A pátria sem chuteiras

Em artigo, o jornalista Fábio Campos diz que o fim da Copa para o Brasil abre oficialmente a temporada de definições das alianças nacionais


Por Fábio Campos (artigo publicado no O Povo deste domingo)

Antes do jogo de sexta-feira, preso à lógica e ao desejo de torcedor, escrevi o seguinte: “O Brasil passou pela Bélgica e vai pegar a temida França, seleção que tem sido o doloroso calo nacional desde o torneio de 1986. Tudo pode virar cinza na semifinal da próxima terça-feira. Ou a euforia e a paralisia pode perdurar por mais alguns dias. Vencendo a Gália, o Brasil vai à final do dia 15, um domingão ensolarado. Até lá, nada que dependa da política se moverá”.

Pois é. Quero crer que o analista político é mais sóbrio que o torcedor. Tive que refazer o primeiro parágrafo logo após a derrota. A Bélgica venceu. De quatro em quatro anos, a Copa do Mundo coincide com as eleições brasileiras. Uma velha questão: o resultante do torneio tem alguma influência na resultante da campanha eleitoral? É muito provável que não. Porém, enquanto a canarinha estiver no jogo, terá grande influência no desenvolvimento das articulações políticas. A frase já é típica: “Depois da Copa a gente resolve”. Bom, a Copa terminou para o Brasil. Portanto, está oficialmente aberta a temporada política.

No que diz respeito à disputa presidencial, um quadro começa a se delinear. Bem ao nosso estilo político, claro. Há até uma “direita”, o que já seria uma novidade em um Brasil onde apontar alguém como de “direita” ainda se trata de uma ofensa. Um impropério, embora haja sinais de que isso está mudando. Fala-se que Jair Bolsonaro encarna o ideário da direita. Será?

Bolsonaro é uma herança da ditadura militar, o regime que a esquerda tratou de denominar como “direita”. A denominação foi a forma de se firmar como contraponto. Toda esquerda precisa de uma direita e esta não existia organizada e com dimensão no Brasil. Se não existia, precisava ser criada. Daí o peso negativo que o termo “direita” ganhou no Brasil.

Para a esquerda, caracterizar o regime militar como nacionalista não parecia uma boa ideia. Afinal, muitos ícones de parte da esquerda brasileira são nacionalistas. São os casos de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola. Porém, é inescapável: o componente ideológico que melhor caracteriza o regime dos militares a partir de 1964 é o nacionalismo e, claro, o anticomunismo.

Pela sua trajetória, pelos seus votos em sete mandatos de deputado federal, Bolsonaro está muito mais para o nacionalismo do que para a direita, considerando o sentido clássico desse termo. Ora, primordialmente, mundo afora, ser de direita significa priorizar direitos civis e liberdades individuais. É o oposto do que praticou a amada ditadura de Bolsonaro.

No mundo, embora com variações, a direita é defensora do liberalismo econômico, das liberdades e do estado de direito. Por isso, a direita é a fundadora do que hoje nos acostumamos a chamar de democracia, o regime da convivência civilizada entre os diferentes e que estabelece a política e as leis como padrões para o progresso e a solução dos conflitos.

Mas, voltemos ao quadro das candidaturas a presidente. Sim, Bolsonaro é um dos extremos do processo. Sem se preocupar com o mérito do termo e para prejuízo do termo, vai ser sempre situado como “de direita” pela maioria dos analistas de política.

E a esquerda? Como a lógica costuma ditar a prática política, o PT não abrirá mão de ter seu próprio candidato a presidente. Irá de Lula até ser barrado pela Justiça Eleitoral. Até lá, já fez espuma e movimento suficientes para indicar o substituto, que tende a ser Fernando Haddad. A expectativa não confessada da estratégia é que o ex-prefeito paulistano seja o herdeiro da massa de votos de Lula.

Dá para o PT ganhar a eleição? Não creio provável. Dá para chegar ao segundo turno? É possível. Quem é o mais prejudicado pela estratégia petista? Fácil: Ciro Gomes. Afinal, quem tende a se manter fiel a Lula e ao PT é o eleitorado tradicional da esquerda e os eleitores mais pobres que idolatram o ex-presidente.

Onde se coloca Ciro no espectro ideológico? Centro-esquerda é o que melhor lhe cabe. Ciro é tão pragmático na política quanto foi e é Lula. Alia-se com todas as forças que se dispuserem a conversar e a apoiá-lo.

Marina Silva, a senhora das florestas, é outro obstáculo para Ciro. Impressiona como após quatro anos fora do noticiário, sem fazer nenhum esforço político, a filha de cearenses ainda está na mente de uma boa parcela dos eleitores. Tanto que aparece na frente de Ciro em todas as pesquisas. E sua ideologia? Marina é fundadora do PT, rompeu com o partido, mas não com a esquerda. Entendido?

Curioso é o “centro”. Há uma multidão disputando esse espaço, que, na verdade, é de centro-direita. De tão confuso e tão repleto de oportunistas, esse setor acabará sendo dizimado na campanha. Fala-se que o pragmatismo se imporá unindo esse setor em torno de um ou no máximo dois nomes. Por enquanto, são sinalizações sem nitidez.