Trocando em Miúdo

por Paulo Elpídio
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A intolerância organizada


 

 

 

Os prélios de risco e a interposição da inteligência domesticada

 

 

 

Atribuem-se às esquerdas integristas e, agora, mais recentemente, às direitas vingadoras, animadas por militantes e milicianos de todo o gênero, as causas mais próximas  do autoritarismo crescente pelo qual se deixou aprisionar, nestes últimos tempos, a sociedade brasileira.  Como se vivêramos, por todo o nosso rico passado patrioticamente celebrado ou pelo esquecimento das lembranças por ele legadas no seio de relações de pacífica e exemplar tolerância. A percepção da ruptura do aparente equilíbrio de convivência social e política teria se ampliado   com a radicalização crescente, no Brasil,  a partir dos anos 30, na esteira de eventos mundiais cujas consequências se fazem ainda hoje sentir.

A imagem mítica do “brasileiro cordial”,  reflexo das  virtudes essenciais de hospitalidade e generosidade, seduziu a muitos  e transformou-se em “forma  natural e viva que se houvesse convertido  em fórmula”,  como  diria Sérgio Buarque de Holanda (“O Homem Cordial”, Companhia das Letras/Penguin, São Paulo, 2012, pp. 51/53). A imagem animada no espelho das nossas íntimas revelações pouco ou nada traria do travo que marca as maneiras do nosso convívio social, “justamente, o contrário da polidez” que nos habituamos celebrar, com algum orgulho mal contido.

Ribeiro Couto iniciou a controvérsia que sobreviveu até hoje sobre as virtudes inerentes ao “espírito hospitaleiro” do brasileiro, dominado por uma certa “credulidade”, e não cedeu à interpretação contraposta por Sérgio Buarque de Holanda, para quem, no brasileiro, a  “inimizade bem pode ser tão cordial  como a amizade”. Alfonso Rey (“El hombre cordial produto americano”, in “Epistolário de Monterrey”), seduzira Ribeiro Couto, jovem e promissor poeta de talento, a curvar-se a essas maneiras da convivialidade literária, bem ao gosto das pessoas cultivadas, no Rio de Janeiro daqueles tempos, afeiçoadas a influências francesas, na leitura e  nos modos elegantes do vestir de uma elite que pretendíamos se apresentasse como  a “nossa” elite.

Não foi levado em conta na construção desse quadro familiar a cordialidade dissimulada do brasileiro, a forma de convivência que permite que as relações familiares “continuem o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós”. Daí a nossa dificuldade, segundo SBH (op. cit. pp. 145/147), para compreendermos os limites e a “distinção fundamental entre as instâncias públicas e privadas”. Sobretudo entre o Estado e a família, o sagrado e o profano. O que é de César e o que a Deus pertence.

Aparecem os intelectuais e o poder das suas ideias como categoria social: os intelocratas, a intelocracia  e a cultura institucionalizada.

A persistirmos nessa animadora discussão pela confrontação dos contrários, dificilmente alcançaríamos o seu final ou algum sinal de anuência racional entre os apaixonados verbalizadores, herança genuína de nossa retórica ancestral. Nem com arrimo na lógica ou no bom senso, muito menos, ainda, pela persuasão dos espíritos recalcitrantes, movida pelo convencimento da força — derradeiro recurso dialético,  para dirimir altercações — dissiparíamos tantas dúvidas e calaríamos as derradeiras objeções.

Os querelantes intelectuais armaram-se, por último, de instrumentos de combate que nem um duelo de espadas levaria a bom termo, trágico ou envergonhado, em qualquer disputa entre espíritos conspícuos… A dialética, o contraditório lógico ou ideológico, quando não jurídico, não permitiriam que os litigantes se pusessem de acordo, ou, na impossibilidade desse gesto de polidez, abandonassem a força dos argumentos pelos argumentos objetivos de outras modalidades de indução, como seriam, a exemplo dos exorcismos exemplares  pela flagelação da carne.

Chegamos, assim, nesses prélios cheios de riscos, aos extremos da intolerância organizada e sistemática. A rejeição por palavras e intenções  de tudo aquilo que nos desagrada e aos outros pode trazer fortuna e alegria.

