Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio

A semântica, a dialética e as artes de compartilhar o bem comum / Paulo Elpídio


 

 

“A razão é sempre irracional para uma razão distinta”,

 Umberto Eco

Depois da morte da dialética, pouco sobrou de valia entre os despojos da cultura política recente dos homens. Apresso-me em explicar-me, aflito, diante das represálias que tal afirmativa poderá provocar. É que segundo confessam os mais entendidos nessas doutas questões de filosofia prática, a lógica política vigente, mesmo a que sobreviveu com os herdeiros da revelação marxista, perdeu substância e rumo, afogada no mal-entendido de palavras e significados subvertidos por impulsos semânticos incontroláveis. As intenções, de um certo sentido, perduram, batizadas como utopias, mergulhadas nas promessas adocicadas da salvação; apagaram-se, entretanto, os esteios que davam força e infundiam respeito aos argumentos e aos dogmas das humanas esperanças.

 Assim acontece com certos substantivos transformados em adjetivos pelo uso cotidiano que deles se faz. A palavra “neoliberal” parece ter sido banida do convívio familiar, da intimidade de pessoas decentes, transformada em expressão insultuosa, aplicada aos inimigos mais odiados. As palavras “esquerda” e “direita” foram recheadas de intenções, como se fazem os embutidos de suíno, vestidas por acepções e viés que podem reverenciar uma pessoa ou condená-la à execração pública. Os vocábulos “burguês” e “capitalista” e as suas engenhosas desinências e corruptelas ganharam conotações próprias, e carregam o peso de todos os pecados e infâmias e a certeza da eterna condenação.

Quem se disponha a imiscuir-se nas questões tratadas pelos agentes do governo e a sua “intelligentzia”, em vigilância permanente e obsequiosa, há que se expor  à copiosa retórica de um contraponto prenhe de certezas e verdades aceitas e ao anátema condenatório. Como ainda não é cobrado pedágio nos atos de discordância explícita, raros entre nós, aliás, afoitam-se algumas pessoas menos sensatas, como faço eu, surdo às vozes mais sensatas, por esses censuráveis caminhos da cizânia.

Tendo considerado essas graves questões da nossa topografia política, com o teodolito posto sobre esquerda, direita e centro (herança dos girondinos, “feuillants”, jacobinos e “cordeliers” da Revolução Francesa), ocorreu-me que a esquerda da direita e a direita da esquerda são o centro, o ponto “G” da serena sabedoria no qual se abrigam os partidos e os seus xamãs. O côncavo do convexo das humanas perscrutações.

Pois no Brasil aí fizeram morada a “base aliada”, os consensos e os amargos dissensos. Para felicidade nossa, esses arroubos cívicos nunca chegaram a promover crise profunda, pois a governabilidade, embora imponha seus custos operacionais, a todos une em animada cumplicidade patriótica. O Brasil e os que por aqui fincaram morada, por espontânea decisão ou capricho da sorte, sobrevivem às crises graças ao sortilégio de inspiração marcadamente peninsular. Nossas crises, os desafios que se abrem à nossa frente nunca se agravam mais do que a nossa capacidade de os evitar ou de os interromper. Como pretendia Dom João VI, nossos problemas desfazem-se desde que deles não nos ocupemos. As preocupações, segundo o nosso Príncipe Regente, faleciam na medida da nossa indiferença. Em cinco séculos de Nação e País livramo-nos de muitas ameaças e e maus presságios. O que fizemos? Ignoramo-los.

Poderíamos ser induzidos a acreditar que as queixas e amargas recriminações dirigidas ao governo pelos seus aliados e as votações contrárias ao aconselhamento das lideranças fossem sinais de crise política iminente. Ledo engano. As aparências confundem os menos avisados.

Esses derradeiros anos, que fecham mais de duas décadas, foram pródigos em ensinamentos e experiências no plano das nossas expectativas políticas. Muito aprendemos com as lições dispendidas, menos pelos mestres cantores da Academia do que pelos atores das artes da governabilidade no palco de suas interpretações. A experiência prática sobrepôs-se à teoria sofisticada produzida pelos pensadores da universidade.

Não há crise que não seja de legitimidade, aprendemos com fonte autorizada do governo, oficiais de uma engenharia política que deixaram um legado de feitos, fastos e nefastos de uma cruzada de salvação.

No mais, aprendemos a lidar com os refluxos republicanos aos quais nos acostumamos, ajustes circunstanciais, feitos entre eructações patrióticas de parlamentares abnegados, unidos pelo consenso de uma maioria que governa e compartilha o ônus cívico de nos governar, tudo dentro do mais severo viés republicano.

Uma eventual mudança das lideranças nas duas casas legislativas não deve, assim, ser vista como sinal de agravamento de dificuldades acumuladas. A insurgência de governadores à mesa do jantar coletivo pode ser um dissabor, nada, entretanto, que uma negociação não resolva e alivie os espíritos conturbados. A  insurgência de deputados contra senadores da Pátria parece tão improvável quanto a persistência de uma oposição alimentada por convicções e ideias. A partilha das prebendas lançadas aos aflitos pelos pilotos da navegação do governo impõe doses patrióticas de abnegação. Na política só há luta e embate fratricida quando os recursos políticos minguam ou são avaramente distribuídos entre aliados e inimigos. Longe de nós a má ideia de um motim capaz de comprometer a integridade do corpo místico dessa virtuosa aliança de patrióticos interesses.

Salvam-nos de uma guerra santa a abundância de meios e a generosidade com que as benesses do Estado podem ser distribuídas.