Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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À procura de madame Thebes, que nos valha Proust, para explicar o que se passa no Brasil


 

 

 

Politicamente, estamos sujeitos à terceira lei de Newton: a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto.

 

 

 

 

No fundo de nós mesmos, vai crescendo um certo cansaço cívico e moral, a perda gradual da esperança – e da paciência. Pelo isolamento a que fomos condenados, entre futricas médicas e políticas, as mesmas que libertam a imaginação, os ódios e rancores, os maus presságios e o medo, diante dessa pandemia virótica e do pandemônio que se vai armando em torno de contradições e vagas persignações de culpa e acusações.

Li, em alguns blogs e postagens, que algumas pessoas mais bem providas de meios e imaginação, recolheram-se, em fuga consentida, a lugares seguros, a salvo do assédio do coronavírus e das controvérsias terapêuticas que animam a mídia e as redes sociais.

Tornamo-nos, de repente, infectologistas aplicados, com a mesma gana que nos anima nas torcidas das partidas de futebol, dos vencedores do Oscar, dos contrapontos da política partidária e nas acirradas disputas do Big Brothers. Muitas dessas pessoas, levadas pela ansiedade  que lhes trouxeram tantas e tamanhas incertezas, recusam-se a olhar de frente a realidade criada pelos feitores dos fatos e armadores das circunstâncias – e recolhem-se ao silêncio obsequioso de quem ouve sem intenção de nada contestar ou assentir.

Há quem se recuse a entender o que lhe pretendem explicar os comentaristas de ofício, as folhas, já tão cansadas de suas próprias teorias, e os “técnicos”, os mais temidos de quantos governam os fatos, as consciências e a estatísticas. Houve quem chegasse a confessar — entre muitos, uma brilhante articulista e professora – ter decidido falar mais de filosofia do que de política. Eis aí uma decisão sensata. Dispusesse eu dos mesmos provimentos de inteligência, faria o mesmo.

De minha parte, por livre vontade, espontânea, estou a transformar-me, percebo-o com clareza,  em um ser “grincheux”, ranzinza, na intimidade, em face de uma realidade cada vez menos real do que carecíamos para uso corrente.

Umberto Eco, este sim um monumental “grincheux magnifique”, um sábio mal-humorado, podia dar-se, como se deu, a esses caprichos que trazem a imunidade do talento. Eco praticava o mau humor com método. Tudo se tornara insuportável para ele, sobretudo a imbecilidade cativante à qual se reservara  ouvido atento e generosas interpretações. Queixava-se da Itália, onde nasceu e criou raízes fortes, ironizava a Europa unida, tanto quanto desunida, investia contras as causas da crise financeira permanente, o ecologismo militante, o feminismo das amazonas combativas, o “politicamente correto”, de inspiração hipócrita herdada dos pilgrimscolonizadores, e a mídia, designação que, de tão genérica e vaga, nela tudo se confunde e se conforma. Não faltaram farpas certeiras por ele lançadas contra as incertezas da política e o intelectualismo pretensioso da intelligentsia oficial e com maior veemência, ainda, contra os intelocratas  (promoters, influencers), os que operam o marketing da verdade e do talento – os publicitários da inteligência.

Ocorreu-me, em face de tais pesares, episódio curioso narrado por biógrafos de Marcel Proust (Jean-Yves Tardié, Michel Erman, Richard Davenport-Hines). Frequentador assíduo da sociedade parisiense, Proust privou da intimidade dos principais salões da época e das suas generosas patronesses, era presença assídua aos jantares do Ritz e do Majestic dois hotéis de prestígio. Escrevia para os jornais, cultivava amizades, tirava partido da sua vida mundana, colhendo e modelando personagens dentre os convivas desses animados ágapes.

Madame Thebes, a intérprete proustiana da realidade

Nos últimos anos de vida, atormentado por doenças reais e imaginárias, recluso por tempos, retornando em seguida ao convívio dos círculos preferidos, Proust começou a desinteressar-se pelo que ouvia nessas noitadas regadas a champanhe e aos requintes culinários, e pelo que lia na imprensa, pelas notícias, pela vida literária. Acreditou que não entendia o que ouvia ou lia de fontes tão frívolas e fastidiosas. Por esse tempo tinha a seu serviço uma vidente, a célebre madame Thebes que lhe prestava valiosos serviços, o de traduzir o que ouvia e lia nas folhas para o seu entendimento.

Madame Thebes possuía qualidades reconhecidas de “clairvoyance”, de adivinhar o futuro, prever; não lhe faltavam, assim, méritos e habilidades para entender o que as pessoas diziam e adivinhar as suas íntimas intenções. E pressentir o que teriam deixado de dizer ou o que teriam dito em outras circunstâncias sobre os mesmos assuntos. Madame Thebes dispunha de recursos que prenunciavam o jornalismo investigativo inaugurado pela imprensa americana e as complexas teorias sobre a “análise do conteúdo do discurso” que fariam sucesso com Baktine, Foucault, Barthes e outras vozes percucientes… Munidos desses instrumentos agudos da percepção, Proust começou a entender aquele resto de mundo civilizado que lhe ia escapando com as enfermidades e as poucas esperanças que lhe restaram.

