Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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A mídia transgressora: há vida inteligente nas redes sociais


 

 

O maior inconveniente da liberdade de opinião — e da democracia — é que as pessoas que têm opinião não aceitam que outras pessoas tenham opinião diferente.

 

Não são poucas as teorizações feitas sobre as redes sociais. Muitas trazem a autoria respeitável de pensadores e as suas reflexões sobre um fenômeno surpreendente: a expansão da comunicação à margem dos canais formais por onde correm as ideias e as notícias e constroem-se as versões de todas as realidades.

A Internet pode comparar-se à criação da imprensa e à utilização dos tipos móveis, pelas mãos de artesãos aplicados, a exemplo de Gutenberg. A engenhosidade dos homens iria repetir-se, séculos depois, com o broadcast, a voz democratizada pelo espaço graças a obra criativa de Marconi. Até alcançar a televisão, mediante a propagação da imagem e do som pelas ondas eletromagnéticas da imagem. Tecnologia à parte, com todos os seus sortilégios e científicas presunções, a mensagem transmitida ressalta o conteúdo social pelo qual foram impregnados os “meios”; ou melhor, a essência do que as fontes produzem até chegar ao receptor, paciente e decifrador do seu significado ou pelas mãos de quem o faça.

As “redes sociais não são criação nova, tampouco recente. Já existiam nas academias gregas, mediante a reprodução oral do conhecimento da época entre mestres e discípulos, pela repetição e o diálogo inter pares. Por aquele tempo a memória ocupava, ainda, o monopólio da transferência do conhecimento.

A atividade dos “colporteurs”, na França da Idade Média, identificava os portadores das histórias populares, da notícia dos fatos e boatos, como instrumentos úteis dos insubmissos à força do Estado. Os “aedos”e “rapsodos”, celebrantes em lugares públicos dos feitos dos heróis e deuses e do poder imperial da “cité”, espalhavam os cantos e o refrão de uma contraditória tradição narrativa.

Às vésperas da Revolução, lá estavam as “redes sociais” a serviço das inquietações políticas que trouxeram o povo para as ruas de Paris, portadoras da palavra insurreta dos sans-coulottes  impressas em folhas que eram coladas às paredes ou circulavam mão a mão.

E o que são as “redes sociais”, hoje, senão escoadouro alternativo de uma realidade reconstruída fora dos canais formais de comunicação? Não há porque pedir a Umberto Eco, MacLuhan, Barthes e a vozes que se reproduziram à sua sombra, para podermos entender o processo dessa “transmissão” de mensagens, desordenado e anárquico. A observação simplória dos desprovidos de ciência e do conforto da fé, assim como nós, explica  o suficiente para clarear a nossa percepção.

De uma perspectiva notadamente política, pode-se concluir que, salvo melhor e mais acendrado juízo, as redes sociais “quebraram” o monopólio da notícia e da veiculação da versão “unitária” e “unívoca”, por vezes “financiada”, da verdade. O seu advento e a expansão por ela alcançada em nossos dias não trouxeram, entretanto, exatidão à percepção dos fatos, muito menos a insuspeição dos mecanismos da sua veiculação. Tampouco ampliaram a pluralidade de visões honestas dos fatos e de suas  circunstâncias. Porém, retiraram dos canais formais de informação da enorme força de que se valeram, por tanto tempo, em estreita associação com os mecanismos do poder político do Estado e os interesses do governo.

Não se espere, entretanto, que seja esquecido o quanto as redes sociais contribuíram para a difusão das falsas informações e de ideias mutiladas pelas ideologias, e tornaram-se instrumento de distorção da realidade e dos fatos. Não terá sido novidade, há de se reconhecer.

A imprensa, o rádio e a televisão, todos os meios modernos de comunicação, enfim, subordinados a uma classificação genérica de “mídias” já obravam, a seu modo, em favor de uma adequada “construção” da verdade.

Nada do que se está a afirmar pretende esconder ou minimizar o papel relevante que a veiculação da informação — pela mídia —  desfruta em uma sociedade democrática. A questão não pode ser levada para termos tão elementares quanto redutores; pelo menos não é o que se trata de desenvolver aqui. Não  foi intenção medir a extensão e a intensidade da fidelidade aos ideais e pressupostos de liberdade e democracia que moldaram o papel da “imprensa”, da mídia, em amplo espectro, no Brasil, por exemplo.