Que nos valha, antes de mais nada, nestes fluentes exercícios retóricos, o  olhar retrospectivo sobre o “intelectual” como categoria social e política, sugerida por Georges Clemenceau (um dos principais atores da III Republica francesa, jornalista e escritor, chamado de “O Tigre”, líder destacado da esquerda).

Os ideais e valores associados à liberdade e à justiça constituíam para Clemenceau, atributos do “intelectual”, cuja imagem se firmara, ao tempo, nos embates abertos em torno do julgamento de Dreyfuss. O termo “intelectual” se aplicava a “personagens de ideias, de estudo e criadores”, categorias formais nas quais poucos dos nossos contemporâneos se incluiriam.

Criou-se assim uma classe de combatentes aguerridos providos dos dotes da inteligência e do saber, portadores dos atributos da “criatividade”, categoria vasta e abrangente na qual passaram a abrigar-se os ungidos pelas luzes em seus círculos privativos, por eleição preferencial. As diligentes criaturas fizeram ninho à sombra das forças políticas organizadas em partidos, coladas ao poder da burocracia do Estado, das legiões dos homens das corporações da fé e, naturalmente, dos cidadãos armados por Mercúrio. Poucos conseguiam exercitar os seus saberes e os dotes que lhes couberam fora desse círculo de poderes concêntricos.

Ao fenômeno da intelectualização da vida pública e de suas consequências, boas ou más, o Brasil não escaparia. Essa tendência segue duas vertentes, assim ocorreu na França e em outros centros ocidentais de expressão. A da “institucionalização” da cultura, associada às “bulas” regulatórias, na medida em que o sistema intelectual gira em torno das estratégias políticas de Estado (financiamento de edições, programas de premiação de obras e de seus autores). Uma cultura de Estado, em suma. De outra parte, uma forma de intelocracia, que se alimenta nas fontes do Estado, as quais podem ser generosas em função de afinidades negociadas, mas é capaz de desenvolver espírito crítico quando lhes faltam as oportunidades esperadas. A condição de intelocratas, assim chamada na França nos anos 1980, flutua sobre o rastro  de governos de esquerda e de direita, e reflete a força de uma categoria social nova – dotada de poder intelectual, ideológico ou não, à sombra dos governos ou em liça com os detentores do poder público.

A reprodução dos intelectuais europeus nas gazetas do Brasil,  faculdades e profissões liberais

No Brasil, a classe, “armada” de ciência e boa fé, não mostraria a sua cara senão quando a República começou a tropeçar nas suas próprias fragilidades. Não decorreria, entretanto, muito tempo para que esses sucessos se fizessem por merecer respeito.

À medida da lenta perda de poder das oligarquias e dos poderes locais, tão lenta que, até hoje, não desapareceram do palco das nossas reiteradas esperanças, surgiram os “doutores”, os literatos e os homens ilustrados – e os cenáculos e sodalícios nos quais essas inteligências se reproduziam e manifestavam.

A imprensa despertou muitas vocações pelas redações, em ligação estreita e bem sucedida, no mais das vezes, com os círculos políticos de prestígio, na oposição ou no governo. Por esse tempo valiam os estudos religiosos e as faculdades, de onde provinham advogados, médicos, clérigos e militares, matéria prima para a modelagem dos “nossos” intelectuais.

Apareceram, assim, os novos cavaleiros da inteligência. A República das Letras brasileira não se construiu de um dia para o outro. Levou algum tempo para que se aviasse razoável assimilação dos ensinamentos sorvidos fora do Brasil, nas fontes consagradas do conhecimento da época.

Os séculos das revoluções, como os via Hobsbawn, despejaram anseios novos nos jovens doutores, desmentiram as certezas das surradas sebentas coimbrãs – tomadas como metáfora dos saberes formais fixados pelos costumes e pelas sagradas injunções da Fé —  e encorajaram as revisões incontornáveis de entendimentos gastos pelo uso e velhos conceitos impostos pelas regras.

