Quem nunca… Por Angela Barros Leal

Para melhor passar, a cronista expõe sua lista das pequenas mentirinhas do cotidiano


Acabei de ver sua mensagem, já ia retornar.

Meu celular estava no modo silencioso.

A conexão aqui está péssima.

Eu ia responder e esqueci.

Respondi, achei que tinha enviado, mas agora vi que a mensagem nem saiu.

Deu pane no aparelho, perdi toda minha agenda, estou tentando reconfigurar tudo.

Roubaram meu celular, comprei outro, mas ainda estou baixando os contatos da nuvem.

Muito barulho aqui, não dá pra ouvir nada, ligo depois.

Como? O que? Diga de novo! ALÔÔÔ!!

Dirigindo.

Estou na missa.

Numa missa de sétimo dia.

Em uma missa de corpo presente!

Não atendo número que não seja cadastrado na minha agenda.

É a irmã dela. Deu uma saidinha volta mais tarde.

Hello! I don’t speak Portuguese!

Esse número não é mais dessa pessoa.

Meu celular ficou no carro/na bolsa/na casa do vizinho.

Achei que fosse trote.

Atendi mas não dava para ouvir.

Estou afônica.

Fiz cirurgia de catarata, não consigo ler nada. 

Parece que deu um tilt aqui na minha região.

Estava exatamente estranhando o silêncio do meu aparelho.

Ligo já.

Mudei o som da chamada e nem reconheci que era o meu celular.

Me disseram que todo número com esse prefixo era golpe.

Fiquei sem sinal da operadora o dia inteiro.

Meu celular estava no conserto.

Estou em jejum de celular.

Numa reuniãozinha, ligo quando terminar.

Não ouvi chamar.

Fazendo o B.O. do furto do meu celular.

Numa ligação superimportante!

O número que você ligou está fora de área ou desligado.

Tente de novo pra ver se melhora.

Vou entrar em um buraco negro.

Não, não sou eu.

Meu filho/neto desconfigurou tudo.

A bateria tinha caído.

Meu carregador estourou.

Estou precisamente aqui no Banco vendo isso que você quer me vender.

O celular estava emprestado para o meu marido/filho/namorado.

Já comprei/já tenho/já conheço, não estou interessada.

Perdi minha agenda TODA.

Minha caixa de mensagens está cheia.

Tem outra ligação entrando, ligo já.

Minha vida está uma loucuuuura.

No cinema. No ci-ne-ma. No cinema!

Correria grande, desculpe o atraso.

O celular caiu na bacia d’água, agora só liga e não atende.

Estou entrando para uma comunidade ashram zen. Ommmmmmmm.

Voltei a usar telefone fixo.

No elevador! Vai cair a ligaç

Tinha ido parar embaixo do sofá e só agora encontrei.

Quem?? Sei quem é não!!

Na fila de embarque.

O psiquiatra me proibiu.

Pensei que fosse outra pessoa.

Parece que essa capinha nova que eu coloquei abafa a chamada!

Entrando no hospital nada grave ligo depois

Celular é ultrapassado, outdated.

Dentro do avião.

Esqueci de pagar a conta e cortaram a linha o mês inteiro.

Atendi, mas você já tinha desligado e acabei esquecendo.

Minha religião proíbe uso de recursos tecnológicos.

Na bike, agora não dá.

Na fila do caixa.

Numa aula experimental de meditação.

Levei uma queda enorme, perdi a memória por uns dias, ainda lutando para recuperar.

Viajei no tempo e fui parar no Egito antigo, sem livros sem nada, o que dirá celular. 

Fui abduzida para um planeta fora da nossa galáxia onde a comunicação acontece por telepatia, por transmissão de pensamentos, pelo puro impulso etéreo de percepções extrassensoriais.

Fui abduzida para um planeta fora da nossa galáxia, onde todos os seres se comunicam por gestos, não existem sons nem palavras muito menos aparelho celular.

Não estou a fim de me comunicar.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.