Potencial nome da terceira via, Tasso passa a ser visto como o Biden do Brasil

A aposta é que o eleitor está cansado de extremismos, de instabilidade, de incompetência gerencial. É a aposta na segurança, na institucionalidade. Sem aventuras. 


Tasso Jereissati durante o evento Focus Summit, realizado em dezembro de 2018, dias após a sua eleição para o Senado.

Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

Deu na Folha de S.Paulo: “Diante do impasse entre Eduardo Leite e João Doria, governadores do PSDB que disputam a candidatura presidencial, grupos tucanos passaram a apostar no senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) como uma figura de consenso não só no partido, mas no chamado campo de centro, e agora lhe dão até o apelido de Biden do Brasil, numa referência ao presidente americano Joe Biden”.

Pois é. Mais uma vez, um protagonismo nacional se impõe no horizonte de Tasso. Uma chance de ser candidato a presidente da República já havia se concretizado no longínquo ano de 1994. Era o momento de escolher quem seria o candidato do PSDB a presidente. Seria o candidato do plano Real, que deu a estabilidade econômica ao país que perdura até hoje, mesmo aos trancos e barrancos.

Naquele ano, o grande cabo eleitoral de Tasso no âmbito do PSDB foi Ciro Gomes, que brigou para valer para que o aliado cearense se impusesse como candidato a candidato pelo PSDB. Mas, o próprio Tasso abriu mão a favor de Fernando Henrique Cardoso.

Biden do Brasil? Sim, há algumas semelhanças. Capacidade de ponderação, muita experiência política, trajetória sem nódoas, posição de centro com capacidade de dialogar à esquerda e à direita, respeito à democracia e à institucionalidade. O tucano ainda agrega uma qualidade de grande valor: ao longo de três mandatos como governador do Ceará, ficou conhecido como um gestor de referência.

Tasso tem 72 anos. Terá 74 em 2022. Biden tem 78.

“Ainda de acordo com membros do PSDB, a entrada de Tasso no jogo poderia afastar Leite da corrida, já que o governador gaúcho é considerado afilhado político do senador e daria preferência a ele. No entorno de Doria, porém, o nome de Tasso é minimizado, com a avaliação de que ele não vai topar concorrer”, diz a reportagem da Folha.

Eis um dos problemas de Tasso: o senador não costuma se colocar no jogo com a ênfase que, muitas vezes, o próprio jogo impõe. O senador guarda para si uma crença que tanto ajuda quanto atrapalha uma trajetória política. Para ele, ser presidente da República é destino. Ou seja, quem briga demais para ser, acaba não sendo. Por essa concepção, o destino conspira para que uns sejam e para que outros jamais sejam mesmo que trabalhem com ardor para ser.

Porém, o tucano pelo menos fez uma fala que não o retira do jogo. Em entrevista à GloboNews na terça-feira, 20 ele declarou o seguinte: “Não é projeto de vida meu chegar à Presidência da República. […] Mas eu faço parte do partido, se me apresentarem como alternativa é uma coisa que a gente tem que amadurecer”.

Ou seja, é como dizer que se for ungido, vai. Porém, não fará movimentos de envergadura para ser.

A potencial candidatura presidencial de Tasso ganhou alguma concretude no mercado político quando o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, fez convite público para que Tasso concorra à Presidência da República em uma entrevista ao jornal O Globo na última segunda-feira, 19 de abril.

A busca de boa parte das forças políticas por uma opção de centro é o que credencia Tasso. É o cansaço com o polo que antes era formado por PT e PSDB e hoje se revela pelo embate esquerda versus direita. Ou Bolsonaro X Lula. Polarizações entre extremos nunca são saudáveis para a democracia e para as gestões.

A aposta é que o eleitor está cansado de extremismos, de instabilidade, de incompetência gerencial. É a aposta de que, se for ofertado um nome viável de centro, este arrancará apoios tanto à esquerda e à direita, além de, claro, arrastar o eleitorado de centro que, na polarização se vê obrigado a optar por um com o objetivo de vetar o outro. É a aposta na segurança, na institucionalidade. Sem aventuras.

“Procurado pela Folha, Tasso não respondeu. É consenso entre tucanos que o senador não pode se colocar abertamente como presidenciável agora que ocupa uma vaga na CPI da Covid e que faz oposição a Bolsonaro. O movimento seria visto como inoportuno, uma tentativa de usar a comissão como palanque”, conta o texto.

Mais do texto da Folha: Tasso é descrito pelos correligionários como uma figura respeitada dentro e fora do PSDB e que manteve seu capital político ao longo dos anos, após ter sido governador do Ceará em três mandatos, presidente do PSDB e ocupar o segundo mandato como senador. Tucanos mais antigos fazem questão de lembrar que Tasso quase ocupou a chapa presidencial em 2002 e que era o preferido de Mário Covas para o posto naquele ano.

Ainda há muito jogo a ser jogado. Algumas poucas cartas estão sendo colocadas na mesa. Há muitas variáveis a atuar.

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.