Quem dá mais. Por Angela Barros Leal

“Ao correr do martelo recomeçava uma vida nova para o espólio das mudanças, das partidas, dos dramas e tragédias dos oitocentos, tudo ao alcance de quem desse mais”.


O súdito inglês John Norman Cross fechou as derradeiras peças de bagagem em novembro de 1870. Estava pronto para retornar à sua terra com a família, deixando Fortaleza no vapor Augustine. Na ponta do lápis, e seguindo costumes do tempo, não compensava empacotar o mobiliário da casa e embarcá-lo no porão dos navios. Por tudo à venda colaborava também para reunir mais uns cobres, bancando parte do processo de mudança. Que o diga dona Maria C.B. Cordeiro, de partida para os Estados Unidos em 1866, visando educar os filhos, e leiloando objetos de casa “para auxiliar na viagem”. 

O agente Jatahy foi encarregado de leiloar os bens pertencentes a Mr. John Cross, residente à rua da Palma, nº 35: cadeiras para sala, de braço e de descanso; sofá, consoles, uma mesa redonda; cama e colchão, redes, escrivaninha, carteira para escrever; bacias para banho; os “trens de cozinha”, facas, garfos, louças, prateleiras para despensa; itens avulsos, como lanternas, candeeiros, espelhos, tapetes, além de um jogo de xadrez, revólveres e um estereoscópio, aparelho para visualizar fotos em 3D. 

Mas não é a pessoa de Mr. Cross que me interessa aqui, e sim a possibilidade que ele me dá de entrar em sua casa, um século e meio depois, percorrer os aposentos e conhecer os objetos que rodeavam a vida diária da sua família. Claro que esse não era o propósito de leiloeiros como o dito agente João Crisóstomo da Silva Jatahy, ou Vitoriano Augusto Borges, o francês Henrique Cals, Oliveira Rôla, Francisco Emygdio da Mota ou Henrique Ellery, que em seus pregões de “mulhados” sabia atrair os fregueses (“Adverte-se que haverá petiscos de bacalhau com batata”). Sem querer, ao inventariar bens nos anúncios de jornal tornaram-se curadores do conteúdo das antigas residências elegantes. 

É assim que entro na casa da rua 24 de Maio onde residiu o Exmº Sr. Dr. Thomaz Pompeu, que com a Exmª família aprontava-se, no começo de 1890, para retirar-se rumo à Europa, e vejo não uma, mas duas mobílias à Luiz XV, com dunquerque de tampo em mármore, o espelho logo acima, inclinado para diante, como se usava, vejo as prateleiras de um étagère também adornado em mármore, “dois ricos guarda-roupas e um riquíssimo guarda-louças”, estantes, cômodas, mesa elástica pronta para mudar de tamanho conforme o número de comensais, quadros, relógios, louças – um extenso “etc.etc.”  

Passo daí para a rua Formosa, nº 87, endereço do Ilmº Sr. Francisco Portella, nomeado para o governo do Rio de Janeiro em dezembro de 1889. Com o mapa do agente Francisco Emygdio da Mota faço meu roteiro: na sala de visita, expostas a mobília a Luiz XV, quadros com molduras, piano inglês, tapetes, escarradeira, espelhos com moldura em pau cetim, tapetes. Na sala de jantar, mesa e cadeiras, guarda-louça, aparelho para chá e jantar, relógios, taças, talheres, licoreiras, compoteiras, tudo em cristal. Em um canto uma cadeira de balanço e uma máquina de costura.

Na alcova, cama para casal e seu imprescindível cortinado, cama para criança, travesseiros, mais estantes, cômodas, rouparia, lavatório. Um fogão de ferro na cozinha, uma mesa de mármore, jarros e cantareiras para armazenar água. Os “trens” habituais. 

O mesmo agente Mota batia o martelo a quem desse mais pelos móveis e objetos da casa do Ilmº Sr. Dr. João Guilherme Studart, que em 1890 trocava o Ceará pela Capital Federal. Passavam a outras mãos as cadeiras conversadeiras, as cadeirinhas altas para crianças, móveis austríacos, bidês, berços, velocípedes, objetos de prata, porta-chapéus e porta-cartões, cofres de ferro, itens de uso doméstico reservados a poucos.

À casa comercial de Mota aportavam também as sobras de lares que haviam visto dias melhores, “móveis que não primam pela juventude”, como anunciava irônico, “cacarecos, relógios sem corda, caixas de música que não tocam, e outros muitos objetos que ainda têm de fazer sua entrada triunfal no armazém”.

Acessíveis ao bolso popular se faziam os leilões das mercadorias danificadas pela água do mar, no desembarque, ou salvadas dos constantes naufrágios. Avariadas, iam parar sobre a mesa do leiloeiro, por conta e risco de quem as quisesse adquirir, caixas de brinquedos e de sapatos ingleses, caixa com ferrolhos, uma barrica com ferros de engomar, os salvados do brigue austríaco naufragado em junho de 1866 na praia da Mutamba, litoral leste do Ceará, que incluía barômetro, óculos de alcance, vergas, mastaréu, âncoras de ferro, folhas de cobre, um bote, o próprio casco da embarcação.

Ao correr do martelo recomeçava uma vida nova para o espólio das mudanças, das partidas, dos dramas e tragédias dos oitocentos, tudo ao alcance de quem desse mais. 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.