A solidão dos lúcidos

"Celerados que tencionam a corda sem se dar conta de que, uma vez partida, ela arrastaria a todos para o mesmo fundo escuro da crise"


Por Ricardo Alcântara
fortaleza.ricardo@gmail.com

Há uma corda tensa, estendida sobre o abismo. Em cada margem, grupos antagônicos disputam o monopólio da virtude. Uns se julgam acima da lei e podem cometer no poder os mesmos desvios que tanto condenavam sem sofrer sanções, já que têm a senha de acesso à emancipação da humanidade. Outros, em sua ânsia de ordem, julgam as leis insuficientes e clamam por um ato de força que restaure, sob o império do medo, uma pátria isenta de controvérsias. Em ambos, a mesma pretensão: como corretores do paraíso, vendem o que não conhecem: ambos, quando receberam a tarefa, conduziram nações ao terror, deixando para trás economias em ruína e traumas psicológicos irreparáveis.

Tão contaminado está o exercício da política partidária no país que é quase impossível penetrá-lo sem contrair os vírus que esterilizam a conduta de quem queira mudar as coisas. Muito pior do que ver a produção nacional apodrecer no congestionamento das rodovias (por motivações legítimas, mas métodos condenáveis) é o desabastecimento de autoridade que faz escassa a oferta de alternativas consistentes para a crise. A paralisação dos caminhoneiros é uma boa metáfora para o governo Temer: ele, igualmente, não anda, nem deixa passar. É um governo tão desastroso que tanto sua continuidade quanto sua interrupção se tornam alternativas igualmente críticas.

Enquanto isso, a insensatez marcha na direção do impasse. Enquanto os caminhões paravam o Brasil, o plenário vazio do congresso nacional (afinal, era sexta-feira e ninguém é de ferro) era o retrato acabado da amplitude e profundidade do abismo que nos separa – nação e Estado. Os que tensionam a corda sobre ele, incitando o agravamento do quadro, são aqueles mesmos que, dito no início, pouco prezam a lei: uns a consideram insuficientes; outros, feitas para uso exclusivo de seus adversários. E aqueles que procuram se manter fiéis aos preceitos pacientes do “pior regime (à exceção dos demais), a Democracia”, vivem a solidão de sua lucidez expostos aos ataques daqueles celerados que tencionam a corda sem se dar conta de que, uma vez partida, ela arrastaria a todos para o mesmo fundo escuro da crise.