O banho de Cleópatra. Por Angela Barros Leal


Cleópatra. Foto: Divulgação

Por Angela Barros Leal*

Qual Cleópatra tomei um banho de leite. Esclareço: não me refiro ao majestoso banho de imersão em uma banheira transbordante do líquido, procedente de cabra, vaca, ovelha ou animal similar que existisse nas pastagens do antigo Egito, muito menos a um banho solenizado pela presença de servas, olhos contornados de negro, ante uma paisagem envolvendo o rio Nilo, áspides ocultas em meio ao junco, exóticas barcaças.

Meu banho foi bem mais doméstico, mais casual, sem rituais, sem planejamento e sem pretensões estéticas finais. Sem querer, por uma desatenção, por um movimento mínimo e descuidado do braço, derramei sobre mim um copo cheio de leite morno.

Recupero a ordem dos acontecimentos frame a frame, como em um filme em câmera lenta. No fogão, aqueci o leite na leiteira até o ponto exato de calor. Nem quente demais nem frio demais. Sentei na cadeira para o lanche da tarde, despejei devagar o leite dentro do copo, que aguardava sobre a mesa, e quando depositei a leiteira vazia ao meu lado o desastre aconteceu.

O copo alteou-se em salto acrobático como se vivo fosse. Por puro instinto consegui apanhá-lo ainda no ar, mas o líquido morno derramou-se inteiro sobre meu corpo, empoçando no colo e escorrendo para o assento da cadeira, em marcha inexorável.

Não que tenha sido um desastre em proporções épicas e marcantes, como poderia ter sido caso eu estivesse lidando com uma panela borbulhante de feijão, ou com uma xícara fervente de café. Aliás, susto à parte, a sensação me pareceu freudianamente reconfortante e acolhedora, como se um veludo branco de repente me cobrisse, me aquecesse, ajustasse a temperatura do meu sangue alguns graus acima do usual.

Claro que não recomendo a experiência a ninguém, tanto pelo desperdício culposo quanto pelas medidas posteriores ao fato: panos e guardanapos para enxugar a mesa; para absorver o líquido espalhado no chão; para secar a cadeira plástica da cozinha, a ser lavada em seguida; roupa para lavar; banho a tomar. Toda uma sequência de procedimentos geradores de trabalho, consumidores de tempo, retardadores do lanche.

Não adianta chorar sobre o leite derramado, é o que penso enquanto cuido da limpeza, culpando a mim mesma já que não tenho ninguém mais a quem responsabilizar. Total e completamente sem querer. Evito remorsos sobre o desperdício do produto, vindo de tão longe para encontrar seu fim como uma poça branca, dispersa de forma irregular sobre a lajota vermelha.

Branco e vermelho, leite e sangue. Conta-se que uma condessa húngara do século XVI banhava-se em sangue de virgens como o mesmo propósito rejuvenescedor de Cleópatra. Difícil entender a lógica que embasava ambas decisões, igualmente inusitadas. Se estou experimentando o trabalho que dá limpar o leite derramado, imagino como seria, caso de tratasse do outro líquido, dono de mais sinistras conotações.

Leite e sangue. Ambos vitais, reflito ajoelhada, enquanto esfrego a lajota e os rejuntes onde houve maior acúmulo. Cada coisa no mundo representa a si mesma e mais outra coisa, escreve o israelense Amos Oz no livro Rimas da Vida e da Morte. Sendo assim, o leite poderia se identificar com a vida. O copo, a um dosador, uma compartimentalização dela. Meu ato inconsciente de derrubar o copo poderia ser, portanto, uma recusa a algo guardado nos compartimentos da vida.

Menos, menos – me repreendo, descendo das elevadas esferas de uma pseudo psicanálise para o chão firme, que recebe os derradeiros e perfumados toques de limpeza. Tudo vai ficar como dantes no quartel de Abrantes, como dizia meu pai, despertando curiosidade sobre o personagem citado, decerto alguém apegado aos hábitos e avesso a mudanças. Tudo está no seu lugar.

Vou tomar banho, trocar de roupa, arriscar outra vez a repetição do mesmo lanche. Mas vai permanecer em mim, de um jeito meio culpado, o instante mágico em que me banhei com o toque sedoso e cálido do leite derramado, de uma tarde em que, inadvertidamente, estabeleci fugaz irmandade com a consagrada Cleópatra.

A opinião da autora não reflete a opinião do Focus*

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.