Quando e onde uma vacina é política de Estado. Por Igor Lucena

O articulista do Focus em viagem ao México e EUA, onde recebeu a vacina, conta o que viu nos dois países no trato da pandemia.


Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Nos últimos quinze dias, eu estive no México conhecendo esse importante país, rico e cheio de cultura, a segunda maior economia da América Latina, o que foi para mim uma experiência incrível. Em parte, estive de férias e vi as diferenças no combate à pandemia da Covid-19 em uma nação muito parecida com a nossa, contudo fui obrigado a ficar em uma espécie de “quarentena fora do Brasil” para poder embarcar aos Estados Unidos, onde me encontro agora a trabalho.

Ao chegar ao Aeroporto de Miami, fui aconselhado por um amigo a me dirigir ao North Campus do Miami Dade College, onde fui prontamente atendido em um amplo estacionamento e com militares e membros de diversas equipes médicas. Não me foi perguntado sobre minha origem nem sobre meu status migratório, fiz um cadastro rápido e uma triagem sobre minha saúde. Após alguns minutos, pude escolher entre três tipos de vacinas e optei pela Pfizer, uma escolha meramente pessoal. Vale ressaltar que no processo da aplicação fui cordialmente informado sobre os procedimentos e me foi mostrado todos os atos dos soldados do exército, algo que chamou muito a minha atenção.

Após a saída, fiquei quinze minutos em uma sala de recuperação com enfermeiros, para o caso de eu sentir alguma reação adversa, e, em seguida, foi-me oferecida uma garrafa com água mineral. Após isso, recebi uma mensagem no meu celular já indicando a data da minha segunda dose e fui para casa. 

Narrei tudo isso que ocorreu comigo por dois motivos, o primeiro é para agradecer ao Iluminado (sim, sou budista) pela possibilidade de estar aqui e por já estar vacinado, algo que ainda é uma realidade distante para meus mais de 200 milhões de compatriotas brasileiros que estão sofrendo diariamente pelas mais de 400 mil mortes. Sim, perdi amigos e familiares também, e dói mais ainda cada dia que há morte de algum próximo. Meu pai, meu irmão e outros familiares também tiveram essa triste enfermidade, nos seus altos e baixos graus de acometimento. Entretanto, o que eu vi nestes últimos dias foi um exemplo de o que ocorre quando existem políticas de ESTADO e não políticas de GOVERNO, o que é fundamentalmente diferente.

Aqui você pode ter suas preferências ideológicas, seja de esquerda ou de direita, nos Estados Unidos há uma intensa disputa entre Republicanos e Democratas, o que se caracterizou no mundo inteiro pela disputa à presidência, em 2020, entre Donald Trump e Joe Biden, uma disputa polêmica que entrou para a história pelo considerável número de eleitores que foram às urnas; todavia, há um fator chave que define o porquê de hoje, em maio de 2021, mais de 200 milhões de americanos e visitantes já estarem vacinados; ou seja, quando se trata de política de Estado, em soluções críveis e sérias, não importa o partido, nem as eleições, mas sim o resultado.

Digo isso porque devemos francamente colocar os ‘louros’ dessa formidável e vitoriosa vacinação no atual presidente Joe Biden. Em seu plano original ele gostaria de vacinar 100 milhões de americanos nos primeiros 100 dias, conseguiu dobrar a meta e agora deseja nos próximos 200 dias vacinar toda a população americana acima dos 16 anos, voltando efetivamente o país a uma normalidade econômica, sanitária e política. Contudo, nada disso seria possível se o ex-presidente Donald Trump não tivesse efetivamente fechado contratos com a Pfizer, Johnson & Johnson, AstraZeneca, Novavax e Moderna logo nos primeiros estágios de desenvolvimento, independente de que as vacinas fossem ou não ser efetivas. Naquele momento, o presidente Trump entendeu que o custo de “arriscar” seria válido e necessário em todas as empresas que tivessem condições de restaurar a normalidade nos Estados Unidos. Além disso, proibiu a exportação das fábricas norte-americanas até que voltasse ao normal a situação, um medida polêmica, porém que justifica parte do sucesso inicial. 

O resultado é que com a ação de verdadeiras políticas de Estado, realizada por presidentes com visões totalmente opostas, mas que se alinham em assuntos importantes, os Estados Unidos em pouco tempo deverão retornar à normalidade e consequentemente deverão ajudar países como o Brasil em relação à carência de vacinas. Esse exemplo, simples, mas importantíssimo, mostra um elemento fundamental que falta ao Brasil, que são as políticas de Estado, independente de quem esteja no governo e por quanto tempo todos deveremos passar por um infortúnio. Para nós, brasileiros, isso custa sempre, a cada quatro anos, o atraso no nosso desenvolvimento econômico e social, e hoje infelizmente vem custando milhares de vidas.