O crucial tema do 1º embate na disputa pela Prefeitura de Fortaleza

A resposta do Capitão ao governador foi no estilo "paz e amor". A postura talvez não resolva o imbroglio.


Capitão Wagner, deputado Soldado Noélio e vereador Sargento Reginauro: irmãos de farda e de trajetória política.

Enfim, deu-se o primeiro embate público na disputa pela Prefeitura de Fortaleza. Obviamente que a questão do motim dos policiais, em fevereiro passado, se tornaria um ponto importante e, talvez, decisivo, da campanha. Não poderia ser diferente. E tudo veio a partir de uma resposta do candidato Capitão Wagner (Pros) quanto à sua posição caso esteja sentado na principal cadeira do Paço Municipal e ocorra movimento similar.

A resposta do candidato foi a seguinte: “Em nenhum momento, eu me posicionei a favor de qualquer paralisação aqui na cidade de Fortaleza ou no Estado do Ceará. Eu tenho muita responsabilidade com essa questão e, por conta disso, fui inclusive desgastado em rede social por policiais que queriam fazer o movimento, e a gente foi contra a realização. De forma nenhuma, a gente vai incentivar esse tipo de acontecimento. O que aconteceu esse ano foi, de fato, um posicionamento radical de ambos os lados (Governo e PM), tenho que frisar isso”, destacou.

Foi a deixa para que tanto o governador Camilo Santana quanto o prefeito Roberto Cláudio fossem para o ataque.

Do governador: “Li hoje no DN entrevista do Capitão Wagner dizendo não ter apoiado o motim deste ano, que aterrorizou o Ceará. Não é verdade. Tanto liderou o motim de 2011, como teve participação direta nesse último motim, que teve clara motivação política, para desorganizar a segurança do Estado”.

Com levantada de bola de Camilo, RC deu o corte: “O povo de Fortaleza lembra bem: Capitão Wagner foi o comandante do motim que gerou muitas mortes e trouxe insegurança para toda a população de Fortaleza. A verdade, como corajosamente declarou o Governador Camilo Santana, é que Capitão Wagner esteve envolvido, sim, diretamente no movimento desse grupo de policiais… Ele chegou a discursar, inclusive, no batalhão dos amotinados encapuzados e tendo seus aliados na linha de frente”.

Na sequência, o Capitão subiu na rede e tentou bloquear o ataque e a cortada: “Desejo ao governador o pronto reestabelecimento da sua saúde! Nossa campanha tá linda e alegre. Não vou para um embate que não foque nas soluções para os problemas de Fortaleza”.

É o resumo. Vamos ao comentário.

Ponto 1: no que diz respeito aos acontecimentos de fevereiro passado, o deputado federal Capitão Wagner liderou todo o processo de negociações com o Governo em torno das reivindicações dos policiais militares. Sim, sempre havia a ameaça de motim no ar. Sim, a organização se deu aos moldes do sindicalismo. O que é muito perigoso em se tratando de servidores armados e proibidos pela Constituição de fazer greve. Daí o nome adequado para classificar o movimento ser “motim”.

Ponto 2: o Capitão comemorou o acordo firmado com o Governo como uma grande vitória enquanto, em paralelo, o movimento caminhava célere para o motim com homens mascarados e armados a tomar de assalto um quartel em Fortaleza e vários outros no Interior. Os acontecimentos são bem conhecidos: policiais amotinados, mascarados e armados. Cidadãos aterrorizados. Tudo em pleno Carnaval.

Comentário: o Capitão deveria ali, naquele momento, ter feito a dura crítica ao motim. Teria feito a coisa certa e, do ponto de vista político, teria crescido muito. Não foi bem assim que as coisas se deram. Mas, que se diga: sabemos que foi ele o condutor e líder do motim de 2011. Não sei se o deputado conduziu ou liderou o motim de fevereiro passado. Não tenho elementos para afirmar.

Porém, sabemos com certeza que o Capitão não condenou aquele lamentável movimento. Sabemos que não fez a crítica pública aos amotinados. Apenas se esgueirou em meio à difícil e complexa situação para não perder sua principal base política, que é formada pelos profissionais da segurança pública e suas famílias. Sabemos também que o Capitão, durante os diasde duração daquele evento, dirigia críticas ao Governo e ao governador por se recusar a negociar. Ora, a negociação já havia ocorrido e o Capitão era um dos negociadores.

De lá para cá, a coisa toda foi mantida em panos quentes. Mas, um evento daquela dimensão não tinha como ficar debaixo do tapete em plena campanha eleitoral. Naturalmente, esse esqueleto sairia do armário. Ainda está vivíssimo na mente de todos.

A pergunta feita pelos jornalistas do DN se relaciona sim com a cidade. É uma pergunta crucial: como o Capitão, se eleito prefeito de Fortaleza, vai se comportar diante de um novo motim? A questão ficará martelando e, para o bem da candidatura do Capitão, é bom que a encare com a máxima seriedade e sinceridade.

Na campanha, o deputado federal está fazendo as coisas certas. É uma campanha bem feita e jovem. Com as cores e as luzes que se relacionam com a história da Cidade. Com pouco tempo no horário eleitoral, está usando com maestria as redes sociais. Um banho: tem 298 mil seguidores no Facebbok contra 24 mil de José Sarto.

A resposta do Capitão ao governador foi no estilo “paz e amor”. A postura talvez não resolva o imbroglio.

Atentem para um detalhe: na campanha, o soldado, o cabo, o sargento e similares estão sendo mantidos à uma distância providencial em relação ao candidato. Afinal, candidato de corporação não amplia.

Na campanha, o Capitão se cercou de civis. A leveza do senador Eduardo Girão é um contraponto ao histórico do militar de punhos cerrados. A candidata a vice tem personalidade e tem o que dizer. Porém, fica sempre a interrogação: se o Capitão ganhar, a turma amotinada vai dar cartas na cidade?

Sim, a pergunta vai martelar e o deputado Capitão Wagner precisa enfrentar o tema já. Melhor assim. Para todos.

 

Fábio Campos

Jornalista graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi repórter de política e articulista do O Povo, o mais tradicional veículo de jornalismo impresso do Ceará, onde editou a Coluna Política por 14 anos (1996-2010) e a Coluna Fábio Campos por sete anos (2010-2017). Também foi editorialista do mesmo veículo entre 2013 e 2017. Concomitantemente às funções no jornal, editou o Anuário do Ceará por 15 anos, modernizando o conteúdo e o projeto gráfico da prestigiada publicação. Apresentou o programa Jogo Político na TV O Povo por 12 anos, ancorou o programa Contraponto na TV Cidade (Record), foi comentarista de política na TV Jangadeiro (SBT) e na rádio O Povo/CBN. Em agosto de 2017 iniciou a startup Focus.jor.