O chanceler de Bolsonaro na visão de Catarina Rochamonte

A tradição recente da diplomacia brasileira foi de leniência, omissão e covardia diante das ditaduras de esquerda.


Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Ernesto Araújo: um diplomata na tradição da coragem, contra o consenso da inação e da mediocridade.

Por Catarina Rochamonte
catarina.rochamonte@gmail.com

Há poucos dias, a revista Época repercutiu críticas acerbas e deselegantes que o embaixador aposentado, Rubens Ricupero, proferiu contra o Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em palestra promovida pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no instituto de políticas econômicas liberais Casa das Garças, no Rio de Janeiro. Dentre as críticas, Ricupero acusou Araújo de subalternidade aos Estados Unidos, com adesão total e sem reservas, “de maneira mecânica e caudatária […] por motivação puramente ideológica a fim de agradar os americanos.” Falou também em sacrifício dos interesses brasileiros concretos e de “revolução conservadora”, o que é uma expressão disparatada pra quem sabe o que é conservadorismo.

Desde sua nomeação, antes mesmo de começar a atuar, o ministro Araújo vem sendo não apenas criticado, mas também injuriado e difamado. Eu mesma fiquei bastante admirada ao testemunhar – por ocasião de um colóquio liberal do qual participei no começo desse ano – o tom jocoso, áspero e desrespeitoso com que um diplomata (recentemente exonerado) referia-se a Ernesto Araújo. Ao noticiar a demissão de Paulo Roberto de Almeida, a própria revista Época – apesar de toda a parcialidade com que vem tratando a questão – admite que “não é de se surpreender que um novo governo mude as diretorias do órgão. No entanto, para manter as tradições da pasta, as trocas poderiam ser feitas com mais gentileza.” Ora, os adjetivos com os quais o diplomata exonerado se referia publicamente ao ministro Araújo eram tudo, menos gentis. Por que, então, a “dança das cadeiras” do Itamaraty deveria ter sido feita de outro modo?

Outra personalidade que fez coro, nesses dias, à tentativa de queima de reputação do novo ministro foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que ecoou as críticas de Ricupero em texto publicado no Estadão, no dia 03 de março, com o título hipócrita de A vez da Venezuela. Nesse artigo, FHC questiona se “vamos transferir a embaixada em Israel de Tel-Aviv, contrariando nossa histórica pregação em favor de dois Estados naquela região do Oriente Médio?” e pergunta ainda “que sentido faz criticar a própria ONU como suspeita de “globalismo”, do qual ela seria o instrumento?” Sem entrar no mérito das questões levantadas pelo ex-presidente tucano (nossa posição favorável à transferência da embaixada brasileira para Israel é pública e nossas críticas a ONU e ao globalismo também) foquemos a crítica reiterada ao alinhamento da nova diplomacia com os Estados Unidos.

Fernando Henrique disse que Ernesto Araújo “desafia abertamente as tradições da política em suas concepções de soberania”, mas cita a tradição do Barão do Rio Branco, a quem se atribui “a noção de que deveríamos manter boas relações com os Estados Unidos para fazer o que nos convém na área que nos toca mais de perto, a América do Sul” e cita ainda a aliança do Brasil com os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial: “Na guerra contra o nazismo até bases estrangeiras foram autorizadas a se instalar no Brasil. Mas foi um momento histórico excepcional a requerer que agíssemos assim.”

Ora, excepcionalidades estão sempre a ocorrer na vida das nações e, consequentemente nas suas relações. A condução da diplomacia, assim como a condução das nossas vidas, é cheia de momentos decisivos e impostergáveis e em nenhum outro momento das últimas décadas o Brasil precisou tanto de serenidade aliada à altivez e de ponderação distante da pusilanimidade. O processo de libertação da América Latina pressupõe tudo isso: altivez, coragem, senso de missão e dignidade. Durante a terrível crise que a Venezuela atravessa, calhou de haver no Brasil uma mudança de governo, assumindo o Ministério das Relações Exteriores esse diplomata de com coragem suficiente para não se submeter às cobranças no sentido de se manter omisso quanto ao esforço da comunidade democrática mundial para ajudar na libertação do povo venezuelano, que padece sob a opressão de um ditador insano. Trata-se aqui da necessidade de resgatar a dignidade e a liberdade de um povo, mas enquanto o chanceler Ernesto Araújo eleva o Brasil à condição de um dos principais protagonistas nessa rede de solidariedade internacional ao povo venezuelano, os arautos da velha diplomacia e a mídia, de modo geral, atacam-no sistematicamente.

