Quiromante. Por Angela Barros Leal


Ela conta suas histórias de uma maneira que não consigo repetir. Aliás, não somente eu, mas todos que tenham escutado os enredos dela, não conseguem dizer mais tarde, com precisão, o que por ela foi revelado.

Talvez seja um dom, esse de transformar nossa língua familiar em um novelo de palavras, em uma novela de frases que parecem guardar sentido, quando enunciadas por ela, porém no fundo do poço, ao fim e ao cabo, são tal e qual um floco de algodão-doce desmontando em nossa boca, derretendo em nossa fala.

Penso que ela se expressa ao modo das pitonisas do templo de Apolo. As histórias que se escutam dela soam como interpretações invertidas do I-Ching, remontam às centúrias sagradas de Nostradamus, à leitura das entranhas de animais sacrificados.

Ela não é a letra em um documento: ela é o que se lê na mancha do café derramado sobre o papel. Ela não se apresenta como um sinal impresso, de pronto conhecimento: ela é um vago signo, uma dança de sete véus. É uma sugestão descuidada, um intrincado símbolo a exigir novas escutas, releituras aprofundadas.

Entre uma margem e outra ela erra, em incontáveis versões. Calada, nos deixa pressentir uma correnteza subterrânea murmurando sob o que é enunciado, embora de um jeito tão desenvolto, à flor da terra.

A previsão dela quanto a nossos planos é um intrincado bordado no qual faltam pontos. Soa como a leitura de um livro que teve extraídas páginas fundamentais. Saltamos sobre um penhasco, de um espaço a outro, amparados tão somente na fé quanto ao que está prestes a suceder, em contextos alheios, transcendentais.

Quando ela se encanta por um tema, acaricia a palma da nossa mão, expande as asas e alça voo. A narrativa começa, os astros parecem se alinhar, mas não se deixe iludir, nem por um fio. Ao primeiro fôlego abrem-se lacunas para novos inícios, brotam parênteses para hipertextos, são criados atalhos, surgem pontes e desvios. Mergulha-se em inexplorado porvir.

É justamente isso o que dá às previsões dela uma estranheza especial, a impossibilidade de reproduzir o que foi contado, na forma como desejamos entender. Nem sequer de como começou sua existência, em algum lugar que depois não se consegue mais saber qual seria, em uma fronteira difusa entre o real e a fantasia.

Quando ela assinala aonde foi, o que foi feito e o que vai fazer, ergue-se uma espécie de encantamento. Perdem-se de vista destino, roteiro, objetivos. No seu relato de fugas nada começa, nada termina, nada segue direto do ponto A ao ponto B. Não se abrem pausas sequer para o pensamento.

Quando trata de quem conhecemos, os dados que ela dá são escassos, imprecisos, de somenos. São folhas soltas sem uma lajota aquecida onde pousar. Os nomes se embaralham, as datas se misturam, sem sequência lógica, sem a precisão que desejaríamos alcançar.

As histórias não findam. Quase sempre são abandonadas, se desfazem no espaço, aparentemente por acaso. E se nos perguntam o que ela nos disse, não há um percurso certo a percorrer.

O que houve de fato, com que exatidão tal caso se passou, ou se passará – quem, como, onde, quando, porque –, tudo isso que nos interessa, de natureza transparente, tenha em mente que, partindo dela, é um tanto inútil ir além da promessa.

Se, tomando como matéria prima o que ela mostra, fosse possível traçar um diagrama, teríamos uma sucessão de traços interrompidos, de fios soltos, de pensamentos truncados e ligações incompletas: ela ignora as linhas retas.

Resta, em quem escuta, a carência de algo palpável, uma sensação de incompetência, de inexplicável ignorância. Ela se diz filha de bruxa, de feiticeira, e disso não convém duvidar. Ela não é Sherazade, nem conhece a fonte das lendas das mil e uma noites, porém sabe por quais corredores se esconde sua sombra, e como manter seus enigmas, construir suas parábolas.

Ignoro onde tenha aprendido tais artes, bem como desconheço a procedência desse corte enviesado no formato que ela traça, na palma da nossa mão. Imagino que venha de uma vida em quartos escuros, atrás de portas fechadas, tateando em busca dos cadeados que tiveram suas chaves enterradas no chão.

Imagino que sua sabedoria aflua de um mundo de silêncios e omissões, quem sabe de descaso, de maus-tratos, olhos cerrados e maldições. Assim como uma nuvem, ela é mutante, inquieta, disforme. E goteja na sua mão não o que naquele instante nos conforte, mas apenas o que ela, esfinge antiga, bem deseja. 

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.