O zumbido das colmeias. Por Angela Barros Leal

Em sua crônica da sexta-feira, a escritora expõe os “atos desconfortáveis, deselegantes, porém cotidianamente reais, parte do roteiro da nossa comédia humana”. É a vida nos condomínios


Abelhas. Foto: Freepik

Uma amiga me conta sobre o que se passou no prédio residencial onde ela mora. Mais um desses desentendimentos esperados entre pessoas que compartilham paredes, pisos, tetos e encanamento. Fatos desconfortáveis, deselegantes, porém cotidianamente reais, parte do roteiro da nossa comédia humana.

A primeira vez que o morador do quinto andar mostrou as garras, ela diz, tinha certa razão. As vizinhas do terceiro andar costumavam estacionar seus carros desrespeitando a linha amarela que separava as vagas de garagem destinadas aos dois apartamentos, demarcadora dos respectivos territórios. (Ah, a briga por territórios. A história da Humanidade.)

Como o direito de um vai até onde começa o direito do outro, prossegue minha amiga, o vizinho do quinto – também conhecido como “Quinto dos Infernos” – explicitou o tamanho de sua insatisfação: convocou um serralheiro, que concretou duas argolas em cada uma das colunas sustentadoras do edifício, e balizadoras das vagas, prendendo a elas uma grossa corrente de ferro. Nenhum veículo estranho avançaria sobre suas fronteiras.

O fato rendeu um zum-zum-zum de comentários de quem vive, como vivemos, em colmeias de casas empilhadas umas sobre as outras. O fato foi digerido, até que o vizinho dela encontrou, outra vez, algo para reclamar. A vizinha de cima (uma senhora querida por todos, na informação de minha amiga) cultivava primaveras e jiboias na jardineira externa da varanda, belas plantas coloridas que lançavam galhos para os lados, para cima e para baixo. Ali, literalmente, morava o perigo.

Pouco preocupado com a preservação da Natureza, o vizinho do quinto enxergou um feroz inimigo na ramagem vinda cortesmente do alto, disposta também a embelezar e emoldurar sua varanda. A moradora do sexto andar não tardou a perceber que suas plantas se moviam em arrancos e estertores, que a areia se espalhava na sala, que as raízes se encontravam quase expostas.

Investigando cá e lá, pelos canais usuais da vida coletiva, descobriu ela que o vizinho de baixo agarrava-se aos galhos mais extensos que ousavam alcançar sua varanda. Qual um Tarzan nos cipós da floresta, demonstrando feroz determinação, ele puxava os galhos tentando erradicar o que deveria ver como algum tipo de ameaça vegetal.

Conto a ela sobre a vizinha solitária de outra amiga. Até ser removida do prédio por uma dupla de homens fortes, de jalecos brancos, era filmada pelas câmeras internas atirando ovos na porta do elevador. Costumava chamar a polícia, de madrugada, para entrar em outros apartamentos onde, segundo ela, havia pessoas que a perseguiam. Ameaçava, em altos brados, incendiar as pontas dos lençóis que o vizinho de cima estendia na janela, e que o vento levava a se moverem, de vez em quando, diante da janela dela.

E conto ainda mais uma, pois que os casos que me alcançam os ouvidos são tantos e tão frequentes, embora preservados dos ares públicos por elegante silêncio. Outra residente, de outro prédio, se fez conhecida pelo empenho em menosprezar demais moradores e funcionários.

Ninguém era bom o suficiente para repartir com ela o mesmo ar. Por último, resolveu direcionar o foco a um motorista que costumava sentar no hall de entrada.

Na versão dela, ao ser posteriormente confrontada pelos patrões do rapaz em reunião de condomínio, havia mantido com ele conversa civilizada. Solicitara, com extrema fineza, que não sentasse sempre no mesmo lugar do sofá para não desgastar o móvel. Aconselhara que permanecesse alguns minutos na ponta esquerda, passasse em seguida para o meio do sofá, e depois de outro tanto de minutos se acomodasse na ponta direita.

O motorista viu-se carente de mais detalhada orientação. Quanto tempo deveria permanecer sentado em cada divisão do sofá. Se era mandatório seguir a sequência indicada de movimentos. Se poderia variar, indo de uma ponta a outra e deixando o assento do meio para o pouso final. Mas entendeu muito bem quando ela decretou, por cima do ombro, que o hall do prédio não era lugar para “esse povo”.

Agora comentam que a dita vizinha está de mudança. Considero mais provável que já esteja a caminho do prédio dela aquela dupla de homens fortes, de jalecos brancos, anteriormente mencionada.

Quanto à maioria de nós, que igualmente se sentiria melhor morando em ilhas desertas, no topo de montanhas ou no silêncio das florestas, não há outra saída além de nos ajustarmos ao zumbido de nossas colmeias.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.