Brexit – Péssimo para a Europa, bom para o Brasil, por Igor Lucena


Igor Macedo de Lucena é economista e empresário; Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs; Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales

Brexit é um acrónimo para “Britain Exit” e se refere a saída do Reino Unido da União Europeia, decidido por meio de um referêndum no dia 23 de junho de 2016. Durante um período de dois anos o Reino Unido deveria ter desenvolvido um acordo em conjunto com a União Europeia sobre como ficarão as relações nos mais diversos aspectos, desde tributos passando por regras de imigração e legislações sobre importação e importação.

A Primeira-Ministra Theresa May do Partido dos Trabalhadores (esquerda liberal) trabalhou durante 2 anos e aprovou seu plano de saída do maior acordo de livre comércio do mundo. Entretanto em três votações na Câmara dos Comuns seu projeto foi reprovado. Na última semana, o Parlamento tomou conta do processo e mesmo assim, depois de mais 4 votações sobre temas específicos, nada foi decidido.

Hoje os membros do Parlamento não sabem como responder ao resultado do referendo. Não aceitam o plano de Theresa May, não querem manter uma união aduaneira, não querem manter pagamentos para a União Europeia, não querem a livre circulação de pessoas e ao mesmo tempo querem manter acessos ao mercado comum, algo inadmissível para os tratados da União Europeia.

O Reino Unido chegou ao que chamamos de deadlock ou impasse, pois nenhuma opção de Brexit é aprovada e nem mesmo um novo referendo é aceito pelos parlamentares. Já se fala que talvez a única solução seja uma nova eleição parlamentar. O maior problema é que quando 51,8% dos ingleses decidiram por sair da UE, ninguém explicou para a população como seria a saída e quais seriam as consequências.

O resultado prático é que o tempo de negociação já acabou, uma extensão de duas semanas foi dada e já está próxima do fim. Caso nenhum acordo seja votado ocorrerá o que chamamos de hard Brexit, uma saída sem acordos, sem legislação e sem parâmetros. O resultado prático é que veremos uma queda abrupta do poder de compra da libra esterlina, uma saída de capitais e de empresas da Inglaterra e muito provavelmente um período de recessão na terra da Rainha.

Levando em consideração que o Reino Unido é composto por quadro países, a Inglaterra, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda do Norte, existem dois fortes movimentos que podem destruir o Reino Unido. O primeiro é um novo referendo sobre a independência da Escócia e o segundo é a possibilidade de reunificação da Irlanda do Norte com a República da Irlanda, dessa maneira esses dois países que votaram em peso contra o Brexit poderiam negociar sua adesão, voltando a fazer parte da União Europeia e do single market.

Do ponto de vista da União Europeia tende a ocorrer a saída de um de seus mais importantes membros, tanto do ponto de vista militar quanto do ponto de vista de consumidor e fornecedor de bens e serviços para o continente. Os ingleses são grandes investidores no continente europeu e a tendência é que países como Alemanha, França, Espanha, Portugal, Espanha e Itália passem a exportar menos para o Reino Unido.

Em toda crise, encontramos oportunidades e neste caso o Brasil pode ser bastante beneficiado. De acordo com dados de consultorias internacionais como a Eurasia e o World Economic Forum países como Brasil seriam um dos ganhadores nesse jogo pois acordos comerciais seriam negociados diretamente entre Londres e Brasília de maneira mais eficiente, com possibilidade de ganhos anuais passando de US$ 1,1 bilhão. A China teria ganhos potenciais de US$ 3,5 bilhões, assim como outros países emergentes também.

Do ponto de vista global a saída de um Estado como o Reino Unido significa uma derrota para a globalização e apresenta um passo para trás na ideia do liberalismo econômico, aonde acordos comerciais e redução das fronteiras montaram a maior zona de comércio do mundo com 512 milhões de habitantes e com um PIB de US$ 18,7 trilhões, acima da China e dos Estados Unidos.

Procurando manter a estabilidade global e ao mesmo tempo garantindo a soberania dos cidadãos ingleses sobre dizer se aceitam as diversas opções de Brexit que foram negociadas pelos membros do parlamento inglês, talvez o mais correto seria um novo referêndum com informações atuais sobre as consequências da manutenção ou saída da União Europeia.

Igor Macedo de Lucena