado? E sem compromisso?

Vale a pena inflar essa desvalida especulação.

# Estatística não se constrói por impulso político, mas com a correção dos dados coletados e sua análise competente.

# Ficar em casa ou sair para trabalhar não é uma opção ideológica: é uma questão de saúde pública, moral e econômica.

#  Os humanos dividem-se entre o emprego, o subemprego, o desemprego, o trabalho eventual, os homens de negócios — e os políticos.

# Finalmente, uma descoberta decisiva: pela sua estrutura genética o coronavírus é uma armadilha capitalista!

# O Parlamento (o que significa essa pomposa designação?) deixa caducar as Medidas Provisórias relativas ao orçamento da União e faz-se de vítima de arbítrios do Executivo.

# Os estados improvisam um “consórcio”, amplo espectro, de “novas competências”

# As estatísticas do combate ao coronavírus confundem as melhores cabeças e os números brigam entre si.

# Estamos diante de um desafio perverso: ou perdemos o controle sobre a pandemia ou o sistema federativo se desestrutura e a democracia sobra mais uma vez para a autocracia dos salvadores.Ou as duas coisas, a um só tempo.

# Usar estatísticas erradas é grave. Manipular estatísticas é crime.

 

# O que restou de uma federação tão frágil?

A fragilidade do sistema federativo brasileiro reflete os desequilíbrios que a nossa instrumentação constitucional não solucionou até hoje. Nela se projetam a débil estrutura do sistema partidário, a insegurança jurídica e descontrole da função legislativa.

O Estado brasileiro, a União, foi sempre visto pelos brasileiros como um poderoso banco ao qual os estados federativos podem recorrer em casos de inadimplência financeira. E de onde arrancar empregos e capitais políticos

Resta justamente confiar, nessa vasta crise, ao sabor do pandemônio institucional em que nos enfiaram, no bom senso e espírito público dos que se encontram no exercício de funções de representação. E na moderação e influência dos canais de informação.

O País, acostumado a contornar suas crises por força do acaso ou de negociações de interesse transitório, pode não resistir a esse enfrentamento grave.

# José Bonifácio em seus Projetos para o Brasil, reconhecia:“No Brasil, a virtude quando existe é heroica porque tem que lutar com a opinião e o governo”.

# A estatística política ganha posição de ciência no Brasil.

# Estamos provando para o mundo que a estatística não é uma ciência exata. É uma bola de cristal.

# Morrem Alfredo Garcia-Rosa, criador do detetive Espinosa, e Rubem Fonseca. Estão sendo convocados só os bons escritores?

# Não se pede demissão apenas porque o chefe não aprova os nossos projetos. Mas quando não aprovamos o que o chefe faz ou pretende fazer.

# Um executivo de caráter, por questões de consciência, não espera ser demitido,
— demite-se.

# A estatística é uma arma poderosa usada pelos governos. Uma simples mudança de metodologia pode alterar a “ordem dos fatores”…

# O erro em que incidimos está em transferir para pequenas reformas e ajustes a correção do que só a educação corrige.

# Sem consciência política e responsabilidade pública, compromisso democrático e honestidade não há reforma política que importe. A educação é o caminho para essas conquistas tardias no Brasil.

# Sem consciência política firme, o parlamentarismo, com os partidos que temos, pode terminar o que o presidencialismo de coalizão não conseguiu realizar…

# Isolamento social: prisão domiciliar, sem tornozeleiras e sem habeas corpus…

# E se a mídia reservasse espaço suficiente para as boas fake news?

# Já que a mídia demonstra tanta criatividade com a realidade, por que não reservar espaço para as boas mentiras?

# De tanto tantos mentirem a verdade passou a ser uma mentira grosseira.

 

# RESPOSTA A UM LEITOR INTEMPESTIVO

Na idade a que cheguei, apontada severamente pelo senhor, não encontramos lugar para muitas surpresas.

Os desvios trazidos pelos cacoetes ideológicos das pessoas são vistos pelos mais idosos com mais facilidade — mas nem por isso permitem que sejam tratados com indulgência. A ingenuidade justifica-se nas crianças e nos mentecaptos, mas não em adultos que se põem a expor ideias mal cozidas, puxados por viés fundamentalista.

Não sou dos que receberam a graça de o conhecer pessoalmente, penitencio-me por isso, por essa falta de merecimentos.

Vamos por partes, na tentativa de traduzir para o senso comum esse texto confuso, desarrumado e pouco educado que sufoca qualquer resto de lógica. Não sei se serei bem sucedido. Mas tentarei.

