O que deve se valorizar no mercado financeiro com a Selic baixa? Por Henrique Lyra Maia

"Quanto mais tempo a Selic permanecer em patamares historicamente baixos, maior será o incentivo para o investidor migrar seus aportes para a renda variável, conforme expliquei nesse artigo AQUI (a queda da Selic e avalanche para Bolsa)."


Henrique Lyra Maia, Bacharel em Administração de Empresas, Especialização em Administração Financeira e Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza, Especialização em Gestão Empresarial pela FGV e Doutorando em Contabilidade e Finanças pela FUCAPE Business School. Sócio da LYRA&MAIA Consultores Associados.

Em tempos de Selic baixa, a renda fixa acaba se tornando um incômodo para boa parte dos Brasileiros que praticamente não utilizavam outros veículos para aportar seu capital. O Brasil nos acostumou a multiplicar o capital apenas utilizando veículos mais simples e sem correr tantos riscos relativos.

A Selic a 2,25% a.a. faria a poupança – infelizmente um veículo muito popular no Brasil – render míseros 1,6% a.a. e a inflação projetada para 2020 pelas expectativas de mercado é de 1,6% a.a., ou seja, o investidor de poupança teria ganho real de 0% .

No entanto, a realidade agora pode ser diferente, pelo menos no curto e médio prazo. Nesse cenário de juros baixos, a bolsa recebeu uma avalanche de investidores brasileiros incomodados com os retornos da renda fixa. Para se ter uma ideia, saímos de aproximadamente 800 mil investidores pessoa física em 2018 para 2,4 milhões em 2020, fazendo a bolsa multiplicar por três a quantidade desses investidores.

Quanto mais tempo a Selic permanecer em patamares historicamente baixos, maior será o incentivo para o investidor migrar seus aportes para a renda variável, conforme expliquei nesse artigo AQUI (a queda da Selic e avalanche para Bolsa).

Nos parágrafos a seguir, faço uma estimativa de quais segmentos dos ativos de riscos esses investidores podem migrar seus aportes, fazendo com que haja valorização desses ativos, devido a maior procura por eles.
Ouro. Está havendo um incentivo monetário muito grande em todas as economias do mundo e as commodities em geral devem sofrer aumento de preço, no entanto, o ouro provavelmente será um refúgio para abrigar reserva de valor.

O ouro já serviu como moeda por séculos e tem sua reserva de valor mantida por milênios. Com o excesso de impressão de moeda ao redor do globo, fará com que muitos agentes financeiros coloquem uma porção maior em ouro em vez de títulos do governo, que basicamente lastreia em moeda que está se depreciando. Esses títulos rendem a taxas negativas ou muito próximas de zero, fazendo com que a liquidez do sistema fuja para ativos que são protegidos pela inflação e o ouro seria uma forma de proteção.

Note que o dólar perdeu valor em relação ao ouro após os incentivos monetários. Antes do COVID-19 estava na casa dos $1.678 dólares em 9 de março, hoje está em $ 1.821 dólares, o ouro valorizou aproximadamente 8,5% em relação ao dólar. Essa linha de valorização provavelmente deve se manter ao longo do tempo na medida em que o comércio mundial volte a funcionar e a moeda a circular.

Há opções acessíveis ao investidor doméstico como fundos de Ouro (alguns contemplando variação cambial ou “hedgeado”), há opções na própria B3 como OZ1D, OZ2D E OZ3D, sendo OZ1D o ativo mais líquido entre os três.

Ações pagadoras de dividendos e baixa volatilidade. Uma outra classe de ativos que irá se valorizar são as próprias ações e provavelmente as pagadoras de dividendos e com baixa volatilidade (no jargão financeiro, um beta defensivo). Em geral essas ações estão em setores mais previsíveis, essenciais à atividade econômica e social, em setores maduros ou são menos sensíveis aos ciclos econômicos. Para citar exemplos temos o setor bancário, saneamento e elétrico, que são setores mais perenes e tem empresas sólidas. Há também empresas que pagam bons dividendos e que tem baixa volatilidade, mas que não necessariamente estão nesses setores citados.

Ações consagradas. Essas ações são aquelas bem conhecidas e que basicamente qualquer investidor médio já teve ou tem na sua carteira atualmente. São empresas que tem posições competitivas muito fortes no seu segmento, tem longa trajetória de sobrevivência e de bons resultados. Para citar exemplos temos Vale, Petrobrás e Wege.

Fundos imobiliários. Particularmente, eu acho que fundos imobiliários não seria uma boa opção no momento, pois há muitas boas ações que pagam dividendos maiores que fundos imobiliários e tem maior potencial de valorização relativa. Além disso, muitos fundos estão com inadimplência maiores, reduzindo os dividendos pagos e ainda estão sofrendo perda de clientes devido a adoção do modelo home office por parte de muitas empresas.

No entanto, a maior característica dos fundos imobiliários são os pagamentos de dividendos mensais, como uma espécie de aluguel recorrente e essa modalidade mesmo que esteja sendo impactada no momento, sofre menos volatilidade das suas cotas, podendo ter aderência maior daquele investidor que está começando a migrar seus investimentos para ativos de maior risco.

Esse artigo não se trata de recomendação de compra ou venda de ativos, é apenas uma visão do autor sobre o que deve se valorizar diante do cenário atual. A recomendação deve ser feita por um profissional de investimentos que avalie cada investidor individualmente em relação à sua idade, condição financeira, apetite ao risco, número de dependentes, grau de risco e volatilidade da renda atual e volume de recursos disponíveis para aplicação.

Há chance relevante da SELIC cair para 2% a.a., fazendo com que o ganho real da poupança seja negativo.