Roberto Cláudio: O candidato e a candidatura

Em novo artigo, o articulista Ricardo Alcântara aponta que RC tem as melhores características como candidato e político, no entanto as circunstâncias de sua candidatura podem atrapalhar a trajetória do pedetista.


RC tem experiência de embates eleitorais e uma boa performance em sua expressão geral. Tem as manhas.

Por Ricardo Alcânatara*
O candidato do PDT, Roberto Cláudio, conta a seu favor com um diferencial estratégico substantivo: é, como ele mesmo tem dito, o único candidato com selo “testado e aprovado”. Como executivo de governo – no caso, em uma grande e complexa cidade – saiu com uma avaliação notável. Acrescente à receita outro ingrediente relevantemente positivo: tem experiência de embates eleitorais e uma boa performance em sua expressão geral. Tem as manhas.

Mas o candidato – eis o seu problema – é melhor do que a candidatura. Explico: se é fato o que disse um pensador (“eu sou eu mais as minhas circunstâncias”), as circunstâncias políticas de sua indicação, como alicerce para o arrimo de sua pretensão, são mais estreitas do que a dimensão de sua boa obra como gestor.

Este artigo poderia recorrer a fundamentação mais abstrata, com base no processo fraticida que conduziu à sua escolha, mas nem é necessário gastar todo esse latim: basta observar o noticiário político recente e nele constatar os efeitos desagregadores da imposição de seu nome – mal disfarçada por uma pesquisa eleitoral de conveniência e uma votação de cartas marcadas.

Um temporal de pautas negativas desabou sobre o telhado de sua candidatura no curso dos últimos dez dias, a saber:

– As declarações de Ivo Gomes, favoráveis
à indicação de Izolda Cela.
– A ausência de Cid Gomes na convenção partidária
– A desfiliação da governadora do PDT e seus maus prenúncios.
– A dificuldade, comezinha, de encontrar nomes que componham a chapa.
– A demissão de aliados seus da máquina do governo.
– A adesão em cascata de prefeitos de sua base à candidatura de Elmano.
– Por fim, a situação estacionária da candidatura presidencial de seu tutor, Ciro Gomes, nas pesquisas divulgadas na última semana.

A fase kármica do muito bem avaliado ex-prefeito de Fortaleza atingirá seu nível máximo de desgastes neste sábado, 30, quando o líder de maior prestígio popular do país virá à convenção dos seus ex-aliados para levantar, diante das câmeras atentas da mídia e das equipes de marketing eleitoral, o braço de Elmano de Freitas e dizer: “Este aqui é o meu candidato a governador aqui no Ceará”. Ceará, diga-se, que a ele confere hoje 56% de intenções de votos contra apenas 13% do candidato do PDT.

Como dizia nessas ocasiões com sua ironia beneditina o vice-presidente de Fernando Henrique, o liberal conservador Marco Maciel: “O problema das consequências é que elas só vêm depois”. Pois bem: as do candidato do PDT não demoraram tanto a chegar, e de tal modo que se pode dizer: o maior adversário do bom candidato Roberto Cláudio são as más circunstâncias de sua candidatura.

Grosso modo, se poderia dizer que apareceu um treinador, metido a gênio e autoritário, e colocou um Garrincha para jogar de zagueiro – metáfora que bons entendedores decifrarão facilmente.

Nota do editor: os pontos de vista assinados por colabordores não refletem necessariamente o pensamento do Focus.jor, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

*Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.