Primeiro, separemos a postagem que transcrevi dos textículos que o senhor pinçou no face, onde publico algumas coisas, cometo ironias nem sempre percebidas — e sou obrigado a ler alguns destemperos, como os seus.

Pela transcrição não mereço a sua desaprovação: se erros contém não os cometi. Concordo, entretanto, com o tom da matéria, é direito meu que ao senhor não caberá proibir.

Para sossegar as suas santas suspeitas devo confessar-lhe que não sou bolsonarianista, nem lulista, não namorei o PT, não sou de direita e não tenho relações com o centrão. Acredito na má sorte que se abateu sobre nós e o Brasil: saímos de governos populistas de deplorável extração para cairmos em um governo contraditório, vazio de ideias e carentes de projetos.

Estamos cercados pela inépcia e pelo oportunismo de políticos aos quais falta competência e compromisso, ordenhados por partidos de compadres que se alimentam da ignorância do povo e das tetas do erário.

Merecíamos coisa melhor.

Quanto à postagem reproduzida, desinteresso-me pelos seus destrambelhos retóricos.

Quanto às vinhetas que produzo, de quando em vez, quando o bom humor permite, o senhor não as leu com os olhos da inteligência: o senhor desconhece a ironia e os seus mecanismos críticos. Não vou perder tempo explicando-lhos agora: passou o tempo, deve ter perdido muitas aulas e deixado de ler o essencial que faz uma pessoa fosca capaz de ganhar inteligência. Não sei qual é a sua idade, mas há sempre tempo para recuperar o que não se alcançou antes.

Há mais o que ler e certamente mais ainda para o aborrecer nas minhas postagens. Insista em as ler…

Sim, fui reitor, não lhe cabe, entretanto, julgar-me por isso, mesmo que seja uma estratégia retórica para atacar-me por outros defeitos.

Dispenso o seu julgamento. Falta-lhe perspicácia para usar esse tipo de dialética mal servida.

Por fim, a idade. Ora, por quem sois. Não me envergonho de ter vivido até agora e de ter colhido resultados satisfatórios nas pequenas coisas que construí. A idade longeva traz coisas boas, outras muito desagradáveis, provações duras de suportar: por exemplo ter que responder a conjecturas e imprecações mal concebidas por um fundamentalista, cujo formação política rasteira está à mostra nas postagens tolas que faz neste mesmo FB.

Vou continuar a escrever essas aporrinhações, não para irritá-lo, que pouco me interessaria agradá-lo de alguma forma. Mas para abrir espaço de independência e liberdade em meio a tanta intolerância obtusa e à indigência intelectual que grassa nas redes sociais.

 

# Já convivemos, no passado, com muitas pandemias. Peste negra, espanhola, varíola, guerras, revoluções e endemias ideológicas. Saímos delas os mesmos, piores talvez. Populações inteiras colhidas pela fome, holocaustos nazistas, campos de concentração, as fogueiras da Inquisição, os gulags soviéticos — e aí estamos, firmes e fortes, mergulhados em favor do “aperfeiçoamento e da felicidade do homem”, segundo os modelos impregnados de sangue do passado…

# Isolar-se ou quebrar o isolamento para retornar ao trabalho é indicação médico-científica, estratégia econômica ou um espasmo ideológico de direita e esquerda?

# O centrão uniu-se à esquerda ou a esquerda uniu-se ao centrão?

# É de temer-se o quadro de desobediência civil.

“Desobediência civil” não é uma simples contravenção capitulada no Código Civil. É revolução, guerra civil, com o seu séquito de tragédias e barbárie. O governo, como instrumento de poder do Estado, desaparece.

Não passamos por essa experiência, felizmente, como a França, a Rússia, os Estados Unidos, Cuba. Não sabemos o que significa. Na Rússia, de fome morreram milhões com a revolução bolchevique.

Assistimos a uma situação grave no Brasil. Sem lideranças políticas confiáveis, com uma oposição solta como manada em desabalado estouro, o governo fragilizado pelas suas próprias fraquezas, a corrupção instalada, luta aberta entre os Poderes republicanos, menos por questões de ordem constitucional do que por busca de protagonismo individual — corremos sim o risco de um pandemônio político-institucional.

Todos, em nome da democracia, por indiferença ou determinação, terminaremos por chegar à tragédia de uma incontrolável desobediência civil com todas as suas sangrentas consequências.