Massacre em Suzano: decadência espiritual e politização de tragédias, por Catarina Rochamonte


Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Por Catarina Rochamonte
catarina.rochamonte@gmail.com

Não adianta mais negar a obviedade de que a sociedade está adoecida. Indivíduos doentes somatizam uma sociedade doente. O que envolve tudo isso, apesar de extremamente complexo e passível de diversas interpretações tem a ver, no entanto, com algo simples de ser entendido, mas que é negado por uma grande parcela da população: o vazio existencial como sintoma da nossa decadência espiritual. Educação desprovida de amplitude espiritual, vida profissional desprovida de sentido existencial, relações afetivas focadas em banalidades e consequentemente incapazes de se sustentar diante das intempéries da vida: tudo isso configura a atual civilização adoecida por negar aquilo que é mais propriamente humano: a alma, o espírito, os valores eternos, os sentimentos reais.

Certa vez li, algures, uma crítica acerca do diagnóstico supostamente banal e constrangedor da depressão como sendo falta de Deus. “Não é falta de Deus”, diziam, “é uma doença”. De fato, parece até cruel e insensato apontar assim uma situação real, de contornos bem definidos dentro de uma patogênese cientificamente chancelada. Não obstante, há que se considerar a verdade inerente à habitual afirmação. O distanciamento de Deus, que pode ser entendido como distanciamento daquilo que nos nobilita como seres humanos e que nos sensibiliza a alma, dinamizando-a para a atividade em meio às adversidades é efetivamente a causa de muitos distúrbios psíquicos. É claro que o tratamento na esfera própria da medicina por meio de fármacos pode se fazer necessário, mas compostos químicos não podem responder senão superficialmente por aquilo que é uma doença da alma, cuja cura pressupõe tempo, autoconhecimento, amor e abnegação daqueles que estão diretamente envolvidos com o portador desse tipo de doença.

Algo que tem me chamado atenção nos últimos acontecimentos trágicos que repercutiram no noticiário do Brasil desde o início desse conturbado ano (rompimento de barragem em Brumadinho, incêndio em alojamento de adolescentes, queda de helicóptero com jornalista renomado, morte de neto de 7 anos de ex-presidente e agora o massacre na escola pública em São Paulo) é a incapacidade que muitas pessoas demonstram de separar e, por conseguinte, interpretar dentro de uma outra ordem de valores aquilo que deveria induzir à cumplicidade entre os seres humanos, apesar das  divergências de opiniões e posicionamentos político-ideológicos.

O acontecimento trágico está para além das idiossincrasias de nosso caráter que geram atrito na convivência privada e nas redes sociais e deveria estar distante das comezinhas contendas políticas do cotidiano. Se a solidariedade ainda não triunfa diante da morte e do horror como o  sentimento digno de expansão não deveríamos também abrir a boca para vomitar interpretações apressadas que mobilizam essa ou aquela ferramenta teórica que dominamos em nossa área de análise. Pouco importa, em determinados momentos, mais especificamente no momento do choque, da dor e do espanto com o terror se tal ou qual política pública o favoreceu; pouco importa se a tragédia supostamente corrobora a sua ou a minha impressão das coisas. Não naquele momento. E aquele momento, por ínfimo que seja, no qual permanecemos irmanados pelo espanto diante da tragédia é relevante para a nossa humanização porque nos relembra que somos seres humanos, que existimos aparentemente à deriva (para aqueles que não creem) ou estranhamento testados pelo sofrimento.

É pelo sofrimento que muitas vezes o espírito dá conta de si, despertando de sua letargia na carne. Politizar tragédias é sintoma, portanto, de opacidade espiritual; é sintoma da degenerescência intelectual de quem está comprometido até o último fio de cabelo com uma visão de mundo restrita e limitada, que pode até dar conta aqui e ali de algumas complexidades da vida social e política, mas que desconhece a dimensão existencial na qual estamos imersos, pois não a sente nem faz questão de senti-la, já que a vontade de instrumentalizar o luto alheio é mais forte do que a sensibilidade humana para dividi-lo em um sentimento genuíno e espontâneo de compaixão.