O panorama eleitoral

"O Brasil tem medo tanto do novo como do velho e ambos poderão sair das urnas"


Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
rui.martinho@terra.com.br

O quadro que se nos apresenta, no atual certame político, caracteriza-se pela desagregação dos partidos, cujas lideranças estaduais fazem alianças diversas dos acordos acertados entre os diretórios federais. As redes sociais parecem constituir uma força mais poderosa do que se esperava, embora ainda não se possa avaliar com segurança este aspecto. Os meios tradicionais de comunicação social parecem menos influentes, a julgar pelo resultado da recente eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, além de outros exemplos internacionais. O financiamento provavelmente será mais curto e mais controlado pelos donos dos partidos, uma vez que estes distribuem o financiamento público. Agremiações e lideranças estão desgastadas pelos escândalos e pelo fracasso das políticas executadas sob as bênçãos de líderes, partidos e especialistas.

Temas ligados à moral privada surpreendentemente despertaram o interesse do Macunaíma. O debate deixou de criticar apenas alvos impessoais e distantes e que não se defendiam, como o FMI, os imperialistas, a concentração de renda nas mãos de “tubarões” distantes das pessoas comuns. Passou a tratar da orientação sexual do eleitor e do seu filho; voltou-se para cotas que ensejam oportunidades para uns, dificultando para outros, agora mirando as pessoas comuns. Discute-se longamente a segurança das urnas eletrônicas sem o voto impresso, estimulando vaticínios de questionamento da legitimidade dos resultados da eleição. A segmentação do eleitorado geralmente destaca diferentes níveis de escolaridade, sexo, idade e regiões do país. Os mais escolarizados estão tendendo para o candidato mais repudiado pela “grande mídia” e pelos intelectuais. Homens e mulheres revelam tendências mais distanciada do que em pleitos anteriores. Os mais jovens surpreendem mostrando receptividade sem precedentes ao candidato conservador. As regiões do país continuam a manifestar a diferença de sempre.

Olhando para os mais destacados grupos da segmentação focada pelas pesquisas, temos o agronegócio e os grupos religiosos mais avivados optando majoritariamente pelo voto conservador. Funcionários públicos, sindicalistas, corporações e os chamados “movimentos sociais” dividem-se entre o socialismo eslavo e a social democracia. Militares e policiais parecem inclinados a apoiar o candidato conservador. Os de maior renda tendem para a social democracia. Os liberais dividem-se entre o apoio aos conservadores e a social democracia. Os pobres, desesperados diante da criminalidade, dividem-se entre a tentação clientelista e o voto conservador, com a promessa de política de segurança mais enérgica. Pendengas entre liberais e conservadores favorecem a vertente socialista, que está pronta para se unir os conservadores, tendo ainda a vantagem da hegemonia ideológica, embora tenha surgido um certo cansaço com o seu patrulheirismo, além do descrédito da antiga imagem de incorruptibilidade dos seus líderes. A agressividade dos que se presumem esclarecidos intimida a declaração de voto, podendo levar as urnas a desmentirem as pesquisas.

Os candidatos já não conquistam tantos eleitores por falar bem ou ter poderosas máquinas partidárias. As alianças partidárias e a experiência de quem passou por cargos despertam desconfiança. O horário eleitoral está mais curto e a campanha terá pouco mais de um mês. Tantas modificações nas diversas variáveis produzem incertezas agravadas por investigações criminais e também pela judicialização da política. O setor financeiro, mais sensível, mostra nervosismo. Brasileiros de maior renda estão emigrando, fato incomum na história das migrações. O Brasil tem medo tanto do novo como do velho e ambos poderão sair das urnas.