Os movimentos políticos internacionalistas não se restringiriam, como podemos lembrar, ao campo da política, tampouco se limitaram às estratégias dos Estados no plano da diplomacia e dos litígios armados. A filosofia abriu caminhos novos nas suas buscas e persignações de inteligência. Os primeiros missionários da globalização nasceram nas comunidades de conhecimento e nos redutos religiosos — e ganharam o mundo a aliciar adeptos à luz da revelação  e a convencer os recalcitrantes, obsequiosamente,  nas chamas da fogueira das vaidades. As guerras religiosas, as grandes navegações e o aparecimento do Estado colonial, a revolução de 1789 e as de 1917 com suas incertezas e frágeis instrumentos de condução revolucionária, mais as guerras europeias internas e, finalmente, as duas grandes guerras “mundiais” escancararam as porteiras das fronteiras nacionais – e os saberes se fizeram compartilhados, com o despertar do senso crítico, alheios aos ditames dos dogmas e das restrições normativas. Os caminhos estavam abertos, e bem abertos, para os novos paradoxos da inteligência, uma equação espirituosa que muitas teorias tentaram explicar e, para tanto, criados métodos e teorias, para desaguarem, finalmente, nas certezas das ideologias. Uma forma original de associar a dialética das coisas e ideias contrárias a um consenso obediente e às imposições da burocracia ideológico-partidária.

O Brasil não escaparia ao assédio desrespeitoso praticado pelas criaturas ímpias e suas ideias carecidas de apreço – e pôs-se a pensar, sabe Deus como, mas pensando, ainda que fosse em outras línguas para, finalmente, começar a pensar em “brasileiro”. Foi aí que nos achamos gente capaz de pensar e  inventar coisas, ao contrário do que imaginavam os nossos colonizadores.

A pluralidade de oportunidades abertas à curiosidade intelectual dos naturais da terra, já feitos brasileiros, encheria essas jovens cabeças irrefletidas de provocações que, dia mais dia menos, levariam à ruptura das antigas convicções. Foram-se as sobras dos bens de raiz de uma sociedade que, apesar de tudo, sobreviveria até estes dias, testemunhados por nós e a nosso modo, segundo nossa índole.

Do machado de sílex, do bacamarte aos prélios alimentados pelos princípios, doutrinas e vagas ideias sobre coisas igualmente vagas

Já acertado, como se viu, entre Ribeiro Couto, Cassiano Ricardo e Sérgio Buarque de Holanda, que éramos, sociologicamente, muito pouco cordiais, entendida essa aparente cordialidade “pela lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade…”, era de prever o quanto essa presunção iria abalar de tantas certezas cultivadas. Sugere SBH que “seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneira’, civilidade […]” . E completa: “Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez”. (op. cit. pp. 146-147). Afinal, teria dito SBH – frase que lhe é atribuída – que o brasileiro não é manso, nem intrinsecamente bom, “cordial de coração e mauzinho ou mauzão”.

Pois não seria diferente. De 1917 para cá, o mundo, letrado ou não, mergulhou em profundas inquietações existenciais, como testemunharão a fortuna da psiquiatria e os exploradores dos territórios recônditos da alma e dos seus complexos circuitos interiores.  Os anseios por grandes transformações políticas e sociais, os arroubos e arrebatamentos, humanos insuportavelmente humanos, ganharam energia com   utopias simpáticas  e revelações irretorquíveis.

O recolhimento dos agentes mais prestigiados dos escalões da fé  libertaria os homens e as mulheres para as aventuras de sedutoras verdades, ainda que provisórias.  Toda essa profusão de impulsos encorajados por uma   retórica  aliciadora anunciava novos tempos de muita liberdade prometida e o seu compartilhamento por todos e cada um, segundo as suas necessidades e merecimentos. Instrumentos analíticos se multiplicaram, o aparelhamento ideológico começou a tomar forma, já que Deus se descurara de seus haveres terrenos e de suas ovelhas tangidas pelos novos apascentadores.

