Mauro Filho fala sobre Previdência e diz que privatização jamais pode servir para reduzir déficit primário

Em entrevista ao Focus, o eterno deputado-secretário, que abriga formação acadêmica exemplar, diz que pode presidir Comissão da Previdência, desde que o PDT conceda o aval


Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

Certamente, na História do Ceará, nunca um político exerceu papel tão influente durante tantos governos estaduais seguidos e sempre com a mão na massa. Trata-se de Mauro Benevides Filho. O “filho” do sobrenome é de uma origem que deu importante contribuição para reintegração democrática do Brasil. Mauro pai foi um dos componentes do grupo de Ulisses Guimarães, que comandou a resistência democrática à ditadura.

“Maurão” fez a escolha certa ao batizar “Maurinho” com seu próprio nome. Formado em Economia pela UnB (Universidade de Brasília), Mauro Benevides Filho foi técnico-estagiário do Ipea (Instituto de Planejamento Econômico e Social) e logo depois (1980) já era admitido para o doutorado na Universidade de Vanderbilt, nos EUA. Após escrever sua dissertação sobre distribuição de renda no Brasil, foi convidado pela Vanderbilt para ser professor visitante de microeconomia.

De volta ao Brasil, no efervescente ano de 1985 (pela primeira vez o País fazia eleições para prefeito das capitais), Mauro Filho foi contratado como Executivo financeiro do Banco BMC, banco cearense que acabou sendo adquirido pelo Bradesco há alguns anos. Logo em seguida, passou em concurso para lecionar tanto no Departamento de Economia Aplicada do curso de Economia quanto no respeitado mestrado (Caen).

De lá em diante, a carreira acadêmica começou a se integrar com a política, mas não pelas mãos do pai. Foi interventor do BEC entre 1987 e 1988, ano em que Ciro Gomes se elegia prefeito de Fortaleza. Desde então, Mauro passou a compor o grupo político liderado por Ciro. Em 1989, foi o secretário de Finanças da Prefeitura, quando assumiu um quadro caótico. Com Ciro já governador, Mauro o acompanhou e foi comandar a Seplag e depois (1993) a então Segov.

Desde então, exerceu seguidamente papeis de relevância em todos os governos sempre mantendo a âncora política como deputado estadual. Sempre licenciado dessa função, foi o mais longevo secretário da Fazenda de nossa História. Sem descontar as licenças para disputar eleições, foram oito anos com Cid Gomes e mais quatro com Camilo, que agora o acolheu para comandar a Seplag, a pasta que paira sobre todas as outras, incluindo a Fazenda. Ainda não assumiu de fato, mas na prática sim. É que decidiu ficar como deputado federal até o fim da tramitação da reforma da Previdência, cuja Comissão pode ser por ele comandada.

Portanto, o sempre potencial ministro da economia de Ciro Gomes, é dono de uma trajetória única de um raro e já experiente político que abriga formação acadêmica e conhecimento técnico exemplares. O Focus.jor conversou com Mauro Filho a respeito da Previdência, do mandato e da Seplag. Vejam.

Focus – O senhor foi indicado pelo governador Camilo para a Seplag, hoje a pasta mais importante da estrutura de Governo. No entanto, há notícias de que o senhor pode presidir a Comissão da Previdência, cuja tramitação pode se dar por mais de dois meses. Como vai ficar essa situação?
Mauro Filho – Tenho um compromisso permanente com meu Estado e venho auxiliando há anos os Governadores Ciro Gomes, Lúcio Alcântara, Cid Gomes e Camilo Santana. No entanto, minha experiência com a previdência e o ajuste fiscal que o Brasil tanto precisa estimulam minha atuação aqui na Câmara dos Deputados com o mandato que a população cearense me concedeu, o que me deixou muito honrado. Vou procurar aprimorar a proposta de Reforma da Previdência que será encaminhada ao Congresso Nacional e retornarei à SEPLAG com o convite que me foi formulado pelo Governador Camilo.

Focus – O senhor tem uma posição muito clara sobre a reforma da Previdência. No entanto, a função de presidir a Comissão se relaciona não com o conteúdo, mas com a condução dos trabalhos. Além disso, esse trabalho costuma refletir os interesses da maioria governista. Haverá compatibilidade entre essas duas situações?
Mauro Filho – O maior compromisso com o Governo Federal será liderado pelo relator. Ao presidente caberá assegurar a participação de todos os brasileiros(as) nas discussões vindouras. Com o conhecimento adquirido ao longo dos anos desejo contribuir fortemente. No entanto, essa participação só acontecerá com o apoio do meu partido cuja reunião de discussão se dará no próximo dia 19/02/19.

Focus – O senhor está participando das reuniões do Governo do Ceará e exercendo de fato o papel de secretário. É uma situação adequada?
Mauro Filho – Na apresentação a que você se refere e que eu estava presente, o Governador tratava dos dados ainda de 2018, período em que participei durante quase 4 anos sob sua liderança. Ademais, não vejo problema para, sempre que necessário, compartilhar ideias com toda a equipe.

Focus – São diversas eleições e reeleições para o parlamento. No entanto, o senhor praticamente abriu mão dos mandatos para servir ao Executivo. O senhor avalia que o seu eleitor se sente representado por suas opções?
Mauro Filho – Eleito Deputado Estadual por 24 anos consecutivos e agora deputado federal com quase 158 mil votos, posso deduzir que o meu eleitor continua confiando plenamente na minha atuação como parlamentar ou no executivo ajudando o meu Estado e os municípios que represento.

Focus – Paulo Guedes tem falado em privatizações e em diminuir o tamanho do Estado de forma drástica. Não é o que se deu com ênfase no Ceará nos últimos 20 anos. Não é exatamente o que pregou Ciro Gomes na campanha. O que o senhor acha da pregação de Guedes?
Mauro Filho – O estado em qualquer nível tem de ter ampla capacidade de investimento para atender as demandas de sua população. Privatização acontece para tornar determinados setores mais eficientes e com condições para investir, mas jamais para resolver a questão do déficit primário do país. 

Focus – Que legado o senhor quer deixar nos meses em que vai exercer o mandato de deputado federal?
Mauro Filho – O legado de que o parlamentar pode sim contribuir profundamente com o desenvolvimento do Brasil tornando-o mais justo socialmente.