Sem fôlego. Por Angela Barros Leal


Pintura “O Grito”, do norueguês Edvard Munch, 1893. Foto: Divulgação/Google

O elevador desce, chega à garagem no subsolo. E não abre a porta para deixar sair seu passageiro. Ou sua passageira, no caso, eu. Pelo que recordo de rápidas informações prestadas pela síndica do prédio, há uma incompatibilidade mecânica entre as portas antigas, comemorando mais de três décadas de puxa-e-empurra, e a silenciosa porta automática da nova caixa, colocada há um ano, nem sempre sincronizada ao movimento manual das portas externas.

Uma caixa. Uma caixa fechada. Isso é o que penso agora, dentro de um elevador que não está cumprindo seu papel. E fato é que o pânico se instalou em mim, naquele fragmento de segundo em que a porta automática se recolheu, como esperado, em que empurrei a porta mecânica para sair, e em que percebi que ela não abria.

A memória primal dos servos egípcios, abandonados dentro das pirâmides para fazer companhia a seus faraós na travessia eterna, ressurge na parcela genética do meu (in)consciente coletivo. Coração acelerado, tiro da bolsa o telefone celular e ligo para a portaria. Inútil. Não há sinal nessa área subterrânea, onde o poder dos satélites não consegue penetrar.

As paredes da cabine reluzem em brilhos de aço escovado, de ferro, de alumínio, o que quer que seja: não tenho conhecimento nem interesse suficientes para tentar esclarecer. Há riscos e amassados em sua superfície, as rugas naturais do uso intenso de um elevador de serviço, responsável por transportar o conteúdo de reformas e mudanças. Aqui e ali há grosseiras inscrições rupestres, de produção moderna, que prefiro ignorar.

Pressiono o botão amarelo de alarme, indicado por um sino amarelo vivo. Estranhamente, penso que as novas gerações jamais foram apresentadas a um sino de verdade, mas cá está ele, resistindo como ícone de chamamento e atenção. O que escuto é um zumbido rouco, de zangões rondando a colmeia. Pressiono com insistência, mais e mais vezes. Nada acontece. O porteiro está muitos metros acima de mim, na saudosa superfície terrestre, enchendo os pulmões com o ar livre enquanto eu ofego nesse ar encapsulado.

Ninguém jamais morreu preso no elevador de um prédio multifamiliar, que dispõe apenas de dois desses equipamentos para todos os moradores, tento racionalizar, empurrando para o fundo da mente aqueles casos excepcionais que constituem o enredo dos filmes de terror. Em breve, alguém vai estranhar esse elevador imóvel e reclamar com o porteiro.

Continuo a bater na porta e a pressionar o botão de alarme. Tenho a impressão que muitas horas se passaram. Impressão essa desmentida pelo relógio do celular: mais ou menos 48 segundos. Controlo a respiração tentando lembrar das aulas de ciências, alguma coisa referente à troca de oxigênio e gás carbônico, e me parece que não é mais oxigênio que me chega aos pulmões. A cabine é inviolável, impenetrável, diria mesmo imexível – não fosse a quase real sensação de um movimento lento, estreitando as paredes.

Vêm à minha mente romances oitocentistas, ambientados nas mansões inglesas imersas em brumas, tratando dos emparedados, dos sepultados vivos – aliás, quase sempre mulheres. Meço com os olhos meu túmulo reluzente: no piso, três filas de três peças pequenas de cerâmica, totalizando nove. Pouco mais de 1 metro por 1 metro, calculo.

Escuto pancadas em uma porta, muitos andares acima. Certamente algum vizinho impaciente com a demora. Olho para o teto iluminado do elevador como se enxergasse nele asas de anjos, mensageiros de boas novas. E a salvação chega por fim, na voz tranquilizadora do porteiro com suas chaves secretas, abrindo a porta manual. A experiência toda deve ter durado entre 5 minutos e uma eternidade.

Não percebo as emanações de combustível dos carros, estacionados no subsolo. Não sinto o calor nem a escuridão da garagem. Estou de volta ao mundo dos vivos, que nunca me pareceu tão belo. E pressinto o que irá acontecer. Até o final do dia vou esquecer do susto, pronta para espalmar os dedos no centro do peito e responder, tão falsamente, a quem me perguntar sobre medos urbanos (dois homens em uma moto, apagão, inundação, arrastão…): Medo de elevador? Mas que coisa tão antiquada!

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.