Série: mortos, feridos e vencedores das eleições de 2022 no Ceará e no Brasil

O caso Tasso Jereissati: para muitos derrotados, resta a aposentadoria. Para outros, reerguer-se só com um profundo e severo exercício de humildade. Aos vitoriosos, um aviso: toda glória é efêmera


cerco de Szigetvár, de Johann Peter Krafft: óleo sobre tela, 455 x 645. O conde Nikola Šubić Zrinski, (vice-rei) da Croácia, e seus homens, heróicos defensores do castelo de Szigetvár. A pintura foi encomendada pela corte de Viena e atualmente está na Galeria Nacional Húngara, em Budapeste.

Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

Como toda guerra política, as eleições gerais de 2022 fez suas vítimas. Algumas, fatais e para todo o sempre. Outras, terminaram o processo gravemente feridas. Há gente na UTI, em coma político. Há outras cuja derrota foi um duro e pedagógico aprendizado.

Como diria Wiston Churchill, um dos maiores protagonistas da política mundial da era moderna, “a política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes”.

Sim, o premier que comandou a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial sabia bem o que dizia. Um profundo conhecedor da História, escritor, jornalista, Churchill experimentou pessoalmente o amargor das mais intensas derrotas e o doce sabor de incríveis vitórias.

Para cada derrotado deprimido pelo julgamento popular, há um vitorioso que mereceu o reconhecimento do seu povo.

Na guerra política e eleitoral, há também as vitórias e derrotas no campo da institucionalidade e dos ideais de democracia.

Para muitos derrotados de agora, só resta a aposentadoria. Para outros, a possibilidade de reerguer-se só se concretizará com um doloroso e severo exercício de humildade.

Triunfo de Tito e Vespasiano, por Giulio Romano,1537-1540, Museu do Louvre

Para os vitoriosos, principalmente os que ganharam a batalha já no primeiro turno (na verdade, a guerra política nunca termina), um ensinamento dos tempos do Império Romano: Sic transit gloria mundi (toda glória no mundo é transitória).

Vencedor, o general, vestido de púrpura e a coroa de louros na cabeça, entrava em Roma em uma biga dourada puxada por quatro belos cavalos brancos. Diante dele, os valiosos despojos dos vencidos, que passava a ser a riqueza de Roma. O poder, a aristocracia e o povo romano o recebia com festas, pompas e louvores.

Na biga, postado atrás do general aclamado como um Deus, um escravo a murmurar repetidamente: “Toda glória é efêmera! Toda glória é efêmera!”

Coroação de Celestino V , o único papa a ser coroado duas vezes

A frase latina Sic transit gloria mundi também fez parte de uma tradição católica até 1963, durante as coroações papais. Recém-escolhido, o novo papa partia da Basílica de São Pedro em procissão, que parava três vezes. Nesses momentos, o mestre de cerimônias se ajoelhava diante do novo líder da Igreja e, em voz alta, dizia três vezes: “Sancte Pater, sic transit gloria mundi!” (Santo Padre, assim passa a glória mundana!)

Pois é. Na sequência (aleatória) ainda no rescaldo da apuração dos votos, que representa tanto a guilhotina quanto a coroação, apresentarei a cada dia a lista comentada dos derrotados e vitoriosos do dia 02 de outubro de 2022, a sexta eleição geral brasileira do século 21.

Trata-se de uma abordagem a ser feita com a devida parcimônia, mas com a necessária clareza. Em política, como sabemos muito bem, o derrotado de hoje pode ser o vitorioso da próxima eleição. E vice-versa.

O “galeguim dos zói azul” vacina uma criança em 1987: foi o Governo que inciou o cinclo político que se encerra em 31 de dezembro de 2022.

Dia 07 de outubro
Derrrotado
Tasso Jereissati: o mais importante político do Ceará entre o fim do século 20 e a primera década do século 21, Tasso chega ao fim de sua carreira política com derrotas. O ex-governador aposenta-se da política e das disputas eleitorais no dia 31 de dezembro de 2022, 38 anos após ter vencido a eleição para o Governo do Ceará em 1986.

No poder, iniciou um modelo de gestão que rompeu com a tradição política reinante até então, estabelecendo um novo ciclo marcado pela racionalidade com a introdução do conceito de eficiência na gestão pública. Seu legado define o Ceará até hoje.

Sua saída da política marca o fim de um ciclo. O conjunto da obra o faz um vitorioso. Três mandatos de governador. Dois de senador. Articulador importante da vitória de FHC em 1994. Porém, seus últimos movimentos na disputa do Ceará foram desastrosos inclusive para seu partido, o PSDB, que elegeu apenas um deputado estadual e sem nenhuma ligação com o PSDB histórico do Ceará.

Na disputa do Ceará, Tasso resolveu subir no palanque de Roberto Cláudio, mas sem emprestar ao candidato o próprio partido, engolfado em disputas internas e judiciais com seu suplente no Senado, Chiquinho Feitosa. O apoio de Tasso a RC representou apenas um valor simbólico de uma era politicamente gloriosa que ficou no passado e já não tinha nenhuma força eleitoral.

Melancolicamente, ao fim de seu mandato de senador, Tasso se reuniu a RC cuja candidatura foi bancada por Ciro Gomes, o seu fiel escudeiro e apadrinhado do fim da década de 1980. Ciro é o próximo capítulo dessa História.

Dia 06 de outubro
Vencedora (por enquanto)
A Democracia brasileira: O país caminha para o seu mais longo período de liberdades democráticas desde a instauração da República, em 1891. A ditadura militar chegou ao fim em 1984 com a ascenção, ironicamente sem o voto popular, de Tancredo Neves e José Sarney para a Presidência da República. Tancredo morreu antes de assumir. O poder caiu nas mãos de Sarney, um politico que ajudou a ditadura, mas que no exercício do poder manteve-se firme nos própósitos da nova República que ali se erguia. Portanto, já se vão 38 anos de democracia que, como também dizia Churchill, é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais.

Vencedora
As urnas eletrônicas: Sim, após constantes tentativas de desmoralizar o mais moderno, eficiente e seguro sistema de votação e contagem de votos do mundo, os resultados reinaram incontestes. E assim deverão permanecer no segundo turno e nas eleições vindouras.

Na sequência deste texto nos dias que se seguem, trataremos de pessoas físicas e partidos políticos. No Ceará e no Brasil. Inclua-se na lista políticos que nem sequer disputaram as eleições, mas terminaram fragorosamente derrotados.

 

 

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.