O texto de Fernando Henrique e os ataques grosseiros de Rubens Ricupero tiveram, porém, pronta resposta em um excelente artigo de Ernesto Araújo intitulado “Contra o consenso da inação” no qual expõe a situação de cumplicidade com o regime chavista (governos do PT) e omissão (governo Temer) quanto ao enfrentamento da crise da Venezuela. Convém destacar alguns trechos da sua resposta na forma do referido artigo, um dos documentos mais lúcidos e corajosos produzidos por um diplomata que não se degrada na cumplicidade com ditaduras nem se esconde na omissão:

 “O ´consenso´ na política externa, com sua “maturidade” e “equilíbrio”, permitiu ao longo desse período a subida de Chávez na Venezuela, o predomínio crescente do bolivarianismo na América do Sul concebida como um bloco socialista, a consolidação de Chavez e Maduro no poder, a corrosão progressiva de todos os elementos do Estado Democrático de Direito naquele país […]Se permanecesse aquele maravilhoso consenso, não haveria hoje um pingo de esperança para a Venezuela, e Maduro estaria firme, sem qualquer receio de perder o poder, sorrindo ao ver as crianças venezuelanas comerem lixo. Eu vi com meus próprios olhos essas crianças e seus pais, nas fronteiras da Colômbia e do Brasil com a Venezuela. Eu ouvi os venezuelanos em Cúcuta gritando “obrigado Brasil” e apertei suas mãos, eu escutei suas vozes rasgadas de esperança, gritando “Venezuela libre!” e gritei junto com elas. Eu senti o seu enorme anseio de que agora, finalmente, graças em grande parte ao novo Brasil, os venezuelanos possam recuperar sua pátria e sua dignidade humana, com o fim iminente da ditadura. Eu abracei Juan Guaidó, esse líder destemido que, sob risco de vida, corporifica o sonho de uma nova Venezuela, vi os índios pemones que viajaram até Brasília, grande parte do trajeto a pé, e saudaram Guaidó em frente ao Itamaraty, e entoaram um cântico por seus parentes massacrados por Maduro – tudo isso enquanto Rubens Ricupero e Fernando Henrique Cardoso escreviam seus artigos espezinhando aquilo que não conhecem, defendendo suas tradições inúteis de retórica vazia e desídia cúmplice.”

Existem tradições e tradições. A tradição recente da diplomacia brasileira foi de leniência, omissão e covardia diante das ditaduras de esquerda; quando não de apoio, inclusive financeiro, através de corrupção. Parece-nos que o chanceler Ernesto Araújo está recuperando a melhor tradição diplomática brasileira, aquela que assume responsabilidades, aquela que decide, constrói e realiza; aquela diplomacia que se somou aos Aliados para vencer o nazismo, aquela diplomacia do Barão do Rio Branco, que fez o Brasil maior, tanto em sentido territorial quanto em sentido moral.

O subtítulo do artigo de Fernando Henrique é a seguinte pergunta retórica: “insistirá o governo do Brasil no descaminho de subordinar a política externa a uma ideologia?” Com que autoridade, perguntamos nós, os que permitiram pela covardia e pelo discurso lasso o fortalecimento da ditadura vizinha acusam de ideólogo aquele que vai hoje contra ela? Desde quando o enfrentamento corajoso de vícios diplomáticos baseados na inação e na covardia passou a ser considerado uma ideologia? O fato é que quem se move causa perturbação em meio a águas paradas, mas sem a agitação das águas tudo se putrefaz. Há uma ideologia morta e podre a envenenar a vida e a mentalidade das pessoas: em sua vestimenta filosófica chama-se materialismo, em sua roupagem política chama-se marxismo e em sua máscara justiceira chama-se socialismo ou comunismo. Combater essa mazela na teoria e na prática não é ser de direita nem de esquerda, é ser sensato.

A inação diante do mal é o assentimento ao mal por covardia. De que adianta permanecermos fiéis a uma diplomacia de faz de conta, célere em resolver querelas comerciais, mas impassível diante de questões humanitárias prementes? O liberalismo econômico deveria ir de mãos dadas com o liberalismo político e o liberalismo político não deveria olvidar um sentido mais amplo e irrestrito de liberalismo: aquele que não aceita a supressão da liberdade alheia quando está em seu poder agir para assegurá-la. O ímpeto de liberdade é mais antigo que o liberalismo como política ou prática econômica. O ímpeto fraterno, que não aceita o irmão subjugado à tirania é anterior a cálculos pragmáticos de prejuízos nas exportações. Alguns acham, por exemplo, que a medida mais importante para a diplomacia brasileira agora é assegurar a venda de proteína animal  a mercados árabes e ao Irã; outros acham que o mais importante agora é que os venezuelanos tenham alguma proteína para comer.