Rede hoteleira na Beira Mar: Efeito dominó. Por Jayme Leitão

“Fortaleza não terá turismo de lazer de bom poder aquisitivo. Este público não se interessa pelo Beco da Poeira à beira-mar”.


Calçadão da Beira Mar nas décadas de 1970-80 projetado pela equipe de arquitetos concursados da Prefeitura. Foto: Gentil Barreira.

Há um natural e compreensível debate instalado sobre a questão da visível decadência da rede hoteleira da Beira Mar de Fortaleza, abordando a questão da venda de hotéis para empreendimentos imobiliários.

Percebe-se aí uma clara dificuldade de enxergar, até por conta do constrangimento político dos agentes públicos, que a culpa é basicamente da prefeitura, em várias administrações ao longo dos últimos 20 ou 30 anos, ao comprometer a nossa orla com a permissividade à gradual ocupação da praia, fenômeno único em termos de Brasil.

O resultado é um turismo classe C, que implica numa diária média extremamente baixa, e que não permite sequer pagar o IPTU altíssimo cobrado pela… prefeitura!

Por que não começar o debate dispensando hotéis e clubes do pagamento de IPTU, o que não foi feito nem mesmo durante a pandemia, quando os hotéis estavam fechados, amargando um tremendo prejuízo operacional?

Não, é sempre mais fácil procurar um culpado exógeno, e que na verdade não é o agente causador, mas a solução…

Fortaleza não terá mais um turismo de lazer de bom poder aquisitivo, pelo simples fato de que este público não se interessa pelo nosso Beco da Poeira à beira mar, e continuará indo diretamente do Pinto Martins para as nossas praias, que continuarão atraindo cada vez mais grandes investimentos em hotelaria para esse público, com diária média várias vezes superior aos hotéis da Beira Mar, hoje restritos ao padrão CVC, concorrendo com a locação de apartamentos por aplicativo.

O problema não está na verticalização dos edifícios, o que é positivo em áreas com infraestrutura implantada, mas na permissividade da gestão do espaço público, nas calçadas ocupadas pelos carros, no “paisagismo” que corta árvores e transplanta carnaúbas mortas, num mercado de 710 boxes erguidos sobre a praia (que praia?), na festa de sonegação do gigantesco Beco da Poeira da José Avelino, na construção de um sem número de casinhas de concreto e pastilha que já não permitem sequer ver o mar… Qual a surpresa, afinal?

Esse processo vai continuar, de forma absolutamente inexorável. O turismo de alto padrão claramente saiu de Fortaleza e foi para as nossas praias. Por que? Porque não cuidamos do espaço público, não plantamos árvores em passeios largos, não fizemos um Centro de Convenções no Poço da Draga, o que permitiria um turismo com maior poder de compra, optando pela construção equivocada de um pavilhão de feiras na Av. Washington Soares, muito mais adequado a uma cidade industrial – o que não é o caso de Fortaleza – e por um Aquário que simplesmente não tem solução…

E pior do que tudo isso: deixamos que o serviço público – aí incluindo os órgãos de planejamento urbano – fosse corroído por uma política absurda de terceirização indiscriminada de mão de obra de engenheiros, advogados, médicos, arquitetos, formados sabe-se lá aonde (se é que são!), que estão ali para permitir a assinatura de contratos bilionários, para dizer sim a tudo, para sobreviver enquanto não aparece coisa melhor (já que percebem apenas uma fração de seu custo aos cofres públicos), para sacudir bandeiras em eleições e participar de carreatas compulsórias, sem a menor noção do que estão fazendo ali, sem qualquer memória do que foi feito de bom antes (lembram da Beira Mar dos anos 70 e 80, projetada pelos urbanistas concursados do IPLAM, com um custo umas dez vezes menor?

Basta ver a foto desse artigo, de autoria do Gentil Barreira…), enfim sem a menor possibilidade de dizer não ao populismo de políticos que resolveram lotear o nosso espaço público à custa dos impostos e distribuir os ‘pontos comerciais’ aos seus cabos eleitorais…

Afinal, qual é mesmo a surpresa? Me perdoem a sinceridade: entendo que o público leigo tenha dificuldade em enxergar o quadro – esse deve ser o papel da imprensa esclarecida, e que sempre acompanhou de perto os caminhos e descaminhos da nossa política e de suas consequências desastrosas na administração pública e no espaço urbano de nossa cidade…

Puro efeito dominó!

Jayme Leitão é arquiteto e empresário da construção civil.