Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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A vingança das utopias


 

 

 

“A felicidade é um ideal da imaginação e não da razão”.

Emmnuel Kant

 

Ernesto Sabato em suas reflexões sobre a resistência do homem às   próprias circunstâncias, enxergava neste ator atormentado pela angústia da incerteza, “um pobre ser con ojos que miran ansiosamente”, “una criatura que sólo sobrevive por la esperanza”. A necessidade de acreditar em explicações reveladoras que lhe trouxessem paz e segurança levaria esse bicho da terra tão pequeno, na visão camoniana, a realizar invejáveis construções intelectuais.

A esperança, espécie de bacia das almas de anseios recolhidos, fez dessa humílima criatura de Deus, um ser resignado, pronto para aceitar os pequenos acenos que a vida ou os semelhantes lançam em sua direção. E segura-se a esse salva-vidas provisório, mesmo quando mergulhado em revolta, preso às taboas das ideologias – e confia nas promessas da esperança e por ela se deixa dominar, aprisionado por esse humano paradoxo.

Com o fim das ideologias, anunciado no último quartel do século, novas utopias foram ganhando forma. Afinal, sem elas o homem não vive; tampouco, à falta delas, é capaz de sobreviver. Muitas dessas quimeras foram requentadas no esquecimento de frustrações antigas, de velhas fórmulas gastas e desfiguradas em desilusões acumuladas. Mas aí estão de regresso, servidas por velhas ideologias envergonhadas, mobilizando adesões, motivando e sensibilizando os céticos, na contracorrente de todos os vaticínios. Como em outras vezes, a esperança toma a forma de falácia apregoada por redentoristas, advento anunciado de perdidas ilusões. Entram em cena os ideais visíveis, anunciados com os enfeites das intenções profanas dos salvadores da pátria.

Na Europa velha de guerra, os surtos de autonomia regional, de nacionalismo minimalista, substituem, provisoriamente, as campanhas de expansão territorial recolhidas às entranhas da história. Na América Latina é o que se pode enxergar no horizonte das nossas desesperanças. O retorno de um populismo gasto que se julgava extinto recompõe, em nova quadra, o espectro da miséria legada às populações incultas e maltratadas deste desolado continente. As ditaduras militares, produto das oligarquias a que sempre serviram, às quais que devemos as nossas tristezas e a vergonha do nosso atraso, cederam lugar, a hora e a vez a formas autocráticas de governo que vão, aos poucos, em suaves poções assistencialistas, minando as bases republicanas do Estado, ainda que falem retoricamente em seu nome. Atrelam os sistemas constitucionais e as garantias de direito individuais, sob condições objetivas de sujeição, ao que se passou a chamar, para usar um eufemismo em moda, de “governabilidade”.

Não escaparam os Estados Unidos, divididos e cansados de guerra, no exercício da gendarmaria do mundo, da tentação que as utopias despertam em seu povo. Não lhes falta razão, aliás, para converter as inclinações que o protestantismo incutiu na alma americana – poder e glória, sucesso e riqueza – em sopros de sonhos, fantasias e quimeras acalentadas.

Pois esta foi a receita do sucesso de Barack Obama, o cavaleiro da triste figura das minorias étnicas que falava aos seus concidadãos, dizendo coisas sedutoras, assim: “somos os que estavam esperando”, “nós somos a mudança que procuramos”, “sim, nós podemos”. Nada, entretanto, que uma revisão teleológica da política americana não abrisse as portas para novas verdades e estratégias inusitadas, pela voz de uma implosão tempestuosa de um capitão da indústria imobiliária. Recompor os ideais americanos e fazer da América grande como ela fora no passado transformou-se no aceno inspirador da Era Trump.

O que está em jogo, afinal, não é o quê fazer, porém o que as pessoas sonham, a reconquista das esperanças perdidas e a certeza de que é possível mudar. O quê mudar e para quê servirá essa mudança, retirada da cornucópia das falsas esperanças, isso é outra questão que se há de ver depois. Cada coisa a seu tempo.

O mundo recupera os anseios esquecidos com a morte das utopias outrora acalentadas e resplandece com o surgimento de novas promessas consoladoras, segundo as velhas aspirações de uma esquerda que não se reconhece em si mesma e não sabe como se reinventar.

Nos recantos mais distantes, no universo periférico de dores e necessidades renovadas de povos carecidos de consciência política, explodem velhos desvios oligárquicos do passado em convergência com as ideias prosaicas de novos socialismos, à moda de casa, eivados de populismo e autoritarismo aliciadores.

Afinal, o homem é dotado de uma força que o sustenta e encoraja — a energia que as ideologias e as necessidades impostas pela fé dão calor e   impõem aos viventes. Eis aí uma contabilidade de fatores contraditórios que o futuro nos reserva.

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