O problema de maior significação em relação às redes sociais é que elas podem ser contidas ou amestradas por qualquer forma de convencimento – mas não todas elas. Pela simples evidência da velocidade com que se criam plataformas pelos espaços infinitos da Internet.

As redes sociais se expandem, como na biologia, por cissiparidade, em um processo que os entendidos chamam de citocinese, gerada pelos interesses, confissões ideológicas ou de fé. Crescem, não obstante, com a mesma velocidade, pelos impulsos individuais, alguns deles impelidos por pura vaidade; outros, pelas carências afetivas, ou levados pelos ímpetos dos “apedrejadores” — os contestadores armados de imprecações, sem causa nem ideologia. Servem, também , e não apenas a tão pouco, à ação do marketing político ou comercial, da qual se transformam em agentes publicitários eficientes.

O que mais choca aos puristas da língua, entretanto, é a agressão que sofre, nas redes sociais, demolidoras, o nosso velho e elegante idioma, destruição sistemática do estilo e da estrutura do vernáculo, engenharia precária do  desmonte de uma forma “burguesa” e “antiquada” de expressão, em favor de ampla, geral e irrestrita “democratização” da língua portuguesa. Por tais pecados, aliás, não se culpe apenas as redes sociais. A mídia stricto sensu não fica a dever na prática irrecorrível de seus textos impressos e da oralidade dos seus apresentadores e comentaristas.

As redes sociais fogem, entretanto, a essa imagem paradigmática que lhe foi aplicada pelos especialistas dos mistérios da informação. Os seus espaços abrigam notáveis fontes de produção acadêmica, de “publicações” literárias e culturais, centros de referência científica e, como não poderia deixar de ser, sitese blogs honestos e competentes. Muitos deles — e não são poucos — sobrevivem à margem do mecenato público, distantes da sedução ideológica, e respiram com decência o ar da sua independência e da sua liberdade. São estes os lados inovadores e “revolucionários” da nova mídia social. Por essa razão incomoda mais, pois o silêncio da unanimidade é atributo que muito agrada a quem se move pelos quadrantes do poder do Estado.

Aparentemente, os agentes do Estado, atores do governo e figuras de prol no cenário do poder e das suas instituições, não se incomodam com os riscos eventuais que a “grande mídia” lhes possa trazer. Tratam-na como prudência e cordialidade, à moda da “síndrome de Estocolmo” (estado psicológico de quem, submetido a um tempo prolongado de intimidação passa a ter simpatia pelo seu agressor). As críticas que possam receber são mediadas, em casos semelhantes, por complexa rede de relações pouco ortodoxas, mas, em geral, cabais e decisivas.

Não se deve, naturalmente, desconsiderar o elevado espírito dos nossos homens públicos, tementes a Deus e respeitadores da democracia. O que faz com que todos ou a maioria dentre eles externem as suas íntimas inclinações democráticas e republicanas e o afã de defender as liberdades cidadãs.

O mal-estar, comum nessas circunstâncias, mostra-se mais exacerbado, pelo que se vê, com as liberdades usurpadas pelas redes sociais e de tal modo se insinua entre a alta burocracia e os homens das leis que não poucos entre eles cuidaram com toda a sua ciência jurídica de pôr limites a essas relaxações cívicas. Pelo viés dos legisladores, exercitam-se alguns parlamentares na composição de regras e normas suscetíveis de impedir os excessos de pensamento e palavras pelos desvãos da Internet, precisamente pelas redes, a seu olhos, artefatos de inspiração social suspeita. Por outras vias, em planos mais elevados e distintos, onde a ratio juris projeta a sua luz, homens de muita ciência estudam as infringências cometidas pelos navegadores das redes sociais e de como os fazer temer o braço longo da lei.

De tudo o quanto se disse até agora e do que pensam os leitores incautos que tenham deitado a vista sobre essas imprecações cidadãs, perdura a dúvida sobre a natureza da opinião e as atribulações  trazidas por ela, quando expostas sem providencial autocensura, esse sim o caroço do engasgo que molesta a sensibilidade apurada de tantos democratas.

Opiniões que tenham todos, desde, naturalmente, modus in rebus, atenham-se aos limites dos bons costumes – e da verdade celebrada e consagrada pelos homens bons.

Afinal, o maior inconveniente da liberdade de opinião (e da democracia) é que as pessoas de má índole não se acanham de pretender pensar diferente de nós.

Com todo o respeito pelos leitores de boa fé que chegaram até aqui, devo afirmar que o texto deste blog é da minha inteira responsabilidade