Transtorno de Personalidade Marxista, tragédia na Venezuela e Zumbis, por Catarina Rochamonte

"O curso desse transtorno costuma ser crônico e persistente; às vezes dura por toda a vida. Até o momento, desconhece-se uma forma específica de cura".


Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

O socialismo é um sistema político pernicioso sob todos os pontos de vista. É economicamente inviável devido à prática do centralismo e do dirigismo econômico que manieta a interação espontânea entre consumidores e engessa a capacidade criativa e ativa do empreendedor. É filosoficamente insustentável, paradoxal e imoral ao pretender radicalizar o exercício de poder para, enfim, assegurar a justiça, como se a justiça pudesse ser corrompida para só depois ser alcançada sob a forma de equidade material entre todas as criaturas; e é factualmente falho, pois seu resultado é a condenação à miséria da parcela da humanidade que foi submetida a esse nefasto experimento social. O povo da Venezuela é atualmente o que mais sofre as consequências desse desvario teórico nunca eficazmente debelado.

O que faz, porém, com que o discurso socialista tenha uma aderência mínima a despeito dos máximos desastres que sempre provoca? O apelo do discurso demagógico, populista, mentiroso e irresponsável que o propaga. Não adianta, portanto, limitar a questão a um debate no âmbito econômico, tentando provar que o planejamento central é ineficaz. É preciso que nos apressemos em destrinçar a linguagem manipulada, denunciando sempre o uso equivocado, para fins políticos, de determinadas palavras. Ou começamos a revirar o discurso deles, expondo suas falácias, ou ficaremos presos às suas teias de argumentações cheias de sofismas.

Com o mesmo despudor de sempre, incansável no seu ofício de defender o que é nefasto, o Partido dos Trabalhadores, divulgou – nesse delicado momento político da convulsionada Venezuela – mais uma nota de apoio ao ditador Nicolás Maduro. Esse apoio, ainda que explícito, vem floreado de indigestos chavões ideológicos repetidos a torto e a direito pelos sites de extrema esquerda e pelos militantes, que só posso ter na conta de maus-caracteres, covardes ou ignorantes.

Diz a famigerada nota que “o Partido dos Trabalhadores condena a recente tentativa de golpe na Venezuela, levada a cabo pela oposição da direita golpista e antichavista.” Na sequência, chama a ditadura de “governo democraticamente eleito”, afirma descaradamente que a tentativa de “golpe” fracassou porque o governo tem um claro apoio popular devido às “políticas voltadas ao bem-estar da população e contrárias à exploração imperialista e das elites locais”, exorta ao diálogo e à necessidade de que se leve “em consideração a vontade expressa no voto popular”, afirma que a “solução dos problemas venezuelanos passa por levantar o embargo econômico internacional de que o país e, principalmente, sua população, são vítimas” e – atingindo os cumes do cinismo e da desfaçatez – conclui afirmando que a “paz na Venezuela é uma luta de todas e todos os democratas latino-americanos e do mundo.”

Essa nota é mentirosa, falaciosa, fantasiosa, maledicente e hipócrita do início ao fim. O mínimo que se pode dizer de quem adere a um discurso semelhante a esse é que não tem pela verdade qualquer anelo, zelo ou respeito. Na semana passada, todos assistimos à fortíssima cena em que um tanque blindado da Guarda Nacional Bolivariana avança sobre os manifestantes, atropelando-os. No dia seguinte, os jornais nos davam a conhecer a infeliz declaração do ex-presidente do Uruguai, José Mujica, ao ser questionado sobre o que achava da cena. Respondeu o “bom velhinho” que “”No hay que ponerse delante de la tanqueta [não deviam entrar na frente do blindado]”. Para ironizar um pouco e tentar, com isso, denunciar a hipocrisia daquilo que seria cômico se não fosse trágico, postei na minha rede social a foto do atropelamento com o seguinte o comentário: “Momento em que a extrema direita golpista, antichavista e a serviço do imperialismo norte-americano atropela um blindado da Guarda Nacional que estava pacificamente nas ruas de Caracas, defendendo a democracia da Venezuela. O companheiro do Uruguai, José Mujica, já declarou sua solidariedade ao tanque.”

A manipulação discursiva que desavergonhadamente faz determinadas palavras serem usadas em um contexto no qual seu referente é o exato oposto do que o conceito realmente significa, a distorção aberrante dos fatos e a negação reiterada da realidade são tão sintomáticas nessa nota do PT, no modus operandi e no discurso da esquerda em geral, que deveriam começar a ser analisadas como um tipo especial de Transtorno de Personalidade, como sugere o meu colega de redes sociais, o médico e psiquiatra forense aposentado Rubens Mazzini Rodrigues.

Mazzine sugere para essa patologia o nome de Transtorno de Personalidade Marxista e estabelece para ela os seguintes critérios de diagnóstico:

  1. a) Visão delirante da realidade e rejeição total a qualquer argumento que se oponha a ela.
  2. b) Tendência a promover ódio entre classes sociais e entre diferentes raças ou denominações religiosas, ao mesmo tempo em que se acusa os adversários políticos daquilo que a pessoa mesma pratica.
  3. c) Hábito de culpar um grupo social específico de todos os males da sociedade. Podem ser as “elites”, a burguesia, os judeus, os empresários, os Estados Unidos, os neoliberais etc. Não importa quem ou o quê, desde que possa servir de bode expiatório.
  4. d) Tendência a distorcer os fatos de todas as formas, de modo a se encaixarem na sua bitolada concepção da realidade, mesmo que, para isso, seja necessário apelar para mentiras e falsificações de toda ordem.
  5. e) Crença de que tudo é válido para defender suas crenças (suas causas), inclusive o roubo, a corrupção, o homicídio, a mentira, o terrorismo, a promoção da desordem, o aparelhamento das instituições, etc.
  6. f) Senso obstinado de que seus líderes estão acima da lei e da ordem.
  7. g) Mudanças súbitas no curso do pensamento que podem levar a sucessivas mudanças de posição, a qual pode, por sua vez, ser completamente oposta à defendida em momentos anteriores. A mudança, porém, não se deve a uma tentativa de aproximação da verdade, mas à necessidade de adequar as circunstâncias ao objetivo maior de hegemonia e poder.
  8. h) Comportamento obstinado e persistente, mesmo diante de evidências incontestáveis da falência de seus métodos e crenças.
  9. i) Tendência a se associar a outros portadores do mesmo transtorno com o objetivo de obter controle absoluto sobre a vida e os direitos dos que divergem dos seus pontos de vista.

O curso desse transtorno costuma ser crônico e persistente; às vezes dura por toda a vida. Até o momento, desconhece-se uma forma específica de cura, embora haja relatos de remissões espontâneas pelos mais diversos fatores, que podem variar da simples saída da universidade (ambiente com maior incidência do caso)  a movimentos mais complexos, como a leitura de obras como “O caminho da servidão”, de Friedrich Hayek, ou movimentos ainda mais sutis, como a conversão à fé cristã, que se faz acompanhar de um repúdio imediato às teorias materialistas e imorais que antes embasavam a reflexão e a conduta do indivíduo transtornado.

Além dos efeitos devastadores sobre o psiquismo do indivíduo acometido de TPM (Transtorno de Personalidade Marxista), essa patologia tem amplos efeitos sociais, podendo ser tida na conta de uma grave pandemia. No caso da Venezuela, por exemplo – cujo ditador é um sequelado incurável que foi contaminado diretamente pelo seu antecessor Hugo Chávez (que Maduro diz lhe aparecer no mausoléu na forma de um passarinho) – a recusa da esquerda em reconhecer o caráter ditatorial e perverso do regime está resultando em aproximadamente 8.200 pessoas assassinadas em três anos (segundo Anistia Internacional), centenas de prisões arbitrárias e casos de tortura (segundo Human Right Watch), aumento de 75% na mortalidade infantil em cinco anos (segundo Unicef), colapso absoluto do sistema de saúde, propagação de doenças que podem ser prevenidas por vacinação (como sarampo e difteria), surto de doenças infecciosas (como malária e tuberculose), previsão de inflação de 10.000.000% e de 44,3% da população sem emprego (segundo FMI), um êxodo de mais de dois milhões e meio de venezuelanos nos últimos dois anos (segundo a ONU) e mais de 7 milhões de pessoas necessitadas de ajuda humanitária urgente que, quando enviada, foi impedida de chegar ao seu destino.

Diante desse quadro, os sequelados pelo Transtorno de Personalidade Marxista – muito semelhantes a “zumbis” cujos cérebros foram comidos – vão da negação delirante da realidade (sintoma “a”) à acusação sistemática de um inimigo imaginário que sirva de bode expiatório (sintoma “c”). Assim, os Estados Unidos passam a ser o responsável direto pelo colapso absoluto da economia da Venezuela, embora as tais sanções contra as quais eles berram tenham começado recentemente e estejam restritas ao congelamento de ativos de membros da alta hierarquia do governo e à proibição de compra, pelos americanos, de títulos do Tesouro Venezuelano ou de títulos emitidos pela sua estatal petrolífera.

Brincadeiras à parte, há denúncias gravíssimas – devidamente documentadas – acerca da relação da ditadura bolivariana com o narcotráfico, com armas nucleares e com o terrorismo. Tudo isso está exposto, com base em milhares de páginas de documentos, pelo jornalista investigativo Leonardo Coutinho, no seu livro Hugo Chávez, o espectro , que descreve “como o presidente venezuelano alimentou o narcotráfico, financiou o terrorismo e promoveu a desordem global”. A investigação e a pesquisa documental expostas nesse livro demonstram que “a destruição da Venezuela é apenas a face mais evidente de uma intrincada rede de organizações políticas e criminosas que foram criadas ou alimentadas por Hugo Chávez como parte de seu sonho de reengenharia global”. Esse projeto foi herdado e piorado por Nicolás Maduro que conduziu o país a “um colapso econômico e institucional sem precedentes”. E foi financiado pelo Brasil durante os governos petistas.

Diante dessa realidade ominosa, a Venezuela luta para se libertar e tenta chamar a comunidade internacional à responsabilidade de efetivar esse processo. A coordenadora Nacional da Vente Venezuela, Maria Corina Machado, foi enfática e explícita, em entrevista publicada no dia 07/05/2019 , quanto à necessidade de intervenção estrangeira na Venezuela. A ex-deputada desabafou questionando: “é claro que há apenas uma opção, que os militares não vão ceder até que haja uma força externa para contrariar o Estado criminoso. O que está faltando?” e complementa na sequência: “a responsabilidade cabe à comunidade internacional, e essa comunidade deve definir como vai fazer isso. É genocídio em câmera lenta. É uma política deliberada”.

O presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, já afirmou que avalia pedir aos Estados Unidos uma intervenção militar. Eu, particularmente, sou a favor de que se tire Maduro do poder à força e não acho que a hipótese de intervenção possa ou deva ser descartada. Já afirmei isso em artigo anterior e voltei a afirmar recentemente em um debate do qual participei na Radio O POVO CBN. Devido a esse posicionamento, fui acusada pelo meu interlocutor no referido debate de finalmente ‘deixar cair a minha máscara’ e ‘colocar as minhas cartas na mesa’. Ele concluiu o debate nesse tom, acusando-me de “um discurso bélico, guerreiro, intervencionista, que quer criar um Vietnã na América Latina”.

Ora, eu já escrevi artigo dizendo exatamente aquilo que ele me acusou de querer esconder: que, de antemão, não sou contra a intervenção estrangeira na Venezuela. Portanto, não há máscara. Máscara quem usa é a esquerda que, hipocritamente, dá chiliques e tem convulsões quando se fala em intervenção americana e/ou brasileira. Berram logo algo acerca da soberania e da não ingerência, como se o Brasil governado pelo PT não tivesse se imiscuído de maneira criminosa nos assuntos desse país vizinho, seja na forma de empréstimos bilionários via BNDES, seja enviando marqueteiro (pago com dinheiro roubado dos brasileiros) para fazer campanha, seja fazendo manobras escusas para tirar o Paraguai do Mercosul e fazer entrar a Venezuela. Ou seja, a esquerda apoia a ingerência para financiar e sustentar o regime genocida, mas condena a ingerência cujo objetivo é ajudar o povo desarmado a se libertar do jugo da tirania.

O argumento da não intervenção é o argumento da autodeterminação. Várias vezes o meu interlocutor repetiu que cabia ao povo venezuelano resolver sua situação, ao que eu replicava sempre que esse povo está tentando desesperadamente fazer isso e que já apresentou várias soluções democráticas, todas elas rejeitadas pelo ditador. A esquerda latino-americana criou o totalitarismo venezuelano e agora quer lavar as mãos, dizendo: “virem-se”. A extrema esquerda brasileira tem sangue venezuelano inocente nas mãos e continua hipocritamente afirmando que não são os Estados Unidos ou o Brasil que devem resolver a “crise política”, mas sim os venezuelanos desarmados, famélicos, esgotados, desnutridos e massacrados.

A autoproclamação de Juan Guaidó como presidente interino é legítima, constitucional, democrática, republicana e internacionalmente reconhecida como tal, mas a esquerda surtada, os “zumbis descerebrados” como Gleisi Hoffmann, Humberto Costa, Paulo Pimenta, Monica Valente (que assinam a abjeta nota do PT)  falam em “direita golpista e antichavista” quando nem de direita e muito menos golpista a oposição venezuelana é.

Friso novamente as palavras da ex-deputada Maria Corina: “É genocídio em câmera lenta. É uma política deliberada” e encerro essas reflexões com algumas perguntas: o povo alemão sob Hitler tinha autodeterminação? O povo russo sob Stálin tinha autodeterminação? O povo chinês sob  Mao Tsé-Tung tinha autodeterminação? O povo cambojano sob Pol Pot tinha autodeterminação? Os norte-coreanos sob Kim-Jong-Un têm autodeterminação? Tampouco a tem, nesse sentido, o povo venezuelano. É um povo de coragem, que está em luta e clama por ajuda. Se você não pode ajudar, pelo menos não seja mais um “zumbi”.