Os tantos nomes dela, por Angela Barros Leal

Ela nos libera e nos espreita, nos provoca e nos respeita, e sabe até aonde nos deixa ir. Aceita os nomes que a ela forem dados, os apelidos, as gozações, pragas e maldições, as causas que estiverem em sua raiz.


Rosa morta, foto: divulgação

Ela tem mil caras. Assume mil formas. Chega insidiosamente, pé ante pé, na calada da noite, ou se faz anunciar com imenso estrondo, em pompa e circunstância. Ela ronda, finge que escuta os apelos de quem a repele, desce sobre um ou sobre muitos de uma só vez, dando a cada um seu próprio tempo, seu momento a sós, sendo tão democrática quanto é.

Ela nos libera e nos espreita, nos provoca e nos respeita, e sabe até aonde nos deixa ir. Aceita os nomes que a ela forem dados, os apelidos, as gozações, pragas e maldições, as causas que estiverem em sua raiz. Deixa-se olhar na cara e se mostrar viva, como fez com Cazuza, mas sabe que também irá quando nós formos, na certeza do poeta John Donne: “Um breve sono a vida eterna traz,/ e vai-se a morte. Morte, morrerás.”

Morremos hoje e sempre, por tudo e por nada, e tremo ao escrever isso, batendo três vezes na madeira por estar tratando dela tão sem cerimônias, um arrepio de recusa perpassando meu braço, porém prossigo.

Morria-se no século XIX – onde me refugio durante essa interminável pestilência – de febres: tifoide, perniciosa, terçã, remitente, gástrica, biliosa, palustre, maligna, intermitente; morria-se de males no pulmão, gangrena ou consumpção pulmonar, a tuberculose. Morria-se no berço, com o tétano dos recém-nascidos, o raquitismo, a dentição, a eterna e conhecida inanição, mais conhecida como fome.

Morria-se, no século XIX, de tétano espontâneo, de hérnia estrangulada, de hipoemia intertropical, nome elegante para um mal com predileção por “escravos e pobres”, como refere o médico José Agnello Leite de Mello, formado em 1875 na Bahia, o calor e a má alimentação estimulando a palidez da pele, a cegueira noturna, o inchaço do baço e do fígado.

Meu pai, pediatra diplomado em 1948 na Faculdade de Pernambuco, discorria na mesa de almoço sobre garrotilho, difteria ou crupe na infância, estrangulando nosso fôlego e nos fazendo respirar fundo, pequenos hipocondríacos em formação. Antecipava aulas sobre a caquexia, caquexia cancerosa, caquexia sifilítica, o que inspirou a um de nossos irmãos o nome adequado para um gato que surgira do nada e se aninhara entre os outros gatos de nossa casa, o jamais esquecido Caquético.

No século XIX morria-se de boubas, a pele, os ossos, os encaixes ósseos cedendo a essa infecção tropical alimentada pelo “Treponema pallidum” cantado por Zé Ramalho; de fraqueza congenial; de ascite, a chamada “barriga d’água”, e de anasarca, o corpo inchando com excessos de líquidos, males especialmente irônicos quando água tantas vezes escasseava do lado de fora; de opilação, as inúmeras verminoses causadas pela ausência de cuidados e higiene, esses produtos de luxo; de escrófula, a maldição do Rei, os gânglios linfáticos intumescendo na inútil espera do toque real, porque apenas pelo Rei a doença poderia ser curada.

De velhice, pura e simplesmente, morria-se aos 75 anos; de catarro senil aos 65; de amolecimento cerebral a partir dessa idade e quem diz não sou eu, mas sim os jornais do tempo. Morria-se de estupor ou apoplexia, do vago diagnóstico de “lesão orgânica”, ela cercando de todos os lados para a colheita dos curandeiros, médicos, cirurgiões, boticários, sineiros e sacristães, um único sopro de esperança restando na voz de quem: de Augusto dos Anjos, nosso mais mórbido poeta, em seu poema “Vozes da Morte” consolando a si próprio e a um amargo e agonizante pé de tamarindo.

“Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,
Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!”