Os desastres políticos que começam a pagar os olhos da cara pelos erros

Como a politica não tolera vácuo, a disputa pela Prefeitura de Fortaleza 2024 já está no ar. Claro que a eleição para o Governo moldou a conjuntura. Conheça-a


Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

O que já se sabia vem à tona: Pronto! Mais rápido do que se poderia imaginar, chega ao distinto público o primeiro posicionamento de um político importante antecipando o que já era uma latente obviedade. A coligação vencedora da eleição para o Governo do Ceará se prepara para disputar e, possivelmente, ganhar também a Prefeitura de Fortaleza.

Pela boca de quem? O aviso partiu do deputado federal eleito, Eunício Oliveira, o prócer do MDB que teve papel fundamental no processo de isolamento político das candidaturas de Roberto Cláudio (PDT) e Capitão Wagner (UB).

Uma aposta pule de 10: a aliança que elegeu o governador vem com tudo para cima. Nesse campo, candidato a candidato, não falta. Inclusive fora do PT.

Eunício, creiam, é um dos que podem se colocar. Luizianne Lins está on. Há outros em gestação. O solo ficou fértil. Afinal, o candidato que sair dali terá o apoio da máquina federal e da máquina estadual.

O prejuízo dos derrotados: nos outros campos políticos, RC e Wagner são naturalmente potenciais candidatos em 2024. A preço de hoje, pode-se afirmar, sem margem de erro, que os dois estão numa situação bem complicada.

Muito embora tenha obtido a melhor votação em Fortaleza, Wagner terá que construir uma nova aliança em um espaço bastante reduzido e imprensado por três máquinas: a municipal, a estadual e a federal. Isolado, sem mandato,  seu caminho será extremamente espinhoso.

Detalhe a não perder de vista: ao optar pela candidatura da esposa para ocupar sua cadeira de deputado federal, Wagner gerou muitas desconfianças no âmbito da corporação que lhe garante a força política. Ou melhor, Wagner não foi corporativo negando-lhe a opção e repetiu uma velharia a qual, no passado, prometia combater

E RC? Pois é. A impressionante sequência de erros cometidos pelo seu grupo na última eleição fez com que muitos bem treinados observadores de nossa política entendessem que ali há uma certa incapacidade de fazer leituras políticas corretas e desprovidas de presunção.

O ex-prefeito que elegeu José Sarto sucessor e terminou a gestão com alta aprovação há apenas dois anos obteve em Fortaleza a metade (20,67%) dos votos de Wagner (41,51%) e ficou ainda muito distante de Elmano de Freitas, que recebeu 37,62%.

Ou seja, um terceiro lugar jogando em casa. Isso, sem contar os mirrados 14% obtidos no âmbito estadual.

Não tenham dúvidas: o ex-prefeito de Fortaleza precisará de muito tempo (algo disponível no momento) para curar-se de tamanho baque, reposicionar-se e recompor suas forças.

Há outra grande barreira para RC: o próprio Sarto. Veterano no jogo político do médio clero, o prefeito sabe o quanto precisa dos cofres estaduais para desenvolver seus projetos. Pelo menos no campo institucional, a aproximação será natural. Só não se sabe ao certo até que ponto.

Sabe como é, não é? A política é dinâmica.

Não devemos esquecer: Sarto, numa fala que veio do âmago, chegou a dizer que votaria em Camilo Santana para o Senado. Certamente foi repreendido por tamanha sinceridade em um momento delicado no exato momento em que RC lutava contra moinhos.

No entanto, também a preço de hoje, a maior barreira é a própria gestão de Sarto, que precisa melhorar muito para que pelo menos fique regular. Não foi à toa que um dos maiores ataques recebidos por RC na disputa passada foi jogar no seu colo a responsabilidade por Sarto.

Claro que todos estavam municiados por pesquisas. E claro que as circunstâncias só permitiam  a RC encarar o fato ou escapar à francesa. Mudando de assunto, por exemplo.

Outro detalhe: o candidato natural do PDT chama-se José Sarto. Alguém aí acredita mesmo que o prefeito não vai querer disputar a reeleição? Seria algo incomum na política mesmo para os de baixa vocação executiva.

Bom, as pedras começaram a rolar: enquanto uma parte do PDT, meio às cegas e motivado pelo fígado, se move para fazer oposição a Elmano de Freitas (PT), o grupo de partidos que elegeu o governador já mirou no que importa. Afinal, Fortaleza é a segunda jóia da coroa cearense.

Não custa lembrar que, em 2012, foi RC quem, nos descontos do segundo tempo, virou o jogo da eleição e tirou o campeonato municipal do próprio Elmano. Da forma como as coisas se deram, certamente aquele dia tornou-se um inesquecível domingo da história eleitoral do Ceará. Não pelos mais nobres motivos.

Quanto ao PDT na oposição de Elmano, há quem se disponha a pagar para ver. Para quem conhece um pouquinho da política do Ceará, será como uma dança no abismo. Sabe-se que os aprendizes de dançarino precisam demonstrar alguma vocação para o exercício de ser oposição. Não é tarefa fácil.

Assim, é imenso o risco de cair no despenhadeiro e desaparecer na vastidão do abismo.

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.