O poder da vacina, por Antônio Vasques e Nonato de Castro

" A politização da vacina resultou em uma situação dramática, com dependência total de abastecimento via importação de IFA para envasamento ou pela aquisição de vacinas prontas"


Por Antônio Vasques e Nonato de Castro
Post convidado

Para total cobertura vacinal da população cearense, de cerca de 1,3 milhão de  adultos com mais de 65 anos (ver gráfico abaixo), são necessárias 2,6 milhões de doses das vacinas Coronavac ou Oxford. Até o dia 7 de fevereiro foram disponibilizadas 396,2 milhares de doses dessas vacinas, atendendo apenas 15% do total que seria necessário aos idosos.  Essas doses de vacinas que chegaram ao Ceará deverão vacinar, por enquanto, a população maior de 75 anos, indígenas, idosos em casa de permanência e o pessoal médico da linha de frente do enfrentamento da Covid19. Ou seja, é muito pequena, para não dizer insignificante,  a oferta.

Até o dia 4 de fevereiro apenas 1,5% da população cearense foi vacinada. Ver gráfico abaixo.

Há uma correlação direta entre número de pessoas vacinadas e a diminuição de casos da pandemia, como está acontecendo em países que avançaram na vacinação, como Israel e Estados Unidos. Nos Estados Unidos (ver gráfico abaixo) com pouco mais de um mês de início da vacinação (curva verde), até 16 de janeiro a curva de internações por Covid19 ( curva azul) está em descenso apenas duas semanas do início da vacinação. Implicitamente está claro que está havendo uma drástica redução da taxa de reprodução Re do vírus, que certamente ficou menor do que 1 nos locais aonde foram aplicadas as vacinas.

No gráfico 1, abaixo, calculamos o valor da taxa de reprodução Re atual para o Estado do Ceará  com dados do Integrasus até o dia 4 de fevereiro.  Pode-se verificar que Re está com valor superior a 1, o que está acarretando o aumento de infecções desde a segunda semana de dezembro, em função de aglomerações da população.

Para demonstrar o poder da vacina, fizemos um exercício: definimos as taxas de cobertura vacinal ideal que seriam necessárias em caso de oferta geral de vacinas. Posteriormente definimos arbitrariamente em 10% a porcentagem da população cearense que deveria estar já coberta pelas vacinas até agora ofertadas: a Coronovac, do Instituto Butantan e a Oxford da Fiocruz.

Realizamos uma projeção da taxa de Re até dezembro, concomitantemente com o aumento gradual da taxa de cobertura vacinal. Analisando-se o gráfico 2, abaixo, pode-se inferir que, com o aumento sistemático da cobertura vacinal, em julho a pandemia estaria sob controle no Ceará, quando R estaria inferior a 1. Na confluência dos meses de junho e julho a contaminação diminuiria sensivelmente. Em novembro restaria com o valor de 0,5, com total controle da pandemia.

Infelizmente isto não acontecerá porque o Brasil não priorizou a aquisição de vacinas ou produção interna  do Insumo Farmacêutico Ativo- IFA como as únicas estratégias capazes de vencer a pandemia. Não temos perspectivas a curto e médio prazos para cobertura vacinal digna de pelo menos 70% da população brasileira. E muito menos a do Ceará. Isto somente acontecerá em 2022.

A politização da vacina resultou em uma situação dramática, com dependência total de abastecimento via importação de IFA para envasamento ou pela aquisição de vacinas prontas.

A tragédia está anunciada. Mas poderia ser evitada caso as taxas de cobertura vacinal fossem as que utilizamos neste trabalho.

 

Antônio Vasques é estatístico, Doutor em Ciências  pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), professor associado da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

 

 

 

 

 

 

Nonato de Castro é estatístico, doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor adjunto da Universidade Estadual do Ceará (UECE).