Religião e Política, por Rui Martinho


Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A argumentação política amparada no apelo ao sagrado é objeto de análises no âmbito das ciências humanas. O islã vive um intenso processo de politização. Católicos se dividem quanto a indisfarçável politização expressa pela Teologia da Libertação (TL). Protestantes têm a Teologia da Missão Integral (TMI) em tudo semelhante a TL. Francisco, falando desde o Vaticano, adota posições políticas sem hesitação. A cultura ocidental estava se secularizando desde o Renascimento, processo acentuado pelo Iluminismo. A presunção de certeza científica, negando o sobrenatural, era o arrimo desta tendência e de uma proposta de reengenharia social e antropológica. “Sábios” propunham um mundo melhor, nos termos da velha tradição da sofocracia platônica.

A crítica sofisticada, feita por intelectuais altamente qualificados, como John Locke (1632 – 1704); Edmundo Burke (1729 – 1797); Karl Raymond Popper (1902 – 1994); Michael Michael Oakeshott (1901 – 1990); Isaiah Berlim (1909 – 1997), entre outros, mostrando a inconsistência teórica da reengenharia aludida, não sensibilizou os intelectuais nem alcançou o povo. A postura messiânica, aparentando virtude e sabedoria, é irresistível, verdadeiro ópio dos intelectuais, como diria Raymond Aron (1905 – 1983), referindo-se especificamente ao marxismo com a frase aplicável aos “progressista” em geral. Intelectuais ungidos, conforme designação de Thomas Sowell (1930 – vivo), são maioria e se opõem aos críticos do messianismo secular que se oculta sob as vestes do laicismo.

O caráter religioso, conforme o entendimento de Thomas F. O’Dea (1915 – ?), tem como fatores constitutivos radicalidade, transcendência e totalidade, todos presentes na suposta cientificidade iluminista, pós-iluminista e afins, corrobora com a tese segundo a qual a religiosidade é inafastável da política. Reis e imperadores fizeram-se deuses, teocracias cujos reis eram ungidos por profetas, do que é exemplo Israel antigo, e reis por direito divino eram abertas associações das religiões com a política. Teóricos com status de profetas; revisão de teoria com o sentido de heresia designada como “revisionismo” tentam camuflar o caráter religioso persistente.

O Estado laico é uma tese originária do protestantismo. O seu objetivo era obter permissão para um culto diverso daquele seguido pelo imperador do que restava do Sacro Império Romano-Germânico. Não pretendia que os seguidores das diversas igrejas renunciassem ao exercício da cidadania ou abandonassem as suas convicções ao agir politicamente. A revanche do sagrado foi impulsionada pelo fracasso das experiências do messianismo político e social. A divulgação da vida pessoal desmoralizadora dos intelectuais, na era da informação, fragilizou o proselitismo nas universidades, na imprensa tradicional, na indústria cultural e de entretenimento, como no campo editorial. As redes sociais quebraram o monopólio da desinformação. Houve o resgate do senso comum. O argumento de autoridade dos intelectuais claudicou. A narrativa do messianismo progressista foi abalada. A politização dos diversos ramos do cristianismo pela TL e a TMI abriram a porta para o movimento contrário, dos conservadores.

Quem defendia a politização das religiões, favorecendo a TL e a TMI, agora se escandaliza com a politização conservadora das igrejas ou com práticas políticas orientadas por argumentos religiosos. Há quem fale em ameaça de teocratização, embora não haja, no Brasil, homogeneidade política em nenhuma igreja. A presença de evangélicos no Congresso é proporcionalmente menor do que a parcela destes na população, o que significaria subrepresentação, se considerássemos a religião na hora de analisar a representatividade do Congresso.

As religiões eclesiásticas se inclinaram para a política. A política sempre instrumentalizou a religiosidade, como o fez com o direito divino dos reis. O progressismo assimilou o espírito das religiões políticas. A revanche do sagrado promoveu a politização das religiões eclesiásticas (TL e TMI) e injetou religiosidade na política. A ideia de exercer papel político e de ocupar espaços no meio artístico, nas mídias, no governo, na economia, na educação e de enfrentar o debate ideológico ínsito na revolução dos costumes, nas famílias e nas igrejas, conforme a doutrina dos 7 montes, é uma verdadeira réplica do pensamento gramsciano (com o sinal trocado), com a teoria da ocupação de espaços na forma de guerra de posições. Isso feito pelo messianismo secular não escandaliza, só quando é promovido pelas religiões eclesiásticas. Muitos são os problemas ligados a estas ralidades. Mas não são eles que estão alarmando os “esclarecidos”. Que todos desinformem, façam proselitismo, cada um vendendo o seu peixe e desmascarando o embuste do outro. Assim é a democracia.