Leopoldo Cavalcante marca um encontro com Klee e Benjamin

"Deve-se ir ao museu, ver a obra de perto e sentir quão longe se está dela, como ir a uma igreja e sentir Deus na ausência d’Ele".


Leopoldo Cavalcante é criador/autor do @resenhador e articulista de cultura do Focus. Estuda Jornalismo na Cásper Líbero (SP) e Direito no Largo São Francisco (USP). 

O anjo de Klee em Benjamin

Por Leopoldo Cavalcante*

As figuras angelicais eram caras a Paul Klee (1879-1940). Uma das suas obras mais famosas é de um ser celestial abstratamente andrógino, entre o angelical e o satânico. O quadro em questão é o Angelus Novus, essencial nos escritos do filósofo frankfurtiano Walter Benjamin (1892-1940). Nele, Benjamin viu o anjo da história, com “seus olhos escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. […] seu rosto […] dirigido para o passado.” O anjo de Klee gostaria de ajudar os mortos, juntar os fragmentos do passado, “[…] mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”

Aos aventureiros de primeira viagem nas abstrações da Escola de Frankfurt, existe uma bifurcação de afinidade: os pessimistas pedantes vão por Theodor Adorno; os pessimistas românticos vão por Walter Benjamin. A visão catastrófica do progresso em Benjamin refletia sua ressalva com a razão técnica, ou seja, a razão utilizada em prol de um “desenvolvimento” tecnológico/científico. Atenção à palavra “ressalva”. Diferente de Adorno, Benjamin não fora, por um bom tempo, invariavelmente contrário à ciência e às culturas modernas. Próximo à segunda guerra mundial, contudo, sua utopia no progresso chegou a níveis de desespero, levando-o a adotar um pensamento mais irracionalista de esquerda, abraçando a junção de máximas “a origem é a meta” e “a esperança no passado”, ou seja, a negação do tempo presente e o culto a uma retroutopia, mal que assola parte considerável da nova direita, fiel a um passado que nunca existiu.

O romantismo marxista de Benjamin o fez capturar a expressão “aura”, vinda de Ludwig Klages. A definição de Benjamin para a aura fora: “o aparecimento único de uma distância, por mais próxima que possa ser.” A lógica é a do culto. Estar frente a frente com a exposição artista, mesmo que perene – como um quadro na parede; diferente do teatro, passageiro por natureza -, é ter a sensação tanto do pertencimento da obra no contexto da tradição na qual ela está inserida quanto na distância entre o observador e a arte. Nessa visão romântica, colar um pôster da Guernica na parede de casa não significa ter contato com a Guernica de Picasso. Pelo contrário: é uma afronta ao artista e à aura da obra. Deve-se ir ao museu, vê-la de perto e sentir quão longe se está dela, como ir a uma igreja e sentir Deus na ausência d’Ele.

Como bem exaltou José Guilherme Merquior no seu “O Marxismo Ocidental”, a “prosa (de Benjamin) lúcida e sedutora brilha como uma joia rara em meio à prolixa papelada do marxismo ocidental”, o que o concedeu lugar no panteão dos críticos e de ter sido “o maior ensaístas alemão do século XX”. Aos que se afastaram do marxismo em algum momento da vida, como foi meu caso, o apreço por Benjamin é o mesmo de manter “o carinho por uma primeira namorada”, feliz expressão de Merquior. Longe de um preciosismo com a obra de arte, valorizo poder colar a foto que tirei do Angelus Novus nesse site. Aliás, uma foto… de uma foto.

No Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, obras de Paul Klee estão em exposição. Pinturas de infância, paisagens, desenhos antinazistas, abstrações, anjos etc., mas apenas um fac-símile, no subsolo, do Angelus Novus. Ao lado, uma placa com a citação completa do significado atribuído pelo Benjamin ao desenho e uma análise breve da Taisa Palhares. Ela lembra do “esforço de Benjamin para manter esta obra sempre perto de si até o limite do possível e salvá-la da destruição real.” Bem, Benjamin morre em 1940, tendo a obra ido parar na mão, respectivamente, de Georges Bataille e Adorno, até, em 1972, chegar em Jerusalém, onde faz parte do acervo do Museu de Israel. Para um militante pela preservação da aura na obra de arte, é um tanto irônico que sua ideia do anjo da história esteja sempre adornada pela reprodução do quadro de Klee, distante de Benjamin, mas ao menos salva da destruição parcial.

*Com este artigo, Leopoldo Cavalcante abre a sua temporada como articulista e crítico de cultura do Focus.