Comunismo, bolchevismo e menchevismo, a sutileza estratégica dos sovietes, as reformas no campo, pela imensidão siberiana, a percepção rarefeita da existência de povo, aqui e lá tudo eram virtudes anunciadas, somadas às promessas  jeffersonianas da democracia na Filadélfia. A civilização ocidental banhava-se nas águas de novos tempos apenas pressentidos. Fascismo, nazismo, socialismo, socialdemocracia, populismo e todos os filósofos nascidos no vasto período de estratificação das novas ideias moldaram esse mundo novo, provavelmente novo em excesso – pós-moderno, diriam os mais aplicados –, no qual mergulhamos todos. E fomos assim levados, menos por livre escolha do que pelas contingências e circunstâncias. Somados aos vaticínios e condenações aos quais  não se podem furtar os emigrantes do Paraíso, prometeus decaídos como  nós, “bichos da terra tão pequenos”, apontados por Guerra Junqueiro, e deixados aqui, expostos à sanha dos abutres, das revelações  e do encanto de ideias ilusórias.

Por fim, o tropicalismo antropofágico político-cultural

Construímos, aqui, em versão tropicalista alegre, a nossa versão das ideologias correntes e recorrentes, algumas por inteiro, outras em migalhas, ideologias, assim mesmo. Exercitamos os recursos da lógica, sem os pendores inatos dos revolucionários de carteirinha do velho continente, e chegamos, por esforço próprio, às nossas contradições. Levantamos as bandeiras desenroladas pelos reconstrutores das velhas sociedades  nas monarquias europeias. E nos dispusemos a assediar as defesas plantadas aqui pelos colonos de passagem. Teríamos, certamente, alcançado algum resultado, não fossem as armadilhas da sorte e uma certa dúvida e as hesitações sobre o que pretendíamos reformar – e como.

Vieram as esquerdas e, em seguida, à sombra dos seus pequenos tropeços e deslizes ideológicos de uma práxis para lá de teórica, as direitas fizeram sua entrada triunfal.

Comunismo foi, sempre, comunismo, trade mark internacional, desde que fugiu às incertezas do socialismo e de suas variantes.

O  fascismo recebeu, aqui, em pia batismal  a designação de “integralismo” Ganhou suástica própria, com design acanhado, admitamos, entre tantas possibilidades de escolha. O “sigma”, a décima oitava letra do alfabeto grego, entrou nas bandeiras e na cabeça de jovens recrutas com alma de missionários. Perdura, até hoje, entretanto, a dúvida do real significado desse “integralismo”. Aplicação integral de uma doutrina ou sistema, revelariam os dicionários. O indivíduo como única realidade social e a sociedade, como única realidade, entidades inseparáveis, segundo os exercícios espirituais dos “integralistas”.

Pois transcorrido tanto tempo – tempo de pensar, amadurecer e colher – aqui nos encontramos sem passado no qual valha a pena mirar-nos, diante de um presente provisório  e em face de um futuro que, mais uma vez, vai chegar tardiamente até nós. Dizíamos com visível orgulho cívico que éramos o “país do futuro”. E o fazíamos com o orgulho do  desconhecimento do passado como preferem, aliás,  os brasileiros – desprezando-o em troca dos ganhos da modernidade e das ilusões do populismo. Deixamo-nos dominar por mil formas de culturalismo extraído de tradições improvisadas pelos que não têm história e não pretendem tê-la que não seja outra senão aquela que se constrói com os instrumentos de velhos dogmas teóricos, gastos, porém sedutores.

O cenário não mudou significativamente, ao longo desses noventa anos neorrepublicanos, começados em 1930. Se mudanças ocorreram não estariam distantes do radicalismo que transitou da oposição para a situação, das ideologias de esquerda para uma preocupante sintomatologia de direita. Em defesa da liberdade e da democracia, buscam-se fórmulas autoritárias de governo ou a fragilização das instituições republicanas, estratégias para o alcance desses desígnios.

Dividimo-nos em nossos anseios cidadãos em grupos heterodoxos – dos radicais de toda ordem; dos oportunistas flutuantes, os “companheiros de estrada”; dos indiferentes; e dos inquilinos do Estado, dependentes intratáveis das benesses do poder.

E o que resta dessas hesitações, fica amarrado às nossas perplexidades, como se nos  encontrássemos diante da sinalização de uma  estrada de grande movimento: “Para entrar à direita, vire à esquerda”. Ou vice-versa.

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