Quando o milho somos nós. Por Rui Martinho


Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Espécies transgênicas são geneticamente modificadas. A engenharia genética modificou espécies produtoras de alimentos, como soja e milho. Houve, então, grande debate. Dizia-se que poderia haver prejuízos para o ambiente e riscos para a saúde dos consumidores. Os maiores temores aparentemente não se confirmaram. Deixo a palavra com os estudiosos do assunto, já que falo como leigo, exercendo o direito de reivindicar informações. Os benefícios anunciados aparentemente se confirmaram.

Hoje há um debate sobre a vacina da Pfizer, que estimula a produção, pelo organismo da pessoa vacinada, a produzir uma molécula que é parte do vírus causador da Covid-19. O ácido ribonucleico do tipo mensageiro (RNAm ou mRNA), conforme conhecimento ministrado no ensino médio (segundo grau ou científico), transporta a informação do DNA (ácido desoxirribonucleico, situado no núcleo da célula) para os ribossomos, situados no citoplasma, que são as fábricas de proteínas. O RNAm da Pfizer estimula a produção de uma proteína que é parte do vírus da COVID-19, um antígeno, simulando uma invasão pelo agente citado. Organismo produz anticorpos contra a proteína que ele mesmo produziu, valendo como defesa contra a doença.

Especialistas divergem, fato comum na ciência. Um lado argumenta que é um meio mais barato, mais rápido e massificável de produzir vacina em meio a uma emergência gravíssima; além de afirmar que a relação custo/benefício é favorável. Os contrários alegam que não houve teste seguro (seria então uma vacina experimental aplicada em massa), que os riscos são grandes, podendo estimular doenças autoimunes, já que o organismo produzirá anticorpos contra uma proteína que ele mesmo produziu. Dizem ainda que a possibilidade de produzir imunizantes pelo método tradicional, introduzindo o agente infeccioso atenuado ou inativado afasta a necessidade do uso massivo de um produto que seria experimental e os riscos muito grandes. A maior polêmica diz respeito ao uso desta vacina em crianças nas quais a relação custo benefício seria diferente, dada a baixa letalidade no grupo específico.

O direito à informação pede esclarecimentos. Haveria semelhança da vacina que usa o RNAm com a engenharia genética dos transgênicos? Curiosamente os que na sociedade se opunham a genética modificada na agricultura hoje defendem a vacina do RNAm e, reciprocamente, os defensores, digamos, do milho geneticamente modificado, hoje combatem a dita vacina produzida com técnica genética. Debate ao vivo entre especialistas seria oportuno, juntamente com divulgação ampla de ambas as correntes. Quando o milho somos nós (uso a analogia como uma licença dos tropos de linguagem) os papeis se invertem.

O debate deveria apresentar mais informações. Não devemos subestimar a capacidade do público razoavelmente letrado. A Epidemiologia tem nas metodologias quantitativas um valioso instrumento. Os dados relativos aos riscos por faixa etária, associados aos grupos específicos acometidos por comorbidade, o grau de proteção obtida inclusive quanto a transmissibilidade, a incidência de efeitos colaterais severos e outras informações deveriam ser mais divulgadas. A definição de políticas públicas e a adesão da população a um procedimento deve ter informações técnicas como base. Não basta invocar nomes prestigiosos de pesquisadores, instituições ou grupos corporativos como argumento de autoridade. Isso é subestimar a capacidade do público. Nós, cidadãos leigos, temos direito à informação.