O dia em que conheci o rei Pelé

Pelé representa algo muito maior que o futebol inigualável que jogou


Por Fábio Campos
fabiocampos@focus.jor.br

Foi na Câmara dos Deputados, em 07 de dezembro de 1995.

Estava em Brasília enviado pelo jornal O Povo para cobrir as reformas econômicas que marcaram o primeiro ano de Fernando Henrique Cardoso à frente da Presidência da República. Edson Arantes do Nascimento, o rei Pelé, era ministro Extraordinário dos Esportes. Pelé, sempre extraordinário.

Nos corredores da Câmara, soube da presença do Rei. Ele havia se prontificado a falar numa CPI criada para investigar casas de bingo. Não era meu tema e foco, mas não poderia perder a chance de ver de perto o maior de todos os tempos.

Logo ao chegar na sala, Pelé foi cercado por jornalistas, microfones, cinegrafistas, funcionários da Casa e parlamentares. Um tumulto digno da realeza. Fiz o mesmo.

Alguma chance de conseguir uma foto com ele? Difícil. Não eram tempos de smartphones e nem selfies.

Limitei-me a ficar perto. Em minha trajetória profissional, sempre mantive altivez diante do poder. Distância regulamentar e atitude de respeito profissional. Mas o ministro Pelé era extraordinário. Quem ama futebol saúda o Rei. E todos ali que o cercavam tinham a atitude dos súditos.

Nos cerca de dois ou três minutos antes de Pelé sentar-se à mesa, apenas o admirei. Era para mim um privilégio ficar perto. O olhei dos pés à cabeça. Comparei minha altura com a dele. “Putz, sou um pouco mais alto do que Pelé”. Apaguei logo esse pensamento. Que ousadia fazer tal comparação.

A defesa do século, um dos “gols” de Pelé que não balançou as redes.

Logo me veio à mente um daqueles gols que Pelé não fez. Um contra a Inglaterra na Copa de 70. Pelé subiu mais alto que os gigantes ingleses. Testou como manda o figurino real. Com força, para baixo, no canto. O lance fez a fama de Gordon Banks o autor da ” defesa do século”.

Naquela época, eu estava lendo um livro de crônicas de Nelson Rodrigues, um apaixonado por futebol e único intelectual de pensamento de direita amado (nem que seja de modo inconfessável) pela esquerda. Lá estava o primeiríssimo texto de Nelson sobre Pelé, escrito em 1957.

“Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem: verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. (…)”

Rei aos 17? Sim, rei que é rei nasce rei.

Nelson anteviu o que viria em 1958: “Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas de pau”.

O chef Marcus Samuelson tem em Pelé sua primeira referência.

Por esses dias, terminei uma autobiografia de Marcus Samuelson, um etíope adotado por um casal sueco que se tornou um famoso chef de cozinha nos EUA. Sua infância até entrar na fase adulta foi em Gotemburgo, cidade que teve o prazer de ver os primeiros atos mundiais do reinado de Pelé.

Em um trecho, o relato de Marcus diz muito sobre o que Pelé representou para todos os africanos e afrodescencentes. Ainda adolescente, ele ganhou um livro biográfico de Pelé. E conta:

“Fiquei de boca aberta quando li que Pelé veio a Gotemburgo aos 17 anos para a final da Copa de 1958. No livro, Pelé descreveu a sensação de entrar no Nya Ullevi Stadium, que fica a poucos quilômetros de minha casa, vestindo a camisa 10. Ele sabia, que o estádio inteiro tinha os olhos grudados nele, perguntando-se quem era aquele garoto negro e magricela.”.

E arremata: “Pelé foi o meu primeiro herói, minha primeira referência de cidadão negro e aquele livro significou tudo para mim”.

Compreendem? Diversas gerações de pretos têm em Pelé, que inaugurou a ideia do atleta global, como a primeira trajetória de referência no mundo.

Pelé representa algo muito maior que o futebol inigualável que jogou.

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.