Já que estamos entre amigos e daqui nada transpirará, por comedida discrição ou pela falta de leitores, confesso-lhes que começo a desentender o mundo circunstante, menos pela contingências que o cercam do que pelas versões e interpretações que nos são impostas, como pessoas letradas e, cada um a seu modo, dotados de algum senso crítico. Diria melhor, como pensava Proust, aliás: não percebo mais com muita clareza o que dizem as vozes graves dos entendidos que interpretam os fatos e as circunstâncias e dão-nos as suas explicações. Tenho buscado, inutilmente, uma madame Thebes, com os atributos de uma leitora do futuro, para que transponha para a linguagem dos homens comuns (e das mulheres) o que, de fato, se passa em nossa volta.

Não tenho vocação para resistência prolongada aos exegetas de verdades transeuntes; já fui capaz disso em outros tempos – mas não me dei bem. Ainda assim, pretendo agarrar-me aos galhos que hão de me pôr a salvo da irrisão de tanta realidade construída pelos espasmos ideológicos sobreviventes.

O confinamento a que fomos trazidos pelos desequilíbrios genéticos da espécie apresenta riscos, todos o percebem. Essa prisão domiciliar, cujas causas não preveem, no caso, embargo declaratório propício, dá-nos a oportunidade de reflexão independente, com poucos ou raros interlocutores e a possibilidade de errarmos por iniciativa própria, sem intercorrências inesperadas. É o que tenho feito, a exemplo do que faziam os antigos jesuítas em suas práticas regulares de congregação. Em sorteio, escolhiam, cada um por sua vez, o santo do dia, a quem dedicariam as suas orações no decorrer da  virtuosa vigília da disciplina.

Por agora, e pelo tempo que durar essa autoflagelação regeneradora, tratarei de ser mais avisado nos pensamentos e nos impulsos, escolhendo um assunto de cada vez – e o farei com os cuidados essenciais para não consumir todo o provimento de assuntos que me andam a roçar o espírito.

“Vamos embora Aldemário”: o argumento decisivo em situação controversa

As incertezas científicas e as convicções da mídia sobre esse lamentável desvio genético a que foi dado número e código apropriado (antigamente, usava-se, com a mesma finalidade, terminologia latina, os tempos mudaram), reforçam a ideia, certamente imprecisa, de que somos um povo que não escapou ao contágio da dúvida e da hesitação, até mesmo nos momentos mais graves da sua história.

Francisco Dornelles assumira o governo do Estado do Rio, por força das traquinagens do titular de quem era vice, quando, certo dia, com o carro oficial cercado por repórteres, não teve saída, baixou o vidro da porta e, com o que lhe restava de coragem e prudência, ouviu a avalanche de perguntas, insultos, críticas e o que mais ocorre em situações como essa. Não tendo encontrado resposta para o que lhe era dito e perguntado, vira-se para o motorista e ordena:

“Vamos embora, Adelmar!”

“E agora, padre Belchior?”

Naquele dia aziago de 7 de setembro, Pedro de Bragança, príncipe herdeiro de uma coroa mal equilibrada na cabeça de um rei assediado pelas Cortes, cavalgava pelas margens de um riacho, quando lhe chega um mensageiro em trote ligeiro com correspondência do Rio de Janeiro. Uma carta de D. Leopoldina dava-lhe conta dos últimos acontecimentos de Lisboa e o incitava a tomar decisões enérgicas contra as Cortes Portuguesas. O Príncipe lê o teor da correspondência para o seu padre confessor, Padre Belchior, rasga os documentos cheio de revolta e vira-se para o velho sacerdote:

“E agora padre Belchior?”

“Está tudo sob controle. Só não se sabe de quem”

Temos ministro da saúde! Em outros tempos, nada mais trivial, demitir um ministro de Estado.

Jarbas Passarinho, presidente do Senado, no governo João Figueiredo, assediado por um grupo de reitores para explicar porque o governo demitira o ministro Eduardo Portella, da educação, explicou com argumentos linguísticos indiscutíveis: “Qualquer ministro é nomeado em português, mas poderá ser demitido em latim, ad nutum”. Resposta objetiva que não admitia contraposições.

Concluída essa grave e complexa operação, realizada no bom e velho português da literatura burocrática, concluiu-se um ciclo interminável de contradições, ameaças e muxoxos. Batas e uniformes, pipetas, decretos e assíduos comentários da mídia especializada em coronavírus, digladiando-se publicamente deram o tom do combate patriótico ao Covid-19.

Os pais da Pátria e os  representantes parlamentares a brandir leis e regulamentos, regimentos internos e a Constituição, e as Cortes a espreitar o primeiro tropeço constitucional a ser prontamente corrigido. Estava assente: por inconstitucionalidade não morreria ninguém no Brasil

Pois bem, dobrada essa página agitada da história, afastados os riscos de qualquer incerteza jurídica, supunha-se que a paz voltara ao seio de Abraão.

Como país, estamos sujeitos, entretanto, à terceira lei de Newton aplicada à política e ao exercício do poder: a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto. Na física, esta lei descreve um fenômeno incontestável. Na política, assinala grave ruptura da sociedade política, a fragilização das instituições, o aprofundamento das divisões ideológicas, a fratura do estado de direito, e a quebra do modelo republicano de governo. Agravam as tendências binárias de um maniqueísmo que cresce e toma corpo – e provocam, por fim, o desastre a desagregação da federação.

Nessa sequência, ainda que não sigam a mesma ordem, ganham força as condições perfeitas que fortalecem as formas mais radicais de populismo, atrás das quais se dissimulam as tendências autoritárias de democracias assim auto-nominadas e de governos populares.

As declarações do vice-presidente Hamílton Mourão resumem um capcioso enigma e os maus presságios, as dúvidas e as incertezas que transparecem  e transbordam do quadro político brasileiro atual:

“Está tudo sob controle. Só não se sabe de quem”.

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