Um cenário confuso

"Os cálculos se firmam em solo movediço", escreve Rui Martinho em seu artigo semanal para o Focus.jor.


Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@terra.com.br

O cenário eleitoral em curso é extremamente confuso. A polarização entre PT e PSDB se desfez. Agravou-se a fragmentação política. A fragilidade dos partidos e lideranças multiplicou candidatos. Nenhum deles, porém, parece capaz de pacificar e unir o país dividido. Com o Congresso mais fragmentado o fantasma de uma crise de governabilidade está no horizonte, nivelando, sob este aspecto, todos os candidatos, porque os maiores partidos já sofreram “desidratação”, fato que poderá agravar-se por decisão das urnas.

As incertezas decorrentes do desgaste dos políticos tornam-se mais agudas diante da possibilidade de novas revelações da Lava Jato. “Como velho marinheiro, que durante o nevoeiro, leva o barco devagar” (Paulinho da Viola), os políticos adiam a decisão sobre alianças. Ainda não temos definição de apoios entre os partidos. Não sabemos quem será o vice-presidente dos candidatos a presidente. Cogitações apresentam alianças surpreendentes. O PR, segundo especulações, estaria negociando apoio a candidatura do PT, PSDB ou PSL, com Jair Bolsonaro, formando um leque de escolhas contraditórias. Os cálculos incluem pesquisas, com as probabilidades de êxito, tempo de televisão e estrutura partidária.

A política é pragmática. Andar a reboque de interesses puramente eleitorais, porém, poderá configurar o quadro em que a sabedoria cresce demais e engole o dono. Tratativas com forças políticas díspares não são exclusividade do PR, embora este seja o caso mais notório. Alianças entre personagens que até ontem trocavam graves acusações poderão subtrair votos, desfazendo a conta do ganho eleitoral.

Os cálculos se firmam em solo movediço. Além das incertezas advindas da Lava Jato, o tempo de televisão poderá ter uma influência menor do que no passado, pela concorrência das redes sociais. Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves não se beneficiaram das estruturas partidárias, quando a internet não estava no jogo político. Com o calendário de campanha será mais curto, o tempo de televisão, pequeno até para os maiores partidos, terá importância menor. A Lava Jato e a nova legislação diminuirão a influência do poder econômico. A campanha em tempo reduzido provavelmente não trará mudanças expressivas até o primeiro turno, ressalvadas as surpresas das investigações e denúncias.

A exacerbação de ânimos deverá fortalecer os postulantes com pronunciamentos mais afirmativos, inflando o voluntarismo e o personalismo. Tudo isso poderá representar obstáculo à governabilidade e à solução de problemas. Ninguém se elegerá com o discurso de sangue suor e lágrimas, de Churchill (1874 – 1965). O eleito, porém, terá de recorrer a remédios amargos. Os descaminhos do STF agravam a situação, trazendo a perspectiva de crise institucional. Aparentemente só um desastre como o do Rio de janeiro nos abrirá os olhos.