A imprensa é generosa com RC, mas o que falta mesmo é oposição

Quando a deputada sai um pouco de Brasília e se apresenta no debate de Fortaleza, faz um bem danado. O problema é que o PT está em um promíscuo e apertado abraço com o PDT do prefeito.


Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

Em notícia publicada pelo Focus, a ex-prefeita de Fortaleza e hoje deputada federal, Luizianne Lins (PT), reclama do que considera ser uma abordagem “generosa” da imprensa para com a gestão de Roberto Cláudio (PDT). É provável que Luizianne tenha razão. Pelo menos, em parte. Afinal, há sempre as honrosas exceções. Diga-se que, sem entrar no mérito da questão, era notório o vigor investigativo do jornalismo na abordagem crítica da gestão da prefeita.

É natural que os meios de comunicação mantenham contratos de comunicação com os governos. É parte do mercado que mantém vivo e com alguma saúde financeira esse setor vital para a democracia e para a indústria cultural. O problema é se isso, de alguma forma, impedir o livre desenvolvimento do trabalho dos profissionais jornalistas.

Há um ponto a ser observado: a suposta generosidade da imprensa para com RC é diretamente proporcional à falta de oposição ao prefeito. Em todos os âmbitos da administração pública, a imprensa e os jornalistas que atuam na área de política têm por praxe repercutir as críticas da oposição ao gestor plantonista. Quando não há oposição, não há a crítica e, por conseguinte, a rareiam as notícias que formam o contraponto aos governos.

Vamos ao caso do PT em particular: o partido tem hoje apenas o vereador Guilherme Sampaio fazendo oposição em Fortaleza. Já calejado na política, Guilherme se mostra bem mais ponderado do que em outros tempos. Agora, com a ida de Acrísio Sena para a Assembleia, chegou à Câmara de Fortaleza o ex-vereador Ronivaldo Maia, que é ligado à Luizianne e tem o dever de ser opositor. Veremos.

Outro detalhe: o partido de Luizianne compõe uma aliança estadual com o PDT, sigla de RC que exerce forte e hegemônica influência sobre o Governo de Camilo Santana, que é do PT. Há uma multidão de petistas na máquina estadual. Muitos deles ocupando aquilo que o carioca César Maia uma vez chamou de “boquinha”.

Enfim, o partido de Luizianne e o PDT, controlado pelos Ferreiras Gomes, grupo do qual RC faz parte de corpo e alma, continuam abraçados numa relação que, hoje, pode ser chamada de promíscua e montada em interesses mútuos que, claro, alcançam também a esfera municipal, mesmo em menor grau.

A duríssima avaliação que, em alto e bom som, Ciro Gomes tem feito a respeito do PT não tem merecido praticamente nenhuma resposta dos petistas cearenses que estão na proa do barco vermelho. Portanto, uma sugestão: basta o PT, por inteiro, se posicionar, fazer oposição de fato ao prefeito e ao seu grupo político que, por consequência, o noticiário certamente vai reproduzir e reverberar as críticas.

Imprensa não faz oposição e nem disputa projetos de poder. Isso é papel dos políticos. Oposição é algo fundamental ao sistema democrático. Quando Luizianne Lins sai um pouco de Brasília e se apresenta no debate de Fortaleza, faz um bem danado.