Raízes no Brasil. Por Angela Barros Leal


Não se desenraiza uma velha árvore, me diz um brasileiro idoso, chegado há menos de um ano em Lisboa. Estávamos conversando por uns dez minutos quando ele me veio com essa frase. Não que fosse inédita para mim: já a escutara muitas décadas antes, quando eu ainda não sabia, na pele, o que era ser também uma dessas árvores.

Viera trazido pelo filho, que se mudara para cá na busca por mais oportunidades, ele afirma. Eu não podia ficar sozinho no Rio de Janeiro, constata, balançando a cabeça branca, respirando fundo os ares invernais de Lisboa. Por mais que resistisse, sabia ser preciso dar adeus à sua Copacabana, seu Rio de Janeiro, seu Brasil.

Como uma velha árvore fadada a um improvável transplante, extraíra do chão as antigas raízes e acompanhara o filho na aventura de um mundo novo. Os amigos, que rareavam, ficaram para trás. Tudo o que possuía, os frutos de uma vida há tantos anos plantada, tudo coube em uma única mala. 

Repartimos um banco de metal no Parque Eduardo VII. Daqui se avista o Tejo, o casario, algumas das sete enevoadas colinas lisboetas. Bem próximo estacionam imensos ônibus de turismo. Têm dois andares, são vermelhos ou amarelos, e como uma manada de vagarosos elefantes em marcha, chegam em organizada fila. 

Tenho 82 anos, prossegue ele diante do meu interesse em ouvi-lo, e não me falta saúde, graças a Deus. Foi justamente a boa saúde dele que facilitou ao filho essa arriscada decisão. Com tudo isso, não se desenraiza uma velha árvore, repete, as duas mãos ossudas sustentando um joelho.

“O enraizamento talvez seja a necessidade mais importante, e mais ignorada, da alma humana, e uma das mais difíceis de definir”. Quem assegura é a filósofa francesa Simone Weil, judia desenraizada nos Estados Unidos, na Inglaterra e no mundo. Não tenho gravada na memória a longa citação. Copio de uma publicação comprada em uma banca de revista, pois que aqui ainda resistem muitas delas. 

Embora a definição de enraizamento seja difícil, Simone oferece sua interpretação. “Um ser humano cria raízes devido à sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que mantém vivos alguns tesouros do passado, e alguns pressentimentos do futuro”. Essa participação seria espontânea, surgida sem esforço a partir do lugar e de seu meio-ambiente, vinda pelo nascimento, pela profissão, pela história e pela construção de memórias coletivas.

É nela que penso, na Simone menos afamada, enquanto dialogo com esse senhor que não me diz nome ou sobrenome. O que não é problema, porque igualmente não me faço identificar. Somos dois desconhecidos sentados em um banco de metal afixado em terra alheia, vendo os minutos se arrastarem.

Fico sabendo que ele assiste na televisão programas de emissoras brasileiras. Que sente saudade de carne, feijão preto, arroz e ovo frito. Que se queixa da chuva e do frio no presente Inverno, como se queixou do calor demasiado do Verão. Sei que mantém seu vocabulário brasileiro, e que não se habituou a chamar trem de comboio, ônibus de autocarro, metrô de metro, celular de telemóvel.

Percebo que ele se encontra em uma fase especial da aclimatação em mudanças internacionais, ou transcontinentais. O brilho das novidades no país onde está já se esgotou, e o país rejeitado começa a ornamentar-se em utópicas conotações, cobrir-se de um vestuário mítico, enfeitar-se de glórias e qualidades, deixando de ser um mundo concreto para se transformar em um conceito, uma abstração, um símbolo da mais pura fantasia: uma Terra do Nunca, onde tudo o que é bom acontece. Ou acontecia.

Isso porque, para meu vizinho de banco, a perda é dupla. Ele vivencia tanto o afastamento de um espaço quanto a despedida de um tempo, cruzamentos que fizeram dele quem ele foi. Ausente de seu Rio de Janeiro físico e da “participação real” referida pela filósofa. Da existência “ativa e natural” de sua coletividade. Das praças de lá, talvez não tão belas como essa onde conversamos, imersas porém na sua memória afetiva. Dos seus “tesouros do passado” e da diluição gradual de seus “pressentimentos do futuro”.

Antes de rumarmos cada qual para seu lado, sei que ele está vendo pombos no ar onde voam gaivotas. Que avista o mar onde corre o rio. Que enxerga amendoeiras onde imperam carvalhos, ciprestes, sobreiros e azinheiras – árvores de raízes bem mais firmes que as dos autoexilados. E sei que esse é o fado que lhe coube nesse país, que jamais será seu: o de arrastar suas raízes, fincadas em um tempo e um espaço, porém sem presença real no mundo.

 

 

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