Tempo, espaço, Fortaleza. Por Angela Barros Leal


Mucuripe. Foto: Divulgação

Quando minha mãe vivia, eu costumava pegá-la na casa dela, próxima a um cruzamento movimentado da Aldeota, e nos preparávamos para um passeio. Era importante exercitar a memória dela e dobrávamos à direita, na direção do mar. O roteiro era quase sempre o mesmo. Seguíamos pela avenida Dom Luís e descíamos a rua Tibúrcio Cavalcante, voltando depois pelos caminhos do Mucuripe.

Passávamos diante das inexistentes residências das famílias Macedo e Ribeiro, da família holandesa de quem nossos irmãos menores ficaram amigos, as casas hoje sepultadas das famílias Memória, Pinheiro, Farias, dos nossos parentes Moreira de Azevedo, Castro Alves, Fernandes de Melo.

O Clube Líbano era aqui, mamãe. Essa quadra inteira do lado direito de quem desce a rua, frente para o poente, o clube da nossa infância, que fazia parte do nosso dia a dia, lembra? Ela não esquecera do Líbano, mas não conseguia entender qual a relação do clube com aquele conjunto maciço de prédios, voltados para todos os pontos cardeais.

O muro era baixo na extensão da fachada, justo orgulho de quem queria exibir o esplendor da arquitetura, a leve ascensão pelo piso, inclinado até alcançar os degraus que levavam à luxuosa entrada, os espelhos brilhando lá dentro, do chão ao teto, o lustre imponente, a escadaria de mármore como aquelas que conhecíamos de filmes, o terraço descoberto, debruçado sobre a piscina que nós vimos ser construída, e cujos fragmentos de azulejos hoje repousam soterrados, como ruínas de civilizações primitivas.

Os muros laterais, na rua Silva Jatahy, não ofereciam a mesma acessibilidade. Eram montanhas de um desfiladeiro por onde passávamos a caminho da missa na capelinha de Santa Filomena, terço, missal e véu dentro da bolsa, combinando com os sapatos. Eram muralhas escarpadas, precaução da zelosa diretoria contra os invasores das festas, num tempo em que esse era o maior perigo, lembra? Ela dizia que sim, e recordávamos juntas esse espaço de passado.

Muitas vezes, víamos descer pela calçada da Tibúrcio Cavalcante diminutos cortejos escoltando caixões de anjo, pintados de azul clarinho, os acompanhantes pedindo licença para arrancar um galho de flores roxas do pé de buganvília, uma rosa daquelas que se lançavam para fora das grades, um punhado de papoulas que iam certamente murchar no sol quente, a caminho do cemitério, diante da Igreja da Saúde.

Passava o vendedor de peixe com sua carga de cavala, cioba, garoupa, peixes imensos, boquiabertos na surpresa da morte, pendurados pela cauda na vara que ele carregava sobre os ombros, lembra? Que passava o vendedor de galinhas, presas pelos pés, batendo inutilmente as asas? E o menino vendendo pirulito, a tábua de madeira perfurada pelos doces pontudos, quase sempre derretidos de volta ao mel do qual haviam sido feitos, e que faziam nossos dentes grudarem uns nos outros, para desespero dos pais, a ameaçar encontros com a broca manual do dentista? Minha mãe sorria.

E que vinham os pedintes, expulsos do interior pelas secas infindas, figuras bíblicas em farrapos e barbas brancas, esmolando pelo amor de Deus, pedindo o de-comer, a caridade de um copo d’água, agradecendo com uma profusão de bênçãos, na dignidade sagrada de celebrantes?

Aqui, do lado do sol, era a casa onde moramos no passado, por mais de vinte anos, aqui na esquina, lembra? Minha mãe se recusava a acreditar. O que ela vê é um apart-hotel com nome em inglês, quem disse que ela havia morado aqui?

A casa era protegida por um muro que seguia em declive, acompanhando a ladeira suave que levava ao mar. Na frente da casa, o pé de castanhola, imponente, as folhas formando círculos em diferentes alturas; os pés de algaroba, tão modestos, onde os pássaros faziam ninho. Aqui era a varanda, revestida em pedra rosada de corte desigual, o piso em desenho geométrico de cubos, claros e escuros, que vistos de longe compunham estrelas e, se olhados de bem perto, como fazem as crianças deitadas no chão, assumiam o porte tridimensional das escadarias em um desenho de Escher (a quem, é claro, desconhecíamos).

Aqui à esquerda as janelas dos quartos dos meninos, ali atrás a garagem, os quatro degraus que levavam ao gabinete de estudo. Do lado direito o cajueiro, a entrada da cozinha, o janelão da copa onde tomávamos café com pão e manteiga na hora da merenda e bebíamos água do filtro, com gosto de barro e de chuva, lembra de tudo isso?

De casa descíamos para a praia do Meireles, atravessando duas ruas sem movimento, para ver de perto os estragos causados pelas ressacas de janeiro, derrubando coqueiros, encurvando o tronco do resistente e solitário cajueiro, lambendo a beirada do muro da Vila Johnson, levando em vingança as casinhas dos pescadores, antecipando a missão das futuras construtoras.

De casa, descíamos para as ondas mansas e areia macia, nos dias agitados de julho, para o cheiro de óleo de bronzear, de férias, de suor e de maresia em nosso Verão eterno, para olhar curiosos a pesca de arrasto, as redes trazendo alimento das profundezas do mar, daqui, de onde o trânsito hoje se arrasta e se enrosca, emaranhado em um nó cego de freios e buzinas, de onde dez mil pessoas repisam nossas lembranças, dez mil janelas se abrem para a linha do horizonte, e de onde eu por fim fazia a curva, para os lados do Mucuripe, levando minha mãe de volta à casa dela, deixando para trás esse pedaço de Fortaleza que ainda persiste, de alguma forma, na memória de quem insiste em preservar.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.