O impacto da Covid-19 em governos, empresas e pessoas. O que virá depois? Por Wilton Daher


Wilton Daher é mestre em administração e vice-presidente do Ibef-Ce

O impacto da Covid-19 expõe a fragilidade do sistema financeiro mundial, pós longo ciclo de expansão econômica que resultou severo choque de ausência de demanda. A elevada dívida global equivalente a US$ 255 trilhões, correspondente a 320% do PIB de US$ 80 trilhões do G-20 (maiores economia do planeta) é a principal razão desse colapso.

Esclarecendo melhor: Os Estados Unidos (EUA) detêm PIB (produção de riqueza) de US$ 22 trilhões (23,6% do PIB global) e uma dívida equivalente a 107% ao seu PIB; a China detém PIB de US$ 14 trilhões (15,5% do PIB global) e dívida de 55,3% do PIB; o Japão tem PIB de US% 5 trilhões e dívida  2,5 vezes do PIB, principais países da Zona do Euro têm PIB conjunto de US$ 5 trilhões e dívida média de 86%. Todos juntos geram 50% da riqueza nacional (posição estimada em dezembro/19).

O pensador chinês Confúcio (551 – 479ª.C) nos ensina: “Se quiseres prever o futuro estuda o passado”. Assim, vale a pena um breve histórico sobre eventos adversos ocorridos nos EUA na primeira década deste século, cujos desdobramentos atingiram negativamente principais mercados mundiais — antes da chegada da Covid-19, ressalte-se:

1ª. crise – Estouro, em 10/03/2002, da bolha conhecida por “dot.com”, relativa às primeiras empresas de tecnologia. Para sanear o caos financeiros instalado, o Banco Central americano (FED) injetou elevada soma de recursos para comprar títulos financeiros de empresas deficitárias, visando evitar colapso do mercado;

2ª. crise – Ataque terrorista às torres gêmeas ao prédio World Trade Center, em Nova Iorque, em 11/09/2001. Além de matar cerca de 3.500 pessoas, levou pânico e medo á sociedade americana. Novamente, o FED investiu expressivos recursos para reativas a economia que, posteriormente, em 2008, provocou outra bolha, “que ficou conhecida por “subprime”;

3ª. crise – Fraudes Contábeis Corporativas, em 2000, envolvendo grandes empresas, como a Eron, Worldcom, Xerox, Adelfia e muitas outras. Na época, houve revisão de três mil balanços, atingindo a reputação da Arthur Anderson, maior empresa de auditoria do globo, que a fez sair do mercado.

4ª crise – Fraudes nos financiamentos imobiliários (subprime), tendo ápice em 14/09/2008, com a quebra do Lehman Brothers, 4º maior banco de investimentos dos EUA,  fundado em 1850, além de outros menores, cujas consequências foram devastadoras para o sistema financeiro global. A experiência evidenciou, mais uma vez, que as más práticas de governança confirmam a tese de que é fácil manipular o lucro por meio do uso da “contabilidade criativa”, mas é difícil manipular o dinheiro. Para muitos estudiosos em finanças o “lucro é vaidade, dinheiro é realidade.

Tais eventos adversos obrigaram o FED a injetar vultosos recursos para irrigar a economia por meio da “compra” de títulos de liquidez duvidosa (QE – Quantitative Easing, ou junk bonds), resultantes do desastre fraudulento do mercado imobiliário americano, que, em seguida, contaminou países europeus e o Japão, compradores do “vírus derivativo” das hipotecas secundárias americanas.

No mesmo passo, bancos centrais do Japão e de países europeus intervieram para estancar suas crises e reativar suas combalidas economias mediante estimulo ao consumo, ofertando crédito com taxa de juros zero ou negativa. Tenha-se presente que já havia um choque de demanda instalado antes da Covid-19. Com a sua chegada, sinaliza-se que a verdadeira crise ainda está por vir.

A bióloga americana Laurie Garrett, possuidora de elevada formação acadêmica e autora de vários trabalhos científicos relevantes no âmbito de patógenos (hiv, sars e ebola), foi agraciada com o prêmio Pulitzer de jornalismo explicativo em 1996.

Em janeiro de 22020, quando o coronavirus tinha acabado de ser descoberto, a imprensa dos EUA voltou a recorrer aos seus conhecimentos científicos no sentido de saber se o problema era apenas da China ou de todo o mundo. Ela lamentou dizer que chegaria aos EUA e em outros países, em pequenas ondas, e que muitos não estariam preparados para enfrentar eficientemente o novo vírus.

Em 02 de maio de 2020, em reportagem do jornal The New York Times, sob o título; ”What Does She Foresse Next?”, fez as seguintes previsões: (i) o coronavirus se dissipará em pequenas ondas, em 36 meses, na melhor hipótese; (ii) haverá agitação popular, ao final da pandemia, na medida que a doença escancare a desigualdade social, e desabafou: “Se de algum jeito, os mais ricos ficarem ainda mais ricos com a pandemia, fazendo todas as coisas sacanas que fazem, chegará o momento em que sairemos da toca pensando ‘meu Deus’ não é só as pessoas que amamos que estão desempregadas sem poder pagar a hipoteca ou o aluguel, é que os idiotas que tinham helicóptero agora tem jatinhos e suas próprias ilhas particulares. Se isso acontecer, poderemos ver uma ruptura massiva na politica e uma sociedade afrontada e prestes a se romper”.

Assinale-se que 1% da população dos EUA (320 milhões de pessoas; 1% = 3,2 milhões) detém 42% da riqueza nacional (US$ 22 tri x 40% = US$ 9.240 tri). O que dizer agora quando há 32 milhões de desempregados, equivalente 14,7% da força de trabalho? Em dez 2019, era apenas 3,6%, percentual muito confortável, considerado pleno emprego.

O Brasil também ostenta grande concentração de renda. A metade de trabalhadores com carteira assinada (cerca de 50 milhões), ganha menos de mil reais por mês e aproximadamente 45 milhões de patrícios nossos não têm renda fixa. A sociedade brasileira ainda não atentou para o tamanho desse desafio, ignora alguns riscos e subestima o